Pesquisar este blog

Carregando...

domingo, 18 de outubro de 2009

A autorreferência da poesia - Palavras sobre palavras 5

Eliane F.C.Lima

Um dos problemas na relação apreciador (e aí incluído o leitor) e a obra de arte é a confusão entre a obra e seu referente. E quando falo de “referente”, neste momento, reporto-me aos elementos, em termos de literatura, tanto reais como imaginários, pertencentes ao mundo extralinguístico, que o enunciado, em um texto, utiliza.

Posso dar dois exemplos de referente, para facilitar o entendimento, um na canção e outro na pintura.
Durante uma conversa, na praia, alguns amigos não concordavam com o fato de que a família de um dos compositores da famosa “Garota de Ipanema”, segundo eles (confirme aqui, lendo a reportagem), tentasse impedir que sua musa usasse o nome da canção junto a seu nome. Para eles, os artistas deviam isso a ela. Argumentei, então, explicando o que era referente. Mesmo que se deva reconhecer que a moça da época era bastante bonita, se não fosse o gênio poético de Vinicius e do Tom, ela continuaria a “vir e a passar”, no mais absoluto anonimato. O que a fez famosa, a ela, e não o contrário, foi a música dos dois. Foi a canção que encantou o mundo. Genial era a música. Foi para cantá-la – a canção, bem explicado! – que Sinatra procurou por Tom. Uma pedra pode ser um referente e dela um artista de grande genialidade fazer uma obra de arte.
Outra comprovação é a famosa “Mona Lisa”, de Da Vinci. Quem é aquela mulher? Várias hipóteses já foram levantadas. Como ninguém a conhece, não é ela que faz a admiração do quadro. Não é em seu rosto que se vê aquele sorriso enigmático, mas na pintura. Alguns analistas apontam o horizonte irregular, atrás da figura, como o responsável pelo mistério. De todo modo, é a personagem da obra o encanto dos olhares.
Para exemplificar isso, veremos o referente “lua”. Lá no céu, olha para os seres humanos todas as noites. Alguns nem a veem. Outros, além de a perceber, fazem uso dela das mais variadas formas. É sobre essa variedade de tratamento, ou seja, essa poetização de nosso satélite preferido, que vamos falar.

Hoje à noite

Paulo Leminski

Lua alta

Faltei

E ninguém sentiu

minha falta

O texto de Leminski impressiona pela simplicidade na forma, mas de um conteúdo pleno de significado. Sobre a lua, o eu lírico só nos mostra que estava alta no céu. Não nos diz que estava cheia, nem clara, nem bela. Mas ao dizer que ninguém percebeu a falta dele, deixa entrever o predomínio da lua no céu, e o encantamento de todos, que não conseguiram ver nada além dela. Leva, desse jeito, o leitor à coautoria do poema. É ele, leitor, que constrói na imaginação uma lua cheia, clara, bela.
Embora, habilidosamente manipulada, entretanto, essa lua é muito o referente extralingüístico, ainda. A gente reconhece nela a nossa velha conhecida.

V

Haroldo de Campos

uma dança
de espadas

esta
escrita
delirante

lâminas cursivas

a lua
entre dois
dragões

com uma haste
de bambu
passar
por entre lianas
sem desenredá-las

No texto acima, de um dos articuladores da Poesia Concreta, a lua aparece meio transformada em atleta saltador de varas ou artista de circo, numa imagem plástica bonita daquele que olha para o céu e distingue sua imagem passando entre as trepadeiras enormes – lianas –, que pendem das altíssimas árvores tropicais. Porém, menos – ou mais? – do que lua, já se vê como metáfora da escrita poética. Esvazia-se de sua condição natural de referente. Vale dentro do universo da obra, é recurso estilístico.

Ismália

Alphonsus de Guimaraens

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

No texto de Guimaraens, o simbolista, encontramos um outro uso para o referente em estudo. Se na primeira estrofe, podemos nos reportar a uma lua concreta, que, inclusive se reflete no mar, os vocábulos “enlouqueceu” e “sonhar”, anteriormente postos, abalam nossa certeza, dúvida reforçada pelo termo “desvario”, na terceira quadra. A última estrofe instaura, definitivamente, com “As asas que Deus lhe deu”, uma opção longe da realidade físico-astronômica do referente. E se “Sua alma subiu ao céu”, o encontro almejado é já com uma lua mística.

Lua cheia

Cassiano Ricardo

Boião de leite
que a noite leva
com mãos de treva,
pra não sei quem beber.
E, que, embora levado
muito devagarinho,
vai derramando pingos brancos pelo caminho.

O último texto, do modernista Cassiano Ricardo, é o exemplo do que a arte pode fazer com um referente. Em seu poema, usa as metáforas como pincéis e tintas de um pintor. A metáfora que cria é uma obra prima.
A noite, inicialmente referente também, é instituído como agente de beleza de um céu enluarado. Se sua atuação é de pessoa, “as mãos de treva” descrevem a noite e anulam a simplificação. Observe-se que, fora o título, lua e luar não são nomeados, constituindo as metáforas “Boião de leite” e “pingos brancos” verdadeiras e magníficas perífrases.
Depois do estudo feito, pensemos novamente na “Garota de Ipanema”.


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A poética de Pedro Kilkerry - Literatura de ontem 5

Eliane F.C.Lima

Pedro Kilkerry nasceu na Bahia e viveu de 1885 a 1917. Era filho de uma brasileira e um inglês ou irlandês. Apesar de ter conseguido se formar em Direito e falar diversas línguas, viveu pobre. Escreveu em prosa, fez traduções e publicou crônicas em jornais do estado. Mas o que ficou de maior foram seus poemas.

Esses nunca foram publicados, tendo-os escrito em papéis dispersos, o que dificultou sua publicação póstuma. Foi aos poucos sendo descoberto, mas veio à luz realmente com o livro de Augusto de Campos, um dos papas da Poesia Concreta, no livro ReVisão de Kilkerry.
Apesar de ser considerado um poeta simbolista, não há nada nos outros poetas simbolistas, que se compare à sua poesia. Constrói seus textos numa linguagem que surpreende a cada passo, por quebrar a sintaxe, a ordem lógica do pensamento, mesmo em poesia, que já, tradicionalmente, tem esse direito.
Muitos analistas o apontam como inaugurador da modernidade poética. Infelizmente, como eu comentei sobre o cânone, em meu perfil, as antologias que chegam aos estudantes, raramente oferecem ao jovem seus belos textos.
Quem desejar encontrar maiores esclarecimentos sobre o poeta, vale a pena clicar aqui e aqui.

É o Silêncio...

Pedro Kilkerry

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
(...)

E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E oh! minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.


O muro

Pedro Kilkerry

Movendo os pés doirados, lentamente,
Horas brancas lá vão, de amor e rosas
As impalpáveis formas, no ar, cheirosas...
Sombras, sombras que são da alma doente!

E eu, magro, espio... e um muro, magro, em frente
Abrindo à tarde as órbitas musgosas
— Vazias? Menos do que misteriosas —
Pestaneja, estremece... O muro sente!

E que cheiro que sai dos nervos dele,
Embora o caio roído, cor de brasa,
E lhe doa talvez aquela pele!

Mas um prazer ao sofrimento casa...
Pois o ramo em que o vento à dor lhe impele
É onde a volúpia está de uma asa e outra asa...


O poema de Kilkerry, a seguir transcrito, foi musicado por Cid Campos e gravado por Adriana Calcanhotto em seu álbum, muito apropriadamente denominado “A fábrica do poema”, o que contribuiu para divulgar a obra pouco conhecida do poeta. Na música, pode-se ouvir a voz de Augusto de Campos fazendo a leitura da segunda estrofe do poema. Quando ponho meu CD para tocar, costumo repetir a faixa muitas vezes.

O verme e a estrela

Pedro Kilkerry

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz,
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!
E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! Enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?
Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! Ceguei da tua luz?

Para ouvir o feliz resultado do encontro de todos esses talentos, na voz do próprio Cid Campos, clique abaixo. Agradeço ao YOUTUBE (aqui) .


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A poesia vibrante de Rosângela A. de Castro - Literatura, já 5

Eu, ao fundo, e a poeta Rosângela A. de Castro no REDEFEM, 2001,
Niterói, onde apresentei trabalho sobre a escritora Ondina

Ferreira. Os rostos das outras pessoas foram tampados
porque não foram avisadas da postagem da foto.

Eliane F.C.Lima

A poeta, cujos textos dou a público, e que continuará a se revelar em "Palavras sobre Palavras 6", é uma amiga muito querida. Conversar com ela sempre foi uma experiência e tanto. Eu saía das conversas enriquecida. Assunto de gente inteligente, uma cabeça de idéias arejadas. A poesia dela é um retrato fiel de quem ela é. Nunca vi ninguém que se dissesse tanto em textos: sua linguagem é seu conteúdo. Apresento-lhes Rosângela Abrahão de Castro.

Poema I

Mulheres gregas

Rosângela A. de Castro

e me rasgo em melodias
me costuro em alegrias
vãs
rota a alma
que não se quer nova
e perfeita

não me basta
ser penélope!



Poema II De noite - com Drummond

Rosângela A. de Castro que é isso de amar
quando mesmo purifica
arde faz uma ferida

que é isso de amar
que chateia e apurrinha
que me faz bem mesquinha

que é isso de amar
me acorda a toda hora
vira a cabeça e transtorna

que é isso de amar

bota pra dormir mais cedo
o faro do que dá medo

que é isso de amar
faz andar no fio da navalha
mas não há nada que valha
isso de muito amar


Poema III

Quebra-cabeça

Rosângela A. de Castro

Foi um deus-nos-acuda
sai de baixo
corre-corre
o beijo
o alvoroço
a pele aos saltos
o salto alto
nas nuvens
caí da cama
caí de cama
é cama-de-gato
a corda bamba
caramba
quase entro bem
entrei
pelo cano
saí de fininho
o trrriiimmm
o cheirinho
de novo
de salto alto
o gozo
o ui
manhã
os carros vão passando e eu esperando pra atravessar
eu sabia!
de novo
o outro
o mesmo
calor
cansaço
mente sempre
é o jeito
assim não dá
haja saco
haja papo
cuidado, uma palavra pode pegar!
pegou!

o amor é um triz.

Poema IV
Rosângela A. de Castro

nada que está fora
me preenche
o que me devora
de repente

enche de discórdia

o senso
lato e escrito

que a memória

aprisiona


Poema V

Rosângela A. de Castro

Querendo acertar no alvo do incerto
acertei a mosca do desassossego.

Mas desde sempre o que queria
Era descobrir aquela ferida antiga

E assim meio que distraída
Escorregar o cotovelo

Só pra ver teu sangue escorrendo
Doce denso imensa poça
Onde eu possa descansar.


Poema VI

Rosângela A. de Castro

a pérola
no fundo daquela ostra
tão rara
tão cara
e bela

o amor
no fundo do nosso tempo
só nosso
tão caro
doce
e belo

o beijo
no mundo da tua boca
tão calmo
tão mágico
doce
e terno






sábado, 10 de outubro de 2009

A mulher e o homem dentro de cada um - Comentando... 5

Eliane F.C.Lima

Vou inverter a ordem das postagens, pois, já que entrei pelo campo das histórias infantis, tenho mais alguns comentários a fazer.
O primeiro deles é que tais narrativas podem não ser tão infantis assim, se levarmos em conta o pensamento de Carl Gustav Jung - Suiça, 1875 - 1961 (ver foto ao lado e, para maiores informações, clicar aqui. Veja vídeos em que ele dá entrevistas aqui). Ele foi um dos pioneiros dos estudos com a mente, fundador da psicologia
analítica, conhecido popularmente por sua descoberta do inconsciente coletivo e por seus trabalhos com os arquétipos. O termo sincronicidade também ficou bastante conhecido. Têm ainda um certo trânsito popular os dois elementos psíquicos por ele estudados: anima e animus. Em minha tese de doutorado, O encontro com o arquétipo materno: imaginário e simbologia em Lya Luft (para pesquisa, clique aqui), faço uma leitura através de seus conceitos. (Para voltar para "Palavras sobre palavras 21, clique aqui).
De forma simplificada, a anima, presente no psiquismo masculino, teria características, culturalmente, identificadas como sendo de mulheres e o animus, as de homem, no psiquismo de mulheres. Conseguir incorporá-los à consciência seria uma das maneiras de se obter a totalidade e se chegar à individuação, objetivo fundamental na terapia junguiana e, convenhamos, o grande achado para a harmonia entre os seres humanos. Como se vê, Jung estava preparando o mundo, parece, para o futuro: hoje, buscar as características que se imaginam do sexo oposto - ou do gênero? -, dentro de si, é um dos projetos da humanidade.
Segundo suas conclusões, além dos sonhos propriamente ditos, mitos e contos de fadas têm um componente muito forte desse inconsciente. Assim, estudar esse tipo de produção levaria o leitor a um encontro com o inconsciente coletivo. Marie-Louise von Franz, estudiosa da mente, que seguia os conceitos de Jung e com ele colaborou, tem muitos livros sobre os contos de fada, sob esse ponto de vista (clique aqui). Vamos guardar todos esses dados para depois.
Desejo lançar, então, um olhar sobre as narrativas da Branca de Neve, A bela adormecida e A gata borralheira, como um todo, tenham elas que origem tiverem. Em todas elas, o elemento feminino apresenta-se fragilizado. Se no último, a jovem sofredora depende de um movimento de interesse do príncipe em pegar seu sapatinho - perdido apenas por um rasgo da sorte e não por estratégia da moça - e resgatá-la da pobreza e da injustiça, nos outros dois, adormecidas, o elemento feminino é, então, completamente reduzido a um retrato da passividade: nenhum movimento próprio em direção à sua redenção.
Deve-se, também, atentar para o fato de que nas três histórias, se o bem, por assim dizer, está nas três figuras masculinas, o mal parece ser uma característica do sexo oposto - a figura da Eva bíblica acusa as mulheres, a cada dia, disso.

Mas parece que quem reforça os comentários feitos nessa postagem em seu início e ecoa, entrelaçando poesia e psicologia, as conclusões de Jung, é o poeta português Fernando Pessoa (clique aqui e faça uma viagem pela obra dele). Deliciemo-nos com o maravilhoso poema, mas que parece perseguir com seu fecho o conceito de anima.



Eros e psique

Fernando Pessoa

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sonho ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fica, enfim, a indagação: tal qual o eu lírico do poema, Cinderela, a bela adormecida e a Branca de Neve, mais do que personagens de contos de fadas, serão, na verdade, uma imagem de anima, reflexo de uma psique masculina?