Num futuro bem próximo, devo fazer uma postagem sobre a escritora Carolina Maria de Jesus e seu conhecido livro diário Quarto de despejo. Até breve.
Pesquisar este blog
sábado, 7 de junho de 2014
sábado, 22 de março de 2014
Parte III: A pseudo “alma feminina”: Senhora e o olhar do século XIX sobre a mulher.
A
heroína silenciada e a evolução do herói
Eliane
F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
A
terceira parte do estudo – reenfatize-se a leveza dele – sobre
Senhora, de José Alencar,
como caracterização da mulher do século XIX, usará como foco a
personagem romântica personificada em Aurélia Camargo,
a protagonista do romance.
Em primeiro lugar, é necessário se
ressaltar que tais protagonistas seguem um padrão de idealização,
que, de forma geral, enquadram as mulheres de então, ficcionais ou
não.
É indispensável também ser
ressaltado que a palavra “idealização” não traz em si uma
fixidez significativa, como aliás, a maioria dos termos: o ideal
para uma época pode não ser para outra.
Assim,
o ideal de mulher do século referido e compartilhado pela trama de
Senhora seria um ser
recatado, guardião da sacralidade do lar, consciente de seus
limites, principalmente intelectuais, cujo extremismo sentimental
faria dele só coração. Esses atributos comporiam um tipo
romântico.
Quem
lê o romance em questão imagina que Alencar faz, portanto, de sua
personagem um ser ímpar por desenhá-la diferente de tais padrões:
submete todos os seus pretendentes a sua vontade, é mais senhora de
seu tutor do que regida por ele, traça um plano racionalizado em
seus mínimos detalhes para sujeitar seu marido comprado a toda a
sorte de humilhações. Em vez de uma personagem “tipo” –
aquela que está submetida a um padrão comportamental, no caso, a
que seguisse fielmente o projeto romântico –, Aurélia seria uma
personagem “indivíduo” – aquela personagem que tem
características próprias e não pode ser identificada em outras
personagens. A alusão ao
termo “senhora”, que inclusive, dá título ao romance, refere-se
a esse aparente perfil da personagem principal:
Aurélia
tomou o braço do marido, e afastou-se lentamente ao longo da
alameda.
– Por
que me chama senhóra?
perguntou ela fazendo soar o ó com
a voz cheia?
– Defeito
de pronúncia.
– Mas
às outras diz senhora. Tenho notado; ainda esta noite.
– Esta
é, creio eu, a verdadeira pronúncia da palavra; mas nós, os
brasileiros, para distinguir da fórmula cortês, a relação de
império e domínio, usamos da variante que soa mais forte, e com
certa vibração metálica. O súdito diz à soberana, como o servo à
sua dona, senhóra. Eu talvez não reflita e confunda.
– Quer
isso dizer que o senhor considera-se meu escravo? – perguntou
Aurélio fitando Seixas. (p. 197)
Enganar-se-á,
porém, essa pessoa leitora, se não reparar em alguns detalhes
bastante importantes, que podem ser inferidos dos exemplos baixo e
que serão comentados a seguir e vão compondo uma personagem, que,
ao final do romance, se mostra a heroína romântica, por excelência.
– É
verdade! Desculpe-me, Aurélia, a precipitação... Ele
exige vinte contos de réis à
vista, até amanhã, sem o que não aceita.
– Pague-os!
….................................................................................................
Cobria-se-lhe
o semblante de uma palidez mortal; e por momentos parecia que a vida
tinha abandonado aquele formoso vulto, congelado em uma estátua de
mármore. (p. 57)
Nesse trecho, o tutor
informa à Aurélia que Seixas havia não só aceitado casar-se com
ela por um dote maior, desfazendo o arranjo matrimonial e financeiro
anterior que tinha com outra moça, mas exigia um adiantamento. É
importante se observar o transe emocional por que passa a personagem:
o que deveria ter sido recebido com alegria – o sucesso em
casar-se, por fim, com o antigo amado –, indica um sentimento
oposto: “uma palidez mortal”.
A personagem principal
já tinha, desde o início da trama, quando não possuía ainda
fortuna e entregara seu amor a Seixas em vão, fornecido pistas
concretas de suas características tão caras ao estilo de época:
– A
sua promessa de casamento o está afligindo, Fernando; eu lha
restituo. A mi basta-me o seu amor, já lho disse uma vez; desde que
mo deu, não lhe pedi nada mais. (p.104)
– […]
Mas Deus nos deu uma missão neste mundo, e temos de cumpri-la [disse
Seixas].
– A
minha é amá-lo. A promessa que o aflige, o senhor pode retirá-la
tão espontaneamente como a fez. Nunca lhe pedi, nem mesmo simples
indulgência, para esta afeição; não lha pedirei neste momento em
que ela o importuna. (p. 107)
Abandonando-a Seixas
por vender-se a primeira vez, a comoção por que passa a personagem
principal já aponta seu apego à idealização com que são
configuradas as mulheres de então, como se evidencia na passagem
adiante:
Recebeu
uma carta anônima. Comunicavam-lhe que Seixas a havia abandonado por
um dote de trinta contos de réis. Acabando de ler essas palavras
levou a mão ao seio, para suster o coração que se lhe esvaía.
Nunca
sentira dor como esta. Sofrera com resignação e indiferença, o
desdém e o abandono, mas o rebaixamento do homem, a quem
amava, era suplício infindo, de que só podem fazer ideia os que já
sentiram apagarem-se os lumes d'alma, ficando-lhes a inanidade.
Debalde
Aurélia refugiou-se nos primeiros sonhos de seu amor. A
degradação de Seixas repercutia no ideal que a menina criara em sua
imaginação, e imprimia-lhe o estigma. Tudo ela perdoou a seu
volúvel amante, menos o tornar-se indigno de seu amor.
Que
pungente colisão! Ou expelir do coração esse amor que tinha
decaído, e deixar a vida para sempre erma de um afeto; ou
humilhar-se adorando um ente que se aviltara, e associando-se
à sua vergonha. (grifo meu. p. 108)
Não é a lacuna do
amado que faz Aurélia sofrer, mas a lacuna do amor que desapareceria
por aquele não corresponder a esse.
Na noite das núpcias,
o marido descobre todas as motivações anteriores de sua mulher para
escolhê-lo dentre outros pretendentes mais legítimos. Ao conseguir
comprá-lo por um valor mais alto – Fernando aceita a proposta
feita anonimamente pelo tutor de Aurélia –, retomando-o da noiva
pela qual tinha sido preterida e que lhe oferecera também um dote, a
protagonista irá se decepcionar pela segunda vez, sendo esse um
golpe irrecuperável na idealização do amor. Na verdade, o fato
revelado por ela é o verdadeiro mote para o desenvolvimento da
narrativa.
– Conheci
que não amava-me, como eu desejava e merecia ser amada. Mas não era
sua a culpa e só minha que não soube inspirar-lhe a paixão, que eu
sentia. Mais tarde, o senhor retirou-me essa mesma afeição com que
me consolava e transportou-a para outra, em quem não podia encontrar
o que eu lhe dera, um coração virgem e cheio de paixão com que eu
o adorava. Entretanto, ainda tive forças para perdoar-lhe e amá-lo.
A
moça agitou então a fronte com uma vibração altiva:
– Mas
o senhor não me abandou pelo amor de Adelaide e sim pelo seu dote,
um mesquinho dote de trinta contos! Eis o que não tinha o direito de
fazer, e que jamais lhe podia perdoar. Desprezasse-me embora, mas
não descesse da altura em que o havia colocado dentro de minha alma.
Eu tinha um ídolo; o senhor abateu-o de seu pedestal e atirou-o no
pó. Essa degradação do homem
a quem eu adorava, eis o seu crime; a sociedade não tem leis para
puni-lo, mas há um remorso para ele. Não se assassina assim um
coração que Deus criou para amar, incutindo-lhe a descrença e o
ódio.
….................................................................................................
– […]
Entretanto, ainda eu afagava uma esperança. Se ele recusa nobremente
a proposta aviltante, eu irei lançar-me a seus pés. Suplicar-lhe
que aceite a minha riqueza, que a dissipe se quiser; mas consinta
que eu o ame. Esta última
consolação o senhor a arrebatou. Que me restava? Outrora atava-se o
cadáver ao homicida, para expiação da culpa; o senhor
matou-me o coração; era justo
que o prendesse ao despojo de sua vítima. (grifos meus. p. 120-121)
Após onze meses de vilipêndio, o
marido comprado restitui o dinheiro que recebera, conseguido com seu
trabalho e honestamente e, por esse modo, libera-se da palavra dada,
terminando com um casamento que, podia ser, então, uma prática
social, mas contrariava o idealizado casamento por amor. Nesse
momento, Seixas é alçado à condição de herói romântico,
situação a qual não correspondera até então. Diferentemente da
personagem protagonista, que tem um comportamento sempre preso aos
parâmetros da heroína literária epocal e, portanto, uma postura
estática, como constatam as mesmas passagens do romance, a
personagem masculina central evolui em direção ao papel que lhe
cabe na estética romântica. É nessa condição que ele,
finalmente, sobe a seu “pedestal”, à sua condição de ídolo e
tem, portanto, um lugar no coração ressuscitado da heroína.
– Pois
bem, agora ajoelho-me a teus pés, Fernando, e suplico-lhe que
aceites meu amor, este amor que nunca deixou de ser teu, ainda quando
mais cruelmente ofendia-te. (grifo meu, p. 234)
– Aquela
que te humilhou, aqui a tens abatida, no mesmo lugar onde
ultrajou-te, nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando seu
perdão e feliz porque te adora, como o senhor de sua alma. (grifo
meu, p. 234-235)
Duas particularidades
dos trechos, nem um pouco desprezíveis, ao
contrário, bastante significativas, saltam aos olhos de quem lê:
primeiro a subserviência
a que se entrega Aurélia – o vocábulo “abatida” pode ter o
significado de “diminuído em suas forças físicas e/ou morais”
–, ela sempre tão orgulhosa e altiva, ajoelhada, numa posição de
inferioridade frente ao marido. Pode-se
até imaginar uma ave que, acostumada a altos e grandes voos, é
caçada e se faz ao chão. A imagem é forte, mas corresponde
bastante ao trecho. Para
mostrar-se digna do amor de Fernando, ela tem de descer à condição
estabelecida para a mulher do século XIX. Se ele tem de subir em seu
pedestal, como ídolo, como herói, ela tem de ser rebaixada, para
corresponder a essa mesma idealização.
Segundo – e confirmando essa primeira particularidade –, a oposição que se estabelece na troca de posições entre Aurélia e Fernando – inadequadas até então, de acordo com os preceitos do Romantismo, caros ao século. O termo que é escolhido no texto não é apenas uma coincidência: ela, que era “senhóra” (rever p. 197)), abdica de sua posição e pede ao amado que se torne “o senhor de sua alma”. Invertem-se os papéis. Mais do que uma questão amorosa, evidencia-se uma submissão prevista pela sociedade. O fecho do romance indica, finalmente, que essa era a condição “essencial” para a paz e desejava desde o princípio pela própria Aurélia: “As cortinas cerraram-se, acariciando o seio das flores, cantavam o hino misterioso do santo amor conjugal.” (p. 235)
Segundo – e confirmando essa primeira particularidade –, a oposição que se estabelece na troca de posições entre Aurélia e Fernando – inadequadas até então, de acordo com os preceitos do Romantismo, caros ao século. O termo que é escolhido no texto não é apenas uma coincidência: ela, que era “senhóra” (rever p. 197)), abdica de sua posição e pede ao amado que se torne “o senhor de sua alma”. Invertem-se os papéis. Mais do que uma questão amorosa, evidencia-se uma submissão prevista pela sociedade. O fecho do romance indica, finalmente, que essa era a condição “essencial” para a paz e desejava desde o princípio pela própria Aurélia: “As cortinas cerraram-se, acariciando o seio das flores, cantavam o hino misterioso do santo amor conjugal.” (p. 235)
domingo, 9 de março de 2014
Parte II: A pseudo “alma feminina”: Senhora e o olhar do século XIX sobre a mulher.
Eliane
F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)
Antes de se iniciarem
os comentários sobre certos aspectos da narrativa propriamente dita
– esses dados são levantados na terceira parte –, chama-se a
atenção para o fato de que, na primeira parte do estudo sobre o
romance Senhora, foi citado o aproveitamentos dos costumes
sociais de meados do século XIX presentes no romance. Os exemplos
citados são tirados da 5.a edição da Editora Martin
Claret, da “Coleção a obra-prima de cada autor”.
Mas
essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com
os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha
ainda admitido ainda certa emancipação feminina.” (p.17)
Riam-se
todos destes ditos de Aurélia e os lançavam à conta de gracinhas
de moça espirituosa; porém a maior parte das senhoras, sobretudo
aquelas que tinham filhas moças, não cansavam de criticar esses
modos desenvoltos, impróprios de meninas bem-educadas. (p. 19-20)
Por
isso cresciam as tristezas e inquietações da boa mãe, pensar que
também esta filha estaria condenada à
mesquinha sorte do aleijão social, que se chama celibato. (p.45)
– Vendido!
– exclamou Seixas, ferido dentro d'alma.
– Vendido
sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica, sou milionária;
precisava de um marido, traste
indispensável às mulheres honestas. O
senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis,
foi barato; não se fez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a
minha riqueza por este momento. (p.81)
Nessas
circunstâncias, a mãe só via para a filha o natural e eficaz apoio
de um marido. (p. 90)
No
primeiro ensejo interrogou o moço acerca de suas intenções. Fez
valer o argumento formidável da sombra que um galanteio ostensivo
projeta sobre a reputação de uma menina, quando não o perfumam os
botões de laranjeira a abrir em flor. Lembrou também que a
preferência exclusiva afugentava os pretendentes, sem garantia do
futuro. (p.99)
Apesar da aparente
crítica dos costumes sociais da época em que se desenvolve a trama
literária – “Sou rica,
muito rica, sou milionária; precisava
de um marido, traste indispensável às mulheres honestas.” –,
uma
observação mais atenta dá a perceber que muitos dos conceitos que
são destilados por toda a obra acabam fazendo coro a esses mesmos
costumes, principalmente em relação à posição da mulher naquela
sociedade.
Para observar esse aspecto, começa-se a chamar a atenção para a posição do narrador, personagem criado como responsável pela enunciação, que, se parece estar em um ponto de vista externo, em algumas passagens se mostra uma presença subjetiva:
Para observar esse aspecto, começa-se a chamar a atenção para a posição do narrador, personagem criado como responsável pela enunciação, que, se parece estar em um ponto de vista externo, em algumas passagens se mostra uma presença subjetiva:
Suspeito
eu porém que a explicação dessa singularidade já ficou
assinalada. Aurélia amava mais seu amor do que seu amante; era
mais poeta do que mulher; preferia o ideal ao homem. (p.106)
E essa presença
subjetiva, responsável, portanto, pelos conceitos ali expostos, se
trai não somente pela presença explícita do pronome de primeira
pessoa. Os articuladores textuais escolhidos pelo narrador vão dando
conta de suas posições frente ao objeto narrado, como tão bem
descreveu os aspectos teóricos da análise do discurso. Como se
comprova no exemplo abaixo, se, à primeira vista, o trecho parece
apenas conter uma constação de época, o advérbio “felizmente”,
de natureza afetiva, mas francamente axiológico (que se manifesta
com um caráter de valor para o enunciador do discurso), tão bem
descrito pela teoria citada, abre, significativamente, o parágrafo:
o narrador se posiciona claramente a favor da “antiga educação
brasileira”, bem como pelas opiniões que recheiam toda a trama.
Felizmente
D. Camila tinha dado a suas filhas a mesma rigorosa educação que
recebera; antiga
educação brasileira, já bem rara em nossos dias,
que, se não fazia donzelas românticas, preparava
a mulher para as sublimes abnegações
que protegem a família e fazem da humilde casa um santuário. (O
grifo é meu – p.44)
Ainda,
refletindo sobre o exemplo anterior, pode-se argumentar que o termo
“abnegação” (renúncia, desprendimento, altruímo, sacrifício
de direitos), intensificado pelo atributo “sublime” (quase
sagrado), já permite a quem lê prever as concepções que esse
narrador tem – e o que valoriza – do papel social da mulher: o
silêncio, o recato, a não intervenção no processo social público.
À mulher estavam reservadas as “sublimes
abnegações que protegem a família e fazem da humilde casa um
santuário.”, ou
seja, o papel privado.
Era realmente para causar pasmo aos estranhos e susto a um tutor, a perspicácia com que essa moça de dezoito anos apreciava as questões mais complicadas; o perfeito conhecimento que mostrava dos negócios, e a facilidade com que fazia, muitas vezes de memória, qualquer operação aritmética por mais complicada e difícil que fosse.
Não
havia porém em Aurélia nem sombra do
ridículo pedantismo
de certas moças que, tendo colhido em leituras superficiais certas
noções vagas, se
metem a tagarelar de tudo.
Bem
ao contrário, ela
recatava sua experiência, de que só fazia uso, quando o
exigiam seus próprios interesses. Fora daí ninguém lhe ouvia falar
de negócios e emitir opinião acerca de coisas que não
pertencessem à sua especialidade de moça solteira. ( O grifo é
meu – p. 30)
E
a justificativa desse comportamento social não intervencionista é
equacionado claramente no delineamento da características do ser
“Mulher” – emocionais, presas ao coração, ao contrário dos
homens, presos
à razão
–, ser singularizado através do enquadramento de todas as mulheres
dentro de uma pretensa essência feminina, por assim dizer, essência
da qual, não foge nem a personagem Aurélia, mesmo com as
especificidades que apresenta como heroína do romance e, portanto,
um ser especial. Os exemplos são abundantes nas palavras do
narrador. Alguns trechos foram colocados em negrito para realce do
que se quer apresentar.
Era
uma expressão fria, pausada, inflexível, que jaspeava sua beleza,
dando-lhe quase a gelidez da estátua. Mas no lampejo de seus grandes
olhos pardos, brilhavam a irradiação da inteligência. Operava-se
nela uma revolução.
O
princípio vital da mulher abandonava seu foco natural, o
coração, para concentrar-se no cérebro, onde residem as
faculdades especulativas do homem.(p. 30)
Via-se
bem que essa altiva e gentil cabeça não carregava um fardo, talvez
o espólio de um crânio morto, jugo cruel que a moda impõe às
moças vaidosas. O que ela ostentava era a coma abundante de que
a tocara a natureza, como às árvores frondosas, era a juba soberba
de que a galanteria moderna coroou a mulher como emblema de sua
realeza. (p.64)
No
altivo realce da cabeça e no enlevo das feições cuja formosura se
toucava de lumes esplêndidos, estava-se debuxando a soberba
expressão do triunfo, que exalta a mulher quando consegue a
realidade de um desejo férvido e longamente ansiado. (p.74)
Seixas
ajoelhou aos pés da noiva, tomou-lhe as mãos que ela não retirava;
e modulou o seu canto de amor, essa
ode sublime do coração,
que
só as mulheres entendem, como somente as mães percebem o balbuciar
do filho.
(p. 80)
A
natureza dotara Aurélia com a inteligência viva e brilhante da
mulher de talento, que
se não atinge ao vigoroso raciocínio do homem,
tem a preciosa ductilidade de prestar-se a todos os assuntos, por
mais diversos que sejam. O que o irmão não conseguira em meses de
prática foi para ela estudo de uma semana. (p. 89)
Esse
fenômeno devia ter uma razão psicológica, de cuja investigação
nos abstemos; porque o coração, e ainda mais o da mulher que é
toda ela, representa o caos do mundo moral. Ninguém sabe que
maravilhas ou que monstros vão surgir desses limbos. (p.104)
Desse modo, percebe-se
que a leitura de um texto literário está longe de se constituir
apenas na fruição inocente de uma obra artística. Há muito mais a
ser revelado.
Mas, a despeito dos comentários anteriores sobre as particularidades sociais levantadas, quem leu a obra em questão se deparou com a magnificência da habilidade narrativa alencariana e foi envolvido por uma história da qual não conseguiu fugir até chegar a seu final surpreendente.
Convido a quem me lê a voltar para acompanhar a terceira parte, que fala mais abrangentemente dessa trama de Senhora, observada então a força que o texto tem.
Mas, a despeito dos comentários anteriores sobre as particularidades sociais levantadas, quem leu a obra em questão se deparou com a magnificência da habilidade narrativa alencariana e foi envolvido por uma história da qual não conseguiu fugir até chegar a seu final surpreendente.
Convido a quem me lê a voltar para acompanhar a terceira parte, que fala mais abrangentemente dessa trama de Senhora, observada então a força que o texto tem.
ESTE ESTUDO CONTINUA NA POSTAGEM
SEGUINTE.
quarta-feira, 5 de março de 2014
A pseudo alma feminina: "Senhora" e o olhar do século XIX sobre a mulher
PRAÇA JOSÉ DE ALENCAR - FLAMENGO - RIO DE JANEIRO
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)
Parte I
A postagem que ora se inicia é um superficial estudo sobre o magnífico romance Senhora, do escritor romântico José Martiniano de Alencar, que, nascido em 1829, no Ceará, falece muito jovem ainda, aos 48 anos (1877), o que permite ao público imaginar – uma vasta obra escrita em tão pouco tempo e mais de um romance em um mesmo ano –, que obra não teríamos, se nos fosse dada a sorte de ele ter vivido mais anos: os romances indianistas O guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874); os urbanos ou de costumes Cinco minutos (1856), A viuvinha (1857), Lucíola (1862), Diva (1864), A pata da gazela (1870), Sonhos d'ouro (1872), Senhora (1875) e Encarnação (1877 - publicação póstuma); os regionalistas O gaúcho (1870) O tronco do Ipê (1871), Til (1871) e O sertanejo (1875); os históricos As minas de prata (1865-1866) e A guerra dos mascates (1871-1873). O guarani é um verdadeiro romance épico.
Num olhar atento, percebe-se o plano nacionalista que Alencar seguiu de abarcar o Brasil em todas as suas variações geográficas, culturais e históricas, desde sua origem. Comparece-se apenas, por exemplo, O sertanejo (região Nordeste), O gaúcho (região Sul) e os vários romances urbanos, cujas tramas transcorrem no Rio de Janeiro.
Senhora é uma análise da sociedade brasileira urbana do século XIX. No romance, são abordadas, com olhar crítico, várias instituições sociais da época, como o casamento das classes favorecidas economicamente através de uma transação comercial. A par deste aspecto, outros costumes sociais vêm à tona.
Aurélia, a heroína-título, a príncipio paupérrima, que, ao contrário das mocinhas da época – à primeira vista, a protagonista parece contrariar o perfil de mulher de então –, não treme por um casamento, vê frustrado, no entanto, seu desejo de realização puramente amorosa, justamente subjugado aos ditames sociais do contrato de núpcias comercial, o que dá ensejo ao enredo envolvente do romance. A herança que recebe – no Romantismo quase sempre havia uma inesperada herança – permite realizar uma vingança contra o amado vendido para outra. Desse modo, a trama é dividida em quatro partes e os títulos procuram denunciar, não só a intenção de Aurélia ao “comprar” Fernando Seixas, como mostrar a crítica feroz que a mesma empreende contra a sociedade que a maltratara, usando seu próprio veneno: “Primeira parte: O preço”; “Segunda parte: Quitação”; “Terceira parte: Posse” e “Quarta parte: Resgate”.
O estudo ora iniciado e continuado em postagens posteriores tem como finalidade, na verdade, mostrar como, apesar das intenções de análise e crítica social, Alencar não consegue fugir da visão da época – está preso a ela, como qualquer um, pois é a “sua” época – e submerge nas comuns concepções de então sobre a mulher, concepções, aliás, que ainda continuam a ser repetidas até hoje.
ESTE ESTUDO CONTINUA NA POSTAGEM SEGUINTE.
Visite ainda os blogues Conto-gotas (link) e Poema Vivo (link).
domingo, 5 de janeiro de 2014
O bem-aventurado mundo da poesia
Eliane
F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)
O
estudo de hoje é sobre Mário Quintana.
Além
de poeta (1906-1994), foi tradutor e jornalista. Por sua importância
na literatura – em 1980, recebeu o prêmio Machado de Assis e em
1981, o prêmio Jabuti –, chegou a ser indicado para a Academia
Brasileira de Letras, embora a justiça não tenha sido feita. A
literatura perdeu pouco, pois seus textos não ficaram menos
magníficos por isso.
Se
seus poemas encantam, famosas ficaram, do mesmo modo, frases que
deliciam gerações:
Dos
grilos
Toda
a noite os grilos fritam não sei o quê. A madrugada chega, destampa
o panelão: a coisa esfria.
Da
relativa igualdade
Democracia?
É dar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada,
isso depende de cada um.
O
trágico dilema
Quando
alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos
dois é burro.
Camuflagem
A
esperança é um urubu pintado de verde
O
pior
O
pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.
Incorrigível
O
fantasma é um exibicionista póstumo.
Mentira?
A
mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.
Provérbio
O
seguro morreu de guarda-chuva.
Mas
há um poema a ser estudado, que aprecio muito, e que se estrutura
sobre um tema que, como se verá adiante, tem, não só ligações
literárias, mas, ouso dizer, psicológicas, através dos sujeitos
líricos, com outro poema transcrito em seguida. Vamos lê-lo,
inicialmente.
Eu
nada entendo
Mário
Quintana
Eu
nada entendo da questão social.
Eu
faço parte dela simplesmente...
E
sei apenas do meu próprio mal,
Que
não é bem o mal de toda gente,
Nem
é deste Planeta... Por sinal
Que
o mundo se lhe mostra indiferente!
E
o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É
quem lê os meus versos afinal...
E
enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo
regendo estranhas contradanças
No
meu vago País de Trebizonda...
Entre
os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É
lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos
comuns desejos e esperanças!...
(In
Nariz de vidro – São Paulo:
Moderna, 1984, p.17)
A
primeira observação a ser feita é de que há, nitidamente, uma
ruptura entre o mundo indiferente de toda gente, que se posta de um
lado, e aquele “eu” e seu Anjo da Guarda, que se postam no mesmo
lado que os Loucos, os Mortos e as Crianças.
E
há até a fixação de espaços diferentes para esses dois mundos:
um está neste “Planeta”; mas o sujeito poético constrói para
si e seus pares um “vago País de Trebizonda”, um “lá”, onde
é possível cantar, “numa eterna ronda,/Nossos comuns desejos e
esperanças”, sentimentos – “E sei apenas do meu próprio mal”
– a que o mundo se mostra indiferente.
É
importante observar que esse vago país é um local de exceção,
onde pode penetrar o Anjo da Guarda, que, afinal, é o único que lê
os versos desse sujeito poético, compartilhando-lhe o mal e, ainda,
seus desejos. Um local subjetivo onde é possível a realização de todas as ações e sonhos interditos no Planeta de onde o eu poético se evade.
Mas
a porta secreta dessa terra particular – seriam
os versos a
chave incógnita? – é
aberta a outras entidades
excepcionais, como os mortos, as crianças e os loucos, porque
sempre exclusos dos limites
do senso comum. A poesia –
e poetas, como seres igualmente de exceção –, como se conclui,
transita, igualmente, muito além dos padrões aceitos nas “questões
sociais”.
Vale a pena ler, agora, o poema de
Manuel Bandeira, citado no início e se verificar como tange,
similarmente, o tema do território inatingível da bem-aventurança,
só alcançado através da poesia.
Vou-me
Embora pra Pasárgada
Manuel
Bandeira
Vou-me
embora pra Pasárgada
Lá
sou amigo do rei
Lá
tenho a mulher que eu quero
Na
cama que escolherei
Vou-me
embora pra Pasárgada
Vou-me
embora pra Pasárgada
Aqui
eu não sou feliz
Rainha
e falsa demente
Vem
a ser contraparente
Da
nora que nunca tive
E
como farei ginástica
Andarei
de bicicleta
Montarei
em burro brabo
Subirei
no pau-de-sebo
Tomarei
banhos de mar!
E
quando estiver cansado
Deito
na beira do rio
Mando
chamar a mãe-d'água
Pra
me contar as histórias
Que
no tempo de eu menino
Rosa
vinha me contar
Vou-me
embora pra Pasárgada
Em
Pasárgada tem tudo
É
outra civilização
Tem
um processo seguro
De
impedir a concepção
Tem
telefone automático
Tem
alcaloide à vontade
Tem
prostitutas bonitas
Para
a gente namorar
E
quando eu estiver mais triste
Mas
triste de não ter jeito
Quando
de noite me der
Vontade
de me matar
—
Lá sou amigo do rei —
Terei
a mulher que eu quero
Na
cama que escolherei
Vou-me
embora pra Pasárgada.
(In Estrela da vida Inteira.
Rio de Janeiro, S. Paulo: Record, /s.d./, p.143-144)
Não é coincidência o fato de aqui
também surgir a presença do Louco - “Que Joana a Louca de Espanha
–, entrelaçado ao sujeito poético, apontando, novamente, para o
ser excêntrico, aqui empregado no sentido mesmo de “afastado ou
desviado de fora do centro”, numa terra subjetiva, um País de
Trebizonda, ora nomeado Pasárgada: “ Em Pasárgada tem tudo/É
outra civilização”.
Como se pode perceber, Trebizonda e Pasárgada são o território de todas as possibidades, a terra prometida do eu lírico doada a si mesmo.
Como se pode perceber, Trebizonda e Pasárgada são o território de todas as possibidades, a terra prometida do eu lírico doada a si mesmo.
Para fechar a argumentação, novo e
belíssimo texto do mesmo Mário Quintana.
Mário
Quintana
Se
eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não
falaria em Deus nem no Pecado
–
muito menos no Anjo Rebelado
e
os encantos das suas seduções,
não
citaria santos e profetas:
nada
das suas celestiais promessas
ou
das suas terríveis maldições...
Se
eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria
seus versos, os mais belos,
desses
que desde a infância me embalaram
e
quem me dera que alguns fosse meus!
Porque
a poesia purifica a alma
…
e um belo poema – ainda que Deus
se aparte –
um
belo poema sempre leva a Deus!
(Na
mesma obra de Mário Quintana, p. 44)
sábado, 28 de dezembro de 2013
FELIZ ANO NOVO
Desejo a todas as pessoas que têm visitado meu blogue em 2013 que o ano de 2014 seja pleno de realizações e muita paz. Teremos muitos compromissos como cidadãos, no próximo ano, e a sensatez, aliada à informação segura, deverão ser nosso norte. Nada de ouvir apenas a mídia comprometida com seus próprios interesses. A Internet está repleta de sites isentos e sérios. Vamos a eles.
Não me esqueci das novas postagens sobre literatura, mas, como estou escrevendo um livro de análise literária, conforme informei anteriormente, não tenho podido vir com muita frequência. Não imaginem, de forma alguma, que abandonei meus estudos aqui.
Há, no entanto, muita matéria a ser consultada neste espaço, se alguém se interessar, em postagens mais antigas. Convido, desse modo, minhas fiéis amigas e meus fiéis amigos a uma viagem para trás no blogue.
Comprometo-me a achar um tempo em meu afazer principal e postar mais em 2014.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Estudo de Escobar: desagravo a Capitu - PARTE II
Eliane F.C.Lima (Registrado no
Escritório de Direitos Autorais - RJ)
Na
primeira parte desse estudo sobre Dom Casmurro,
de Machado de Assis, foram feitas considerações sobre o caráter da
personagem Escobar, suposto lado de um triângulo amoroso, traçado
pelas
palavras de um marido, Bentinho, que se supõe traído, o que torna o
depoimento passível de dúvida. Foi chamada a atenção de quem lê
para dois fatores: a complacência com que o narrador vai enumerando
detalhes sobre o outro, que vão formando uma
índole no mínimo
suspeita,
ânimo bastante diferente que mantém em relação a ex-mulher
Capitu; a vocação “comercial” de Escobar, que será mais
detalhadamente explicitada neste segmento.
Quando
começa a frequentar a casa de Bentinho, o ainda postulante a
padre, impressiona a família do amigo. Apenas a velha prima,
extremamente crítica, enxerga nele o que os demais não veem. Mas a
observação que faz vem ao encontro daquilo que já vinha sendo
suspeitado por quem lê:
… e
prima Justina não achou tacha que lhe pôr; depois, sim, no segundo
ou terceiro domingo, veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar
era um tanto metediço e tinha uns olhos policiais a que não
escapava nada. (cap. XCIII)
Ao
contrário da prima, ao companheiro de seminário
surpreende o carinho e admiração com que o visitante se refere
sempre à D.a
Glória, sua mãe:
-
Também eu fiquei gostando de todos, mas é possível fazer
distinção, confesso-lhe que sua mãe é uma pessoa adorável. (cap.
LXXVIII )
Nem
de outro modo se explica a opinião de Escobar, que apenas trocara
com ela quatro palavras. (cap. LXXIX)
Insistia
na educação, nos bons exemplos, na “doce e rara mãe” que o céu
me deu... Tudo isso com a voz engasgada e trêmula.
Todos
ficaram gostando dele. (cap. XCIII)
Escobar
confessou esse acordo do interno com o externo, por palavras tão
finas e altas que me comoveram; depois, a propósito da beleza moral
que se ajusta à física, tornou a falar de minha mãe, “um anjo
dobrado”, disse ele. (mesmo capítulo)
Aos poucos, Escobar vai
amiudando a conversa sobre a viúva e Bentinho, ingenuamente,
vai dando as explicações.
-
Já fez quarenta, respondi eu vagamente por vaidade.
-
Não é possível! exclamou Escobar. Quarenta anos! Nem parece
trinta; está muito moça e bonita. Também a alguém há de você
sair, com esses olhos que Deus lhe deu; são exatamente os dela.
Enviuvou há muitos anos?
Contei-lhe
o que sabia dela e de meu pai. Escobar escutava atento, perguntando
mais, pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. […]
E não contávamos voltar à roça? (cap.
XCIII)
Mas os detalhes que vai
arrancando de Bentinnho não se limitam a aspectos pessoais da
senhora. Aos poucos, Bentinho acaba fazendo um verdadeiro inventário
dos bens da mãe: o número de escravos que tinha, todas as casas que
possuía alugadas, além da casa de Mata-Cavalos – hoje Rua do
Riachuelo – e a da roça:
-
O que me admira é que D. Glória se acostumasse logo a viver em casa
da cidade, onde tudo é apertado; a de lá é grande naturalmente.
-
Não sei, mas parece. Mamãe tem outras casas maiores que esta; diz
porém que há de morrer aqui. As outras estão alugadas. Algumas são
bem grandes, como a da Rua da Quitanda... (cap.
XCIII)
O interesse de Escobar
– travestido de qualquer outra coisa, como supõe o Bentinho da
época, mas do qual desconfia a pessoa que lê – vem como golpe
final, algumas páginas adiante:
Nem
ele sabia só elogiar e pensar, sabia também calcular depressa e
bem. […] Não se imagina a facilidade com que ele somava ou
multiplicava de cor. (cap. XCIV)
-
Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma porção de números que eu
não saiba nem possa saber antes... olhe, dê-me o número das casas
de sua mãe e os aluguéis de cada uma, e se eu não disser a soma
total em dous, em um minuto, enforque-me! (cap. XCIV)
O Dom Casmurro, o homem
já maduro que resolve narrar suas memórias, vai assim desenvolvendo
um perfil de Escobar, que se harmoniza com aquela guinada, pouco
compreendida, de seminarista a comerciante. É sem surpresa que a
perspicácia do comentário da prima é encontrado adiante:
Era
opinião de prima Justina que ele afagara a ideia de convidar minha
mãe a segundas núpcias. (cap. XCVIII)
E sem surpresa também
se percebe a natureza do interesse do rapaz pela mãe do amigo e do
motivo de sua desistência, surpreendido em suas próprias palavras:
“D. Glória é medrosa e não tem ambição.”
(mesmo capítulo)
Se o matrimônio com
D.a Glória não parece possível, a amizade com Bentinho,
o herdeiro, é passível de concretização. É de Escobar a ideia de
que a promessa da mãe do amigo de dar um padre a Deus, seja cumprida
por outro menino, um menino orfão. Assim sairiam os dois do
seminário e o casamento de Bentinho seria possível e a amizade
continuaria.
E é o que se verifica.
Porque o imprevisto casamento de Escobar com Sancha, a melhor amiga
de Capitu, a eleita de Bentinho e sua esperada futura esposa,
estreita e alicerça a amizade.
Venceu
Escobar; posto que vexada, Capitu entregou-lhe a primeira carta, que
foi mãe e avó das outras. Nem depois de casado suspendeu ele o
obséquio... Que ele casou, – adivinha com quem, – casou com a
boa Sancha, a amiga de Capitu, quase irmã dela, tanto que alguma
vez, escrevendo-me, chamava a esta a “sua cunhadinha”. Assim se
formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros.
(mesmo
capítulo)
Apesar
de Capitu e o marido terem esperado por um longo tempo a vinda de um
filho que parecia quase impossível – Sancha e Escobar já eram
pais de uma menina –,
nascidos os filhos de ambos, estabelecia-se a intimidade total dos
casais.
É o filho de Bentinho
e Capitu, entretanto, que, crescendo e teimando em imitar, em todos
os gestos e atitudes o marido de Sancha, que faz o pai levantar a
suspeita da traição de sua mulher com Escobar, mesmo depois da
morte desse. Não há, em toda a narrativa, nenhum dado concreto que
justifique as suspeitas do marido, a não ser suas conclusões
subjetivas, seu enorme sentimento de inferioridade diante de Capitu.
Inclusive, o próprio sentimento de Escobar em relação a sua filha
e o filho do amigo – “Escobar acompanhava muita vez as minhas
criancices; também interrogava o futuro. Chegava a falar da hipótese
de casar o pequeno com a filha”. (Cap. CVIII) – embaça no
espírito de quem faz a leitura a possibilidade de serem irmãos.
Seria o desejo de Escobar, lançado no meio do discurso do velho
narrador, uma pista para desfazer sua desconfiança paranoica? Ou, ao
contrário, para enfatizar o grau elevado e sem limites de uma jogada
comercial, que envolveria seus próprios filhos e garantiria ao comerciante a fortuna do outro?
De qualquer modo, o que
fica evidente, com uma leitura analítica, é a desigualdade de
tratamento com que são tratados os supostos parceiros de traição.
Apesar de ter seu temperamento esboçado, aos poucos, salva-se
Escobar do julgamento inclemente dado pelo memorialista à sua
mulher. Salva-se, ainda, desse mesmo julgamento feito pela opinião
pública e crítica nesses cem anos de publicação de Dom
Casmurro.
sábado, 10 de agosto de 2013
Estudo de Escobar: desagravo a Capitu
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
A reflexão de hoje será feita, em duas partes, sobre uma personagem de Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, personagem central na trama, mas que normalmente é relegada a segundo plano em comparação com a controversa personagem Capitu, que se torna o objeto principal da narração, na velhice, feita pelo ciumento marido – Bentinho –, cujo objetivo é sobrepor prova sobre prova da personalidade capciosa da ex-esposa e de sua suposta infidelidade: “olhos de ressaca”; “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, dentre outras. Tal figura feminina tem frequentado um número enorme de análises do romance, quase sempre com a mesma visão do narrador, indício de que a argumentação daquele atingiu seu intento principal, que era o de tomar quem lê – e desse destino não escapa a maioria dos críticos – como principal cúmplice de sua teoria.
Escobar é o amigo de Bentinho, amigo do seminário, que seria o par de Capitu nessa presumida traição, mas que, estranhamente, não tem tido o mesmo prestígio da companheira de ficção. Seria o destino de Capitu o mesmo da Eva bíblica – e sua serpente, como sua versão zoomórfica –, ou seja, ligado à maligna e traiçoeira “essência” feminina?
Ao longo de seu discurso, Bentinho também vai, aos poucos, fornecendo a seu destinatário sinais significativos – segundo sua visão parcial de narrador profundamente magoado e envolvido na história – da personalidade do companheiro, embora a aparente inocência com que o faz – ou seria complacência? – possa intrigar a pessoa leitora, se se confrontar com a implacabilidade de sua análise da personagem feminina. A tão somente contínua narração de passagens que dão pistas sobre o caráter de Escobar já faz quem lê suspeitar de que o estado de ingenuidade de Bentinho sobre o antigo camarada é falso, que ele pretende marcar o perfil de sua personagem masculina, o que surpreende sobre seu omisso e condescendente julgamento sobre ela, comparativamente ao inclemente juízo sobre Capitu. Se Escobar conseguiu fugir da condenação da personagem narradora, à época em que os fatos aconteciam, via morte – afoga-se nadando –, por que o sentimento de tolerância persiste, no final da vida de Bentinho, quando resolve fazer um balanço judicativo e implacável?
Façamos um breve preâmbulo sobre Escobar, o qual era três anos mais velho que o ingênuo amigo: primeiro é preciso se atentar para o fato de que, tendo se tornado amigos durante sua estada no seminário, o companheiro abandona seu desejo de ordenar-se padre – por quê? – praticamente à mesma época do protagonista, para dedicar-se ao comércio, o que, convenhamos, é uma guinada bem violenta em relação às intenções iniciais. Guardemos essa vocação “comercial” como um traço importante da sequência narrativa – e argumentativa – que está por vir.
Durante sua estada ali, fala repetidamente de uma irmã, louvando-lhe em excesso as qualidades, chegando ao ponto de mostrar a Bentinho as cartas que essa lhe envia. Quem lê já começa a estranhar essa porta aberta em sua intimidade – ou na intimidade de Bentinho –, o que não era comum naqueles tempos, ou a desconfiar de sua pretensão. Adiante, no mesmo capítulo, Bentinho completa, a respeito das palavras da irmã do outro, que “tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela se não fosse Capitu.”
Comecemos, então, a analisar o discurso de Bentinho sobre Escobar através – a suspeita sobre as palavras do Bentinho ciumento deve ser mantida pelo analista isento – da narrativa.
Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam as outras, nem se deixava apertar delas, porque os dedos, sendo delgados e curtos, quando a gente cuidava tê-los entre os seus, já não tinha nada. (capítulo LVI)
Uma coisa não seria tão fugitiva, como o resto, a reflexão: íamos dar com ele, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando. (o mesmo capítulo)
Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me frequentemente explicações e repetições miúdas, e tinha memória para guardá-las todas, até as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra. (o mesmo capítulo)
A reflexão de hoje será feita, em duas partes, sobre uma personagem de Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, personagem central na trama, mas que normalmente é relegada a segundo plano em comparação com a controversa personagem Capitu, que se torna o objeto principal da narração, na velhice, feita pelo ciumento marido – Bentinho –, cujo objetivo é sobrepor prova sobre prova da personalidade capciosa da ex-esposa e de sua suposta infidelidade: “olhos de ressaca”; “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, dentre outras. Tal figura feminina tem frequentado um número enorme de análises do romance, quase sempre com a mesma visão do narrador, indício de que a argumentação daquele atingiu seu intento principal, que era o de tomar quem lê – e desse destino não escapa a maioria dos críticos – como principal cúmplice de sua teoria.
Escobar é o amigo de Bentinho, amigo do seminário, que seria o par de Capitu nessa presumida traição, mas que, estranhamente, não tem tido o mesmo prestígio da companheira de ficção. Seria o destino de Capitu o mesmo da Eva bíblica – e sua serpente, como sua versão zoomórfica –, ou seja, ligado à maligna e traiçoeira “essência” feminina?
Ao longo de seu discurso, Bentinho também vai, aos poucos, fornecendo a seu destinatário sinais significativos – segundo sua visão parcial de narrador profundamente magoado e envolvido na história – da personalidade do companheiro, embora a aparente inocência com que o faz – ou seria complacência? – possa intrigar a pessoa leitora, se se confrontar com a implacabilidade de sua análise da personagem feminina. A tão somente contínua narração de passagens que dão pistas sobre o caráter de Escobar já faz quem lê suspeitar de que o estado de ingenuidade de Bentinho sobre o antigo camarada é falso, que ele pretende marcar o perfil de sua personagem masculina, o que surpreende sobre seu omisso e condescendente julgamento sobre ela, comparativamente ao inclemente juízo sobre Capitu. Se Escobar conseguiu fugir da condenação da personagem narradora, à época em que os fatos aconteciam, via morte – afoga-se nadando –, por que o sentimento de tolerância persiste, no final da vida de Bentinho, quando resolve fazer um balanço judicativo e implacável?
Façamos um breve preâmbulo sobre Escobar, o qual era três anos mais velho que o ingênuo amigo: primeiro é preciso se atentar para o fato de que, tendo se tornado amigos durante sua estada no seminário, o companheiro abandona seu desejo de ordenar-se padre – por quê? – praticamente à mesma época do protagonista, para dedicar-se ao comércio, o que, convenhamos, é uma guinada bem violenta em relação às intenções iniciais. Guardemos essa vocação “comercial” como um traço importante da sequência narrativa – e argumentativa – que está por vir.
Durante sua estada ali, fala repetidamente de uma irmã, louvando-lhe em excesso as qualidades, chegando ao ponto de mostrar a Bentinho as cartas que essa lhe envia. Quem lê já começa a estranhar essa porta aberta em sua intimidade – ou na intimidade de Bentinho –, o que não era comum naqueles tempos, ou a desconfiar de sua pretensão. Adiante, no mesmo capítulo, Bentinho completa, a respeito das palavras da irmã do outro, que “tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela se não fosse Capitu.”
Comecemos, então, a analisar o discurso de Bentinho sobre Escobar através – a suspeita sobre as palavras do Bentinho ciumento deve ser mantida pelo analista isento – da narrativa.
Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam as outras, nem se deixava apertar delas, porque os dedos, sendo delgados e curtos, quando a gente cuidava tê-los entre os seus, já não tinha nada. (capítulo LVI)
Uma coisa não seria tão fugitiva, como o resto, a reflexão: íamos dar com ele, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando. (o mesmo capítulo)
Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me frequentemente explicações e repetições miúdas, e tinha memória para guardá-las todas, até as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra. (o mesmo capítulo)
A reflexão dos exemplos acima já configura um ser esquivo, que pouco se deixa revelar – “não sabendo por onde lhe pegasse” –, mas que, ao contrário, tem como costume – pelo menos a Bentinho – investigar o outro.
Alguns parágrafos à frente, o narrador completa:
A princípio fui tímido, mas ele fez-se entrado na minha confiança. Aqueles modos fugitivos cessavam quando ele queria, e o meio e o tempo os fizeram mais pousados.
A impressão que fica é de alguém que quer observar miudamente, sem ser observado. E o resultado dessa observação – “... e tinha memória para guardá-las todas, até as palavras.” – parece estar contemplado naquele “cogitando”, termo cuidadosamente escolhido pelo narrador, pois cogitar é muito mais do que simplesmente pensar. Visto que os trechos anteriores fazem parte do mesmo parágrafo, concluí-se – essa provavelmente é a intenção do narrador no momento de seu relato – que a memória das explicações e repetições miúdas, dadas por Bentinho, devia ser, muita vez, a matéria do cogitar da personagem descrita.
Por último, é impossível, igualmente, não se encontrar semelhança entre o “não fitava de rosto”, para Escobar no primeiro exemplo, e “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, aplicados a Capitu.
Do mesmo modo, é igualmente impossível não se reconhecer afinidades entre o “... pedia-me frequentemente explicações e repetições miúdas” e o “olhos enfiados em si, cogitando”, isto é, no costume da “reflexão” sobre as informações persistentemente buscadas, por parte de Escobar e essas mesmas características na menina amada por ele:
Capitu refletia. A reflexão não era cousa rara nela, e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos. Pediu-me algumas circunstâncias mais, as próprias palavras de uns e de outros, e o tom delas. (cap. XVII)
Mostrar que Escobar e Capitu eram feitos um para o outro é a intenção do velho dom casmurro?
Alguns parágrafos à frente, o narrador completa:
A princípio fui tímido, mas ele fez-se entrado na minha confiança. Aqueles modos fugitivos cessavam quando ele queria, e o meio e o tempo os fizeram mais pousados.
A impressão que fica é de alguém que quer observar miudamente, sem ser observado. E o resultado dessa observação – “... e tinha memória para guardá-las todas, até as palavras.” – parece estar contemplado naquele “cogitando”, termo cuidadosamente escolhido pelo narrador, pois cogitar é muito mais do que simplesmente pensar. Visto que os trechos anteriores fazem parte do mesmo parágrafo, concluí-se – essa provavelmente é a intenção do narrador no momento de seu relato – que a memória das explicações e repetições miúdas, dadas por Bentinho, devia ser, muita vez, a matéria do cogitar da personagem descrita.
Por último, é impossível, igualmente, não se encontrar semelhança entre o “não fitava de rosto”, para Escobar no primeiro exemplo, e “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, aplicados a Capitu.
Do mesmo modo, é igualmente impossível não se reconhecer afinidades entre o “... pedia-me frequentemente explicações e repetições miúdas” e o “olhos enfiados em si, cogitando”, isto é, no costume da “reflexão” sobre as informações persistentemente buscadas, por parte de Escobar e essas mesmas características na menina amada por ele:
Capitu refletia. A reflexão não era cousa rara nela, e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos. Pediu-me algumas circunstâncias mais, as próprias palavras de uns e de outros, e o tom delas. (cap. XVII)
Mostrar que Escobar e Capitu eram feitos um para o outro é a intenção do velho dom casmurro?
(Este artigo continua na próxima postagem).
Assinar:
Postagens (Atom)

