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quarta-feira, 4 de julho de 2012

A humanidade da personagem feminina machadiana

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

Quando se trabalha muito tempo com Literatura Brasileira, sempre se ouve, com frequência, a mesma observação sobre o tratamento dado por Machado de Assis a suas personagens femininas. Há uns quinze anos atrás, durante uma palestra sobre ele, veio o inevitável questionamento da plateia a quem falava na ocasião: “Por que o escritor retratava todas as suas mulheres ficcionais como latentemente traidoras e infiéis a seus maridos?”. A colocação tinha como escopo demonstrar que o escritor realista tinha uma visão diminuidora e negativa a respeito das mulheres assim representadas. Fosse eu a palestrante, faria as ponderações que agora faço aqui.
De início, devo dizer que a afirmativa implícita não é verdadeira. Posso, de memória, citar pelo menos quatro dessas figuras bastante relevantes, que são absolutamente poupadas pela pena machadiana. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Eugênia é uma moça coxa, como ali se diz, mas cuja personalidade a separa da visão que o escritor tem de toda a humanidade e que, em tempo, será aqui elucidada: é verdadeira, direta, honesta e de uma força moral que a coloca acima de qualquer outro ser. Mesmo em estado de sofrimento e pobreza extrema, sua dignidade é sequer arranhada.
Em Quincas Borba, encontramos Maria Benedita – personagem retratada com ares de honestidade e franqueza e que amará seu marido Carlos Maria com adoração de deus – e Fernanda – mãe amorosa e esposa exemplar, cujo comportamento ético ultrapassa esse limite domiciliar. A boníssima Dona Carmo, de Memorial de Aires – para mim um dos melhores romances do Machado
vem completar esse quarteto excepcional. E esse salvaguardar acaba contemplando o lado feminino da questão, pois nenhuma personagem masculina recebe daquele seu criador complacência semelhante.
Porque a obra ficcional de Machado, aí incluindo seus contos, retrata sua visão de mundo: o ser humano paga qualquer preço por reconhecimento e glória, vive em função da opinião alheia, precisa dela como precisa de ar. Todas as ações humanas, mesmo as mais inocentes ou aparentemente filantrópicas, escondem por baixo, uma intenção secreta dessa finalidade. Para atingi-la, qualquer obstáculo, mesmo à custa do sofrimento de algum semelhante, deve ser eliminado. A filosofia do Humanitas, que a personagem Quincas Borba desenvolve para Brás Cubas e para Rubião, nos dois romances citados acima, seria a teoria que toda essa obra ficcional exemplifica com seus enredos.
Ora, pertencendo as personagens femininas a essa humanidade – poupá-las seria apartá-las da raça humana –, teriam de seguir o mesmo comportamento. Como as mulheres do século XIX, época da obra focalizada, tinham suas vidas restritas ao ambiente doméstico, como apenas filhas, mães ou esposas, sem a ação social exercida pelos homens através de seus empregos, negócios, política, tal condição humana, repleta de negatividade, só poderia ser exercida dentro dos limites a elas impostos. Seu desejo de glória vem sempre adstrito a seus atributos físicos – ser a figura feminina central de um baile, ser amada, mesmo que não por seu marido – ou dependente das ações de seus parceiros. A personagem Virgília, de Memórias, é um exemplo clássico desse fato:

Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi; tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ministro.
- Pela minha vontade, já; pelas dos outros, daqui a um ano.

Virgília replicou:
- Promete que algum dia me fará baronesa?
- Marquesa, porque eu serei marquês.
Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera.
 


Naquele romance, embora a protagonista feminina seja retratada com todos os desvios de caráter que espanta a quem lê, o próprio Brás Cubas, o personagem/narrador, livre das amarradas sociais da vida, pois narra sua vida após a morte, retrata até mesmo a si com a mesma crueldade analítica que faz à sua parceira, bem como a todas as demais personagens femininas ou masculinas. Todos os traços de sua personalidade humana, que vem, impiedosamente reiterada em todos os capítulos dos  outros romances machadianos, a partir daí, aquinhoados também nos contos, são igualmente divididos entre os seres de ficção desse escritor,  sua crítica ferina e irônica, independente de classe social ou gênero.
Imagino que à lembrança da pessoa que acompanha esse sucinto estudo venha logo o nome de Capitu, a mais famosa personagem feminina do escritor. Seu desenho psicológico é realmente impressionante. José Dias, outra personagem, a caracteriza em uma das passagens do texto, como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Tal perfil retratado torna-se mais grave à medida que não há envolvido no comportamento da personagem nenhum desejo de glória ou motivação outra, a não ser a questão da infidelidade de esposa. Mas desejo remeter a minhas observações feitas em artigo anterior, no qual saliento a pouca credibilidade da palavra do suposto marido traído, justamente por ser ele que faz a narração e o traçado do perfil negativo da mulher, fazendo da leitora ingênua/leitor ingênuo a principal testemunha de suas palavras. O que Capitu realmente era jamais vivente algum ficará sabendo. A maldosa malícia – perdoem-me a redundância! – é da personagem  Bentinho – o marido ciumento –, não de Machado, responsável pela construção da figura masculina, não da figura feminina, que caberia ao outro.
Para a comprovação dos argumentos aqui expostos – e deleite intelectual e estético! –, recomendo a leitura da obra desse escritor – romances e contos –, sobremaneira a partir do romance de 1881.


Atenção: a foto acima anexada foi copiada do blogue O dolicocefalo (link)

Aguardo a quem gosta de literatura em meus blogues Poema Vivo (link) e  Conto-gotas (link).