Eliane F.C.Lima
Um dos problemas na relação apreciador (e aí incluído o leitor) e a obra de arte é a confusão entre a obra e seu referente. E quando falo de “referente”, neste momento, reporto-me aos elementos, em termos de literatura, tanto reais como imaginários, pertencentes ao mundo extralinguístico, que o enunciado, em um texto, utiliza.
Posso dar dois exemplos de referente, para facilitar o entendimento, um na canção e outro na pintura.
Um dos problemas na relação apreciador (e aí incluído o leitor) e a obra de arte é a confusão entre a obra e seu referente. E quando falo de “referente”, neste momento, reporto-me aos elementos, em termos de literatura, tanto reais como imaginários, pertencentes ao mundo extralinguístico, que o enunciado, em um texto, utiliza.
Posso dar dois exemplos de referente, para facilitar o entendimento, um na canção e outro na pintura.
Durante uma conversa, na praia, alguns amigos não concordavam com o fato de que a família de um dos compositores da famosa “Garota de Ipanema”, segundo eles (confirme aqui, lendo a reportagem), tentasse impedir que sua musa usasse o nome da canção junto a seu nome. Para eles, os artistas deviam isso a ela. Argumentei, então, explicando o que era referente. Mesmo que se deva reconhecer que a moça da época era bastante bonita, se não fosse o gênio poético de Vinicius e do Tom, ela continuaria a “vir e a passar”, no mais absoluto anonimato. O que a fez famosa, a ela, e não o contrário, foi a música dos dois. Foi a canção que encantou o mundo. Genial era a música. Foi para cantá-la – a canção, bem explicado! – que Sinatra procurou por Tom. Uma pedra pode ser um referente e dela um artista de grande genialidade fazer uma obra de arte.
Outra comprovação é a famosa “Mona Lisa”, de Da Vinci. Quem é aquela mulher? Várias hipóteses já foram levantadas. Como ninguém a conhece, não é ela que faz a admiração do quadro. Não é em seu rosto que se vê aquele sorriso enigmático, mas na pintura. Alguns analistas apontam o horizonte irregular, atrás da figura, como o responsável pelo mistério. De todo modo, é a personagem da obra o encanto dos olhares.
Para exemplificar isso, veremos o referente “lua”. Lá no céu, olha para os seres humanos todas as noites. Alguns nem a veem. Outros, além de a perceber, fazem uso dela das mais variadas formas. É sobre essa variedade de tratamento, ou seja, essa poetização de nosso satélite preferido, que vamos falar.
Para exemplificar isso, veremos o referente “lua”. Lá no céu, olha para os seres humanos todas as noites. Alguns nem a veem. Outros, além de a perceber, fazem uso dela das mais variadas formas. É sobre essa variedade de tratamento, ou seja, essa poetização de nosso satélite preferido, que vamos falar.
Hoje à noite
Paulo Leminski
Lua alta
Faltei
E ninguém sentiu
minha falta
O texto de Leminski impressiona pela simplicidade na forma, mas de um conteúdo pleno de significado. Sobre a lua, o eu lírico só nos mostra que estava alta no céu. Não nos diz que estava cheia, nem clara, nem bela. Mas ao dizer que ninguém percebeu a falta dele, deixa entrever o predomínio da lua no céu, e o encantamento de todos, que não conseguiram ver nada além dela. Leva, desse jeito, o leitor à coautoria do poema. É ele, leitor, que constrói na imaginação uma lua cheia, clara, bela.
Embora, habilidosamente manipulada, entretanto, essa lua é muito o referente extralingüístico, ainda. A gente reconhece nela a nossa velha conhecida.
Embora, habilidosamente manipulada, entretanto, essa lua é muito o referente extralingüístico, ainda. A gente reconhece nela a nossa velha conhecida.
V
Haroldo de Campos
uma dança
de espadas
esta
escrita
delirante
lâminas cursivas
a lua
entre dois
dragões
com uma haste
de bambu
passar
por entre lianas
sem desenredá-las
No texto acima, de um dos articuladores da Poesia Concreta, a lua aparece meio transformada em atleta saltador de varas ou artista de circo, numa imagem plástica bonita daquele que olha para o céu e distingue sua imagem passando entre as trepadeiras enormes – lianas –, que pendem das altíssimas árvores tropicais. Porém, menos – ou mais? – do que lua, já se vê como metáfora da escrita poética. Esvazia-se de sua condição natural de referente. Vale dentro do universo da obra, é recurso estilístico.
Ismália
Alphonsus de Guimaraens
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
No texto de Guimaraens, o simbolista, encontramos um outro uso para o referente em estudo. Se na primeira estrofe, podemos nos reportar a uma lua concreta, que, inclusive se reflete no mar, os vocábulos “enlouqueceu” e “sonhar”, anteriormente postos, abalam nossa certeza, dúvida reforçada pelo termo “desvario”, na terceira quadra. A última estrofe instaura, definitivamente, com “As asas que Deus lhe deu”, uma opção longe da realidade físico-astronômica do referente. E se “Sua alma subiu ao céu”, o encontro almejado é já com uma lua mística.
Lua cheia
Cassiano Ricardo
Boião de leite
que a noite leva
com mãos de treva,
pra não sei quem beber.
E, que, embora levado
muito devagarinho,
vai derramando pingos brancos pelo caminho.
O último texto, do modernista Cassiano Ricardo, é o exemplo do que a arte pode fazer com um referente. Em seu poema, usa as metáforas como pincéis e tintas de um pintor. A metáfora que cria é uma obra prima.
A noite, inicialmente referente também, é instituído como agente de beleza de um céu enluarado. Se sua atuação é de pessoa, “as mãos de treva” descrevem a noite e anulam a simplificação. Observe-se que, fora o título, lua e luar não são nomeados, constituindo as metáforas “Boião de leite” e “pingos brancos” verdadeiras e magníficas perífrases.
Depois do estudo feito, pensemos novamente na “Garota de Ipanema”.
A noite, inicialmente referente também, é instituído como agente de beleza de um céu enluarado. Se sua atuação é de pessoa, “as mãos de treva” descrevem a noite e anulam a simplificação. Observe-se que, fora o título, lua e luar não são nomeados, constituindo as metáforas “Boião de leite” e “pingos brancos” verdadeiras e magníficas perífrases.
Depois do estudo feito, pensemos novamente na “Garota de Ipanema”.









