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sábado, 7 de junho de 2014

ATENÇÃO

       Num futuro bem próximo, devo fazer uma postagem sobre a escritora Carolina Maria de Jesus e seu conhecido livro diário Quarto de despejo. Até breve.

sábado, 22 de março de 2014

Parte III: A pseudo “alma feminina”: Senhora e o olhar do século XIX sobre a mulher.


A heroína silenciada e a evolução do herói



Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)



A terceira parte do estudo – reenfatize-se a leveza dele – sobre Senhora, de José Alencar, como caracterização da mulher do século XIX, usará como foco a personagem romântica personificada em Aurélia Camargo, a protagonista do romance.

Em primeiro lugar, é necessário se ressaltar que tais protagonistas seguem um padrão de idealização, que, de forma geral, enquadram as mulheres de então, ficcionais ou não.

É indispensável também ser ressaltado que a palavra “idealização” não traz em si uma fixidez significativa, como aliás, a maioria dos termos: o ideal para uma época pode não ser para outra.

Assim, o ideal de mulher do século referido e compartilhado pela trama de Senhora seria um ser recatado, guardião da sacralidade do lar, consciente de seus limites, principalmente intelectuais, cujo extremismo sentimental faria dele só coração. Esses atributos comporiam um tipo romântico.

Quem lê o romance em questão imagina que Alencar faz, portanto, de sua personagem um ser ímpar por desenhá-la diferente de tais padrões: submete todos os seus pretendentes a sua vontade, é mais senhora de seu tutor do que regida por ele, traça um plano racionalizado em seus mínimos detalhes para sujeitar seu marido comprado a toda a sorte de humilhações. Em vez de uma personagem “tipo” – aquela que está submetida a um padrão comportamental, no caso, a que seguisse fielmente o projeto romântico –, Aurélia seria uma personagem “indivíduo” – aquela personagem que tem características próprias e não pode ser identificada em outras personagens. A alusão ao termo “senhora”, que inclusive, dá título ao romance, refere-se a esse aparente perfil da personagem principal:

Aurélia tomou o braço do marido, e afastou-se lentamente ao longo da alameda.
Por que me chama senhóra? perguntou ela fazendo soar o ó com a voz cheia?
Defeito de pronúncia.
Mas às outras diz senhora. Tenho notado; ainda esta noite.
Esta é, creio eu, a verdadeira pronúncia da palavra; mas nós, os brasileiros, para distinguir da fórmula cortês, a relação de império e domínio, usamos da variante que soa mais forte, e com certa vibração metálica. O súdito diz à soberana, como o servo à sua dona, senhóra. Eu talvez não reflita e confunda.
Quer isso dizer que o senhor considera-se meu escravo? – perguntou Aurélio fitando Seixas. (p. 197)

Enganar-se-á, porém, essa pessoa leitora, se não reparar em alguns detalhes bastante importantes, que podem ser inferidos dos exemplos baixo e que serão comentados a seguir e vão compondo uma personagem, que, ao final do romance, se mostra a heroína romântica, por excelência.

É verdade! Desculpe-me, Aurélia, a precipitação... Ele exige vinte contos de réis à vista, até amanhã, sem o que não aceita.
Pague-os!
.................................................................................................
Cobria-se-lhe o semblante de uma palidez mortal; e por momentos parecia que a vida tinha abandonado aquele formoso vulto, congelado em uma estátua de mármore. (p. 57)

Nesse trecho, o tutor informa à Aurélia que Seixas havia não só aceitado casar-se com ela por um dote maior, desfazendo o arranjo matrimonial e financeiro anterior que tinha com outra moça, mas exigia um adiantamento. É importante se observar o transe emocional por que passa a personagem: o que deveria ter sido recebido com alegria – o sucesso em casar-se, por fim, com o antigo amado –, indica um sentimento oposto: “uma palidez mortal”.

A personagem principal já tinha, desde o início da trama, quando não possuía ainda fortuna e entregara seu amor a Seixas em vão, fornecido pistas concretas de suas características tão caras ao estilo de época:

A sua promessa de casamento o está afligindo, Fernando; eu lha restituo. A mi basta-me o seu amor, já lho disse uma vez; desde que mo deu, não lhe pedi nada mais. (p.104)

[…] Mas Deus nos deu uma missão neste mundo, e temos de cumpri-la [disse Seixas].
A minha é amá-lo. A promessa que o aflige, o senhor pode retirá-la tão espontaneamente como a fez. Nunca lhe pedi, nem mesmo simples indulgência, para esta afeição; não lha pedirei neste momento em que ela o importuna. (p. 107)

Abandonando-a Seixas por vender-se a primeira vez, a comoção por que passa a personagem principal já aponta seu apego à idealização com que são configuradas as mulheres de então, como se evidencia na passagem adiante:

Recebeu uma carta anônima. Comunicavam-lhe que Seixas a havia abandonado por um dote de trinta contos de réis. Acabando de ler essas palavras levou a mão ao seio, para suster o coração que se lhe esvaía.
Nunca sentira dor como esta. Sofrera com resignação e indiferença, o desdém e o abandono, mas o rebaixamento do homem, a quem amava, era suplício infindo, de que só podem fazer ideia os que já sentiram apagarem-se os lumes d'alma, ficando-lhes a inanidade.
Debalde Aurélia refugiou-se nos primeiros sonhos de seu amor. A degradação de Seixas repercutia no ideal que a menina criara em sua imaginação, e imprimia-lhe o estigma. Tudo ela perdoou a seu volúvel amante, menos o tornar-se indigno de seu amor.
Que pungente colisão! Ou expelir do coração esse amor que tinha decaído, e deixar a vida para sempre erma de um afeto; ou humilhar-se adorando um ente que se aviltara, e associando-se à sua vergonha. (grifo meu. p. 108)

Não é a lacuna do amado que faz Aurélia sofrer, mas a lacuna do amor que desapareceria por aquele não corresponder a esse.

Na noite das núpcias, o marido descobre todas as motivações anteriores de sua mulher para escolhê-lo dentre outros pretendentes mais legítimos. Ao conseguir comprá-lo por um valor mais alto – Fernando aceita a proposta feita anonimamente pelo tutor de Aurélia –, retomando-o da noiva pela qual tinha sido preterida e que lhe oferecera também um dote, a protagonista irá se decepcionar pela segunda vez, sendo esse um golpe irrecuperável na idealização do amor. Na verdade, o fato revelado por ela é o verdadeiro mote para o desenvolvimento da narrativa.

Conheci que não amava-me, como eu desejava e merecia ser amada. Mas não era sua a culpa e só minha que não soube inspirar-lhe a paixão, que eu sentia. Mais tarde, o senhor retirou-me essa mesma afeição com que me consolava e transportou-a para outra, em quem não podia encontrar o que eu lhe dera, um coração virgem e cheio de paixão com que eu o adorava. Entretanto, ainda tive forças para perdoar-lhe e amá-lo.
              A moça agitou então a fronte com uma vibração altiva:
Mas o senhor não me abandou pelo amor de Adelaide e sim pelo seu dote, um mesquinho dote de trinta contos! Eis o que não tinha o direito de fazer, e que jamais lhe podia perdoar. Desprezasse-me embora, mas não descesse da altura em que o havia colocado dentro de minha alma. Eu tinha um ídolo; o senhor abateu-o de seu pedestal e atirou-o no pó. Essa degradação do homem a quem eu adorava, eis o seu crime; a sociedade não tem leis para puni-lo, mas há um remorso para ele. Não se assassina assim um coração que Deus criou para amar, incutindo-lhe a descrença e o ódio.
.................................................................................................
[…] Entretanto, ainda eu afagava uma esperança. Se ele recusa nobremente a proposta aviltante, eu irei lançar-me a seus pés. Suplicar-lhe que aceite a minha riqueza, que a dissipe se quiser; mas consinta que eu o ame. Esta última consolação o senhor a arrebatou. Que me restava? Outrora atava-se o cadáver ao homicida, para expiação da culpa; o senhor matou-me o coração; era justo que o prendesse ao despojo de sua vítima. (grifos meus. p. 120-121)

Após onze meses de vilipêndio, o marido comprado restitui o dinheiro que recebera, conseguido com seu trabalho e honestamente e, por esse modo, libera-se da palavra dada, terminando com um casamento que, podia ser, então, uma prática social, mas contrariava o idealizado casamento por amor. Nesse momento, Seixas é alçado à condição de herói romântico, situação a qual não correspondera até então. Diferentemente da personagem protagonista, que tem um comportamento sempre preso aos parâmetros da heroína literária epocal e, portanto, uma postura estática, como constatam as mesmas passagens do romance, a personagem masculina central evolui em direção ao papel que lhe cabe na estética romântica. É nessa condição que ele, finalmente, sobe a seu “pedestal”, à sua condição de ídolo e tem, portanto, um lugar no coração ressuscitado da heroína.


Pois bem, agora ajoelho-me a teus pés, Fernando, e suplico-lhe que aceites meu amor, este amor que nunca deixou de ser teu, ainda quando mais cruelmente ofendia-te. (grifo meu, p. 234)

Aquela que te humilhou, aqui a tens abatida, no mesmo lugar onde ultrajou-te, nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando seu perdão e feliz porque te adora, como o senhor de sua alma. (grifo meu, p. 234-235)

Duas particularidades dos trechos, nem um pouco desprezíveis, ao contrário, bastante significativas, saltam aos olhos de quem lê: primeiro a subserviência a que se entrega Aurélia – o vocábulo “abatida” pode ter o significado de “diminuído em suas forças físicas e/ou morais” –, ela sempre tão orgulhosa e altiva, ajoelhada, numa posição de inferioridade frente ao marido. Pode-se até imaginar uma ave que, acostumada a altos e grandes voos, é caçada e se faz ao chão. A imagem é forte, mas corresponde bastante ao trecho. Para mostrar-se digna do amor de Fernando, ela tem de descer à condição estabelecida para a mulher do século XIX. Se ele tem de subir em seu pedestal, como ídolo, como herói, ela tem de ser rebaixada, para corresponder a essa mesma idealização. 
Segundo – e confirmando essa primeira particularidade –, a oposição que se estabelece na troca de posições entre Aurélia e Fernando – inadequadas até então, de acordo com os preceitos do Romantismo, caros ao século. O termo que é escolhido no texto não é apenas uma coincidência: ela, que era “senhóra” (rever p. 197)), abdica de sua posição e pede ao amado que se torne “o senhor de sua alma”. Invertem-se os papéis. Mais do que uma questão amorosa, evidencia-se uma submissão prevista pela sociedade. O fecho do romance indica, finalmente, que essa era a condição “essencial” para a paz e desejava desde o princípio pela própria Aurélia: “As cortinas cerraram-se, acariciando o seio das flores, cantavam o hino misterioso do santo amor conjugal.” (p. 235)





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domingo, 9 de março de 2014

Parte II: A pseudo “alma feminina”: Senhora e o olhar do século XIX sobre a mulher.


Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)


Antes de se iniciarem os comentários sobre certos aspectos da narrativa propriamente dita – esses dados são levantados na terceira parte –, chama-se a atenção para o fato de que, na primeira parte do estudo sobre o romance Senhora, foi citado o aproveitamentos dos costumes sociais de meados do século XIX presentes no romance. Os exemplos citados são tirados da 5.a edição da Editora Martin Claret, da “Coleção a obra-prima de cada autor”.

Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha ainda admitido ainda certa emancipação feminina.” (p.17)

Riam-se todos destes ditos de Aurélia e os lançavam à conta de gracinhas de moça espirituosa; porém a maior parte das senhoras, sobretudo aquelas que tinham filhas moças, não cansavam de criticar esses modos desenvoltos, impróprios de meninas bem-educadas. (p. 19-20)

Por isso cresciam as tristezas e inquietações da boa mãe, pensar que também esta filha estaria condenada à mesquinha sorte do aleijão social, que se chama celibato. (p.45)

Vendido! – exclamou Seixas, ferido dentro d'alma.
Vendido sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica, sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se fez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza por este momento. (p.81)

Nessas circunstâncias, a mãe só via para a filha o natural e eficaz apoio de um marido. (p. 90)

No primeiro ensejo interrogou o moço acerca de suas intenções. Fez valer o argumento formidável da sombra que um galanteio ostensivo projeta sobre a reputação de uma menina, quando não o perfumam os botões de laranjeira a abrir em flor. Lembrou também que a preferência exclusiva afugentava os pretendentes, sem garantia do futuro. (p.99)

Apesar da aparente crítica dos costumes sociais da época em que se desenvolve a trama literária – “Sou rica, muito rica, sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas.” –, uma observação mais atenta dá a perceber que muitos dos conceitos que são destilados por toda a obra acabam fazendo coro a esses mesmos costumes, principalmente em relação à posição da mulher naquela sociedade. 
Para observar esse aspecto, começa-se a chamar a atenção para a posição do narrador, personagem criado como responsável pela enunciação, que, se parece estar em um ponto de vista externo, em algumas passagens se mostra uma presença subjetiva:

Suspeito eu porém que a explicação dessa singularidade já ficou assinalada. Aurélia amava mais seu amor do que seu amante; era mais poeta do que mulher; preferia o ideal ao homem. (p.106)

E essa presença subjetiva, responsável, portanto, pelos conceitos ali expostos, se trai não somente pela presença explícita do pronome de primeira pessoa. Os articuladores textuais escolhidos pelo narrador vão dando conta de suas posições frente ao objeto narrado, como tão bem descreveu os aspectos teóricos da análise do discurso. Como se comprova no exemplo abaixo, se, à primeira vista, o trecho parece apenas conter uma constação de época, o advérbio “felizmente”, de natureza afetiva, mas francamente axiológico (que se manifesta com um caráter de valor para o enunciador do discurso), tão bem descrito pela teoria citada, abre, significativamente, o parágrafo: o narrador se posiciona claramente a favor da “antiga educação brasileira”, bem como pelas opiniões que recheiam toda a trama.

Felizmente D. Camila tinha dado a suas filhas a mesma rigorosa educação que recebera; antiga educação brasileira, já bem rara em nossos dias, que, se não fazia donzelas românticas, preparava a mulher para as sublimes abnegações que protegem a família e fazem da humilde casa um santuário. (O grifo é meu – p.44)

Ainda, refletindo sobre o exemplo anterior, pode-se argumentar que o termo “abnegação” (renúncia, desprendimento, altruímo, sacrifício de direitos), intensificado pelo atributo “sublime” (quase sagrado), já permite a quem lê prever as concepções que esse narrador tem – e o que valoriza – do papel social da mulher: o silêncio, o recato, a não intervenção no processo social público. À mulher estavam reservadas as sublimes abnegações que protegem a família e fazem da humilde casa um santuário.”, ou seja, o papel privado.

Era realmente para causar pasmo aos estranhos e susto a um tutor, a perspicácia com que essa moça de dezoito anos apreciava as questões mais complicadas; o perfeito conhecimento que mostrava dos negócios, e a facilidade com que fazia, muitas vezes de memória, qualquer operação aritmética por mais complicada e difícil que fosse.
Não havia porém em Aurélia nem sombra do ridículo pedantismo de certas moças que, tendo colhido em leituras superficiais certas noções vagas, se metem a tagarelar de tudo.
Bem ao contrário, ela recatava sua experiência, de que só fazia uso, quando o exigiam seus próprios interesses. Fora daí ninguém lhe ouvia falar de negócios e emitir opinião acerca de coisas que não pertencessem à sua especialidade de moça solteira. ( O grifo é meu – p. 30)


E a justificativa desse comportamento social não intervencionista é equacionado claramente no delineamento da características do ser “Mulher” – emocionais, presas ao coração, ao contrário dos homens, presos à razão –, ser singularizado através do enquadramento de todas as mulheres dentro de uma pretensa essência feminina, por assim dizer, essência da qual, não foge nem a personagem Aurélia, mesmo com as especificidades que apresenta como heroína do romance e, portanto, um ser especial. Os exemplos são abundantes nas palavras do narrador. Alguns trechos foram colocados em negrito para realce do que se quer apresentar.

Era uma expressão fria, pausada, inflexível, que jaspeava sua beleza, dando-lhe quase a gelidez da estátua. Mas no lampejo de seus grandes olhos pardos, brilhavam a irradiação da inteligência. Operava-se nela uma revolução.
O princípio vital da mulher abandonava seu foco natural, o coração, para concentrar-se no cérebro, onde residem as faculdades especulativas do homem.(p. 30)

Via-se bem que essa altiva e gentil cabeça não carregava um fardo, talvez o espólio de um crânio morto, jugo cruel que a moda impõe às moças vaidosas. O que ela ostentava era a coma abundante de que a tocara a natureza, como às árvores frondosas, era a juba soberba de que a galanteria moderna coroou a mulher como emblema de sua realeza. (p.64)

No altivo realce da cabeça e no enlevo das feições cuja formosura se toucava de lumes esplêndidos, estava-se debuxando a soberba expressão do triunfo, que exalta a mulher quando consegue a realidade de um desejo férvido e longamente ansiado. (p.74)

Seixas ajoelhou aos pés da noiva, tomou-lhe as mãos que ela não retirava; e modulou o seu canto de amor, essa ode sublime do coração, que só as mulheres entendem, como somente as mães percebem o balbuciar do filho. (p. 80)

A natureza dotara Aurélia com a inteligência viva e brilhante da mulher de talento, que se não atinge ao vigoroso raciocínio do homem, tem a preciosa ductilidade de prestar-se a todos os assuntos, por mais diversos que sejam. O que o irmão não conseguira em meses de prática foi para ela estudo de uma semana. (p. 89)

Esse fenômeno devia ter uma razão psicológica, de cuja investigação nos abstemos; porque o coração, e ainda mais o da mulher que é toda ela, representa o caos do mundo moral. Ninguém sabe que maravilhas ou que monstros vão surgir desses limbos. (p.104)

Desse modo, percebe-se que a leitura de um texto literário está longe de se constituir apenas na fruição inocente de uma obra artística. Há muito mais a ser revelado. 
Mas, a despeito dos comentários anteriores sobre as particularidades sociais levantadas, quem leu a obra em questão se deparou com a magnificência da habilidade narrativa alencariana e foi envolvido por uma história da qual não conseguiu fugir até chegar a seu final surpreendente.
Convido a quem me lê a voltar para acompanhar a terceira parte, que fala mais abrangentemente dessa trama de Senhora, observada então a força que o texto tem.


ESTE ESTUDO CONTINUA NA POSTAGEM SEGUINTE.


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quarta-feira, 5 de março de 2014

A pseudo alma feminina: "Senhora" e o olhar do século XIX sobre a mulher



                    PRAÇA JOSÉ DE ALENCAR - FLAMENGO - RIO DE JANEIRO

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)


Parte I

A postagem que ora se inicia é um superficial estudo sobre o magnífico romance Senhora, do escritor romântico José Martiniano de Alencar, que, nascido em 1829, no Ceará, falece muito jovem ainda, aos 48 anos (1877), o que permite ao público imaginar – uma vasta obra escrita em tão pouco tempo e mais de um romance em um mesmo ano –, que obra não teríamos, se nos fosse dada a sorte de ele ter vivido mais anos: os romances indianistas O guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874); os urbanos ou de costumes Cinco minutos (1856), A viuvinha (1857), Lucíola (1862), Diva (1864), A pata da gazela (1870), Sonhos d'ouro (1872), Senhora (1875) e Encarnação (1877 - publicação póstuma); os regionalistas O gaúcho (1870) O tronco do Ipê (1871), Til (1871) e O sertanejo (1875); os históricos As minas de prata (1865-1866) e A guerra dos mascates (1871-1873). O guarani é um verdadeiro romance épico.
Num olhar atento, percebe-se o plano nacionalista que Alencar seguiu de abarcar o Brasil em todas as suas variações geográficas, culturais e históricas, desde sua origem. Comparece-se apenas, por exemplo, O sertanejo (região Nordeste), O gaúcho (região Sul) e os vários romances urbanos, cujas tramas transcorrem no Rio de Janeiro.
Senhora é uma análise da sociedade brasileira urbana do século XIX. No romance, são abordadas, com olhar crítico, várias instituições sociais da época, como o casamento das classes favorecidas economicamente através de uma transação comercial. A par deste aspecto, outros costumes sociais vêm à tona.
Aurélia, a heroína-título, a príncipio paupérrima, que, ao contrário das mocinhas da época – à primeira vista, a protagonista parece contrariar o perfil de mulher de então –, não treme por um casamento, vê frustrado, no entanto, seu desejo de realização puramente amorosa, justamente subjugado aos ditames sociais do contrato de núpcias comercial, o que dá ensejo ao enredo envolvente do romance. A herança que recebe – no Romantismo quase sempre havia uma inesperada herança – permite realizar uma vingança contra o amado vendido para outra. Desse modo, a trama é dividida em quatro partes e os títulos procuram denunciar, não só a intenção de Aurélia ao “comprar” Fernando Seixas, como mostrar a crítica feroz que a mesma empreende contra a sociedade que a maltratara, usando seu próprio veneno: “Primeira parte: O preço”; “Segunda parte: Quitação”; “Terceira parte: Posse” e “Quarta parte: Resgate”.
O estudo ora iniciado e continuado em postagens posteriores tem como finalidade, na verdade, mostrar como, apesar das intenções de análise e crítica social, Alencar não consegue fugir da visão da época – está preso a ela, como qualquer um, pois é a “sua” época – e submerge nas comuns concepções de então sobre a mulher, concepções, aliás, que ainda continuam a ser repetidas até hoje.

ESTE ESTUDO CONTINUA NA POSTAGEM SEGUINTE.

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domingo, 5 de janeiro de 2014

O bem-aventurado mundo da poesia


Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

O estudo de hoje é sobre Mário Quintana.
Além de poeta (1906-1994), foi tradutor e jornalista. Por sua importância na literatura – em 1980, recebeu o prêmio Machado de Assis e em 1981, o prêmio Jabuti –, chegou a ser indicado para a Academia Brasileira de Letras, embora a justiça não tenha sido feita. A literatura perdeu pouco, pois seus textos não ficaram menos magníficos por isso.
Se seus poemas encantam, famosas ficaram, do mesmo modo, frases que deliciam gerações:

Dos grilos
Toda a noite os grilos fritam não sei o quê. A madrugada chega, destampa o panelão: a coisa esfria.

Da relativa igualdade
Democracia? É dar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, isso depende de cada um.

O trágico dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Camuflagem
A esperança é um urubu pintado de verde

O pior
O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

Incorrigível
O fantasma é um exibicionista póstumo.

Mentira?
A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.

Provérbio
O seguro morreu de guarda-chuva.

Mas há um poema a ser estudado, que aprecio muito, e que se estrutura sobre um tema que, como se verá adiante, tem, não só ligações literárias, mas, ouso dizer, psicológicas, através dos sujeitos líricos, com outro poema transcrito em seguida. Vamos lê-lo, inicialmente.

Eu nada entendo

Mário Quintana

Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela simplesmente...
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda gente,

Nem é deste Planeta... Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal...

E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda...

Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!...
(In Nariz de vidro – São Paulo: Moderna, 1984, p.17)


A primeira observação a ser feita é de que há, nitidamente, uma ruptura entre o mundo indiferente de toda gente, que se posta de um lado, e aquele “eu” e seu Anjo da Guarda, que se postam no mesmo lado que os Loucos, os Mortos e as Crianças.
E há até a fixação de espaços diferentes para esses dois mundos: um está neste “Planeta”; mas o sujeito poético constrói para si e seus pares um “vago País de Trebizonda”, um “lá”, onde é possível cantar, “numa eterna ronda,/Nossos comuns desejos e esperanças”, sentimentos – “E sei apenas do meu próprio mal” – a que o mundo se mostra indiferente.
É importante observar que esse vago país é um local de exceção, onde pode penetrar o Anjo da Guarda, que, afinal, é o único que lê os versos desse sujeito poético, compartilhando-lhe o mal e, ainda, seus desejos. Um local subjetivo onde é possível a realização de todas as ações e sonhos interditos no Planeta de onde o eu poético se evade.
Mas a porta secreta dessa terra particular – seriam os versos a chave incógnita? – é aberta a outras entidades excepcionais, como os mortos, as crianças e os loucos, porque sempre exclusos dos limites do senso comum. A poesia – e poetas, como seres igualmente de exceção –, como se conclui, transita, igualmente, muito além dos padrões aceitos nas “questões sociais”.
Vale a pena ler, agora, o poema de Manuel Bandeira, citado no início e se verificar como tange, similarmente, o tema do território inatingível da bem-aventurança, só alcançado através da poesia.

Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz

Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
(In Estrela da vida Inteira. Rio de Janeiro, S. Paulo: Record, /s.d./, p.143-144)

Não é coincidência o fato de aqui também surgir a presença do Louco - “Que Joana a Louca de Espanha –, entrelaçado ao sujeito poético, apontando, novamente, para o ser excêntrico, aqui empregado no sentido mesmo de “afastado ou desviado de fora do centro”, numa terra subjetiva, um País de Trebizonda, ora nomeado Pasárgada: “ Em Pasárgada tem tudo/É outra civilização”.
Como se pode perceber, Trebizonda e Pasárgada são o território de todas as possibidades, a terra prometida do eu lírico doada a si mesmo. 
Para fechar a argumentação, novo e belíssimo texto do mesmo Mário Quintana.

Mário Quintana

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
– muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fosse meus!

Porque a poesia purifica a alma
… e um belo poema – ainda que Deus se aparte –
um belo poema sempre leva a Deus!
(Na mesma obra de Mário Quintana, p. 44)


Visite, igualmente, meus blogues Conto-gotas (link) e Poema Vivo (link).

sábado, 28 de dezembro de 2013

FELIZ ANO NOVO

         Desejo a todas as pessoas que têm visitado meu blogue em 2013 que o ano de 2014 seja pleno de realizações e muita paz. Teremos muitos compromissos como cidadãos, no próximo ano, e a sensatez, aliada à informação segura, deverão ser nosso norte. Nada de ouvir apenas a mídia comprometida com seus próprios interesses. A Internet está repleta de sites isentos e sérios. Vamos a eles.
       Não me esqueci das novas postagens sobre literatura, mas, como estou escrevendo um livro de análise literária, conforme informei anteriormente, não tenho podido vir com muita frequência. Não imaginem, de forma alguma, que abandonei meus estudos aqui.
       Há, no entanto, muita matéria a ser consultada neste espaço, se alguém se interessar, em postagens mais antigas. Convido, desse modo, minhas fiéis amigas e meus fiéis amigos a uma viagem para trás no blogue.
       Comprometo-me a achar um tempo em meu afazer principal e postar mais em 2014. 

Continuo a convidar para uma visita a meus blogues Poema Vivo (link) Conto-gotas (link).
    

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Estudo de Escobar: desagravo a Capitu - PARTE II


Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

Na primeira parte desse estudo sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis, foram feitas considerações sobre o caráter da personagem Escobar, suposto lado de um triângulo amoroso, traçado pelas palavras de um marido, Bentinho, que se supõe traído, o que torna o depoimento passível de dúvida. Foi chamada a atenção de quem lê para dois fatores: a complacência com que o narrador vai enumerando detalhes sobre o outro, que vão formando uma índole no mínimo suspeita, ânimo bastante diferente que mantém em relação a ex-mulher Capitu; a vocação “comercial” de Escobar, que será mais detalhadamente explicitada neste segmento.
Quando começa a frequentar a casa de Bentinho, o ainda postulante a padre, impressiona a família do amigo. Apenas a velha prima, extremamente crítica, enxerga nele o que os demais não veem. Mas a observação que faz vem ao encontro daquilo que já vinha sendo suspeitado por quem lê:

e prima Justina não achou tacha que lhe pôr; depois, sim, no segundo ou terceiro domingo, veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto metediço e tinha uns olhos policiais a que não escapava nada. (cap. XCIII)

Ao contrário da prima, ao companheiro de seminário surpreende o carinho e admiração com que o visitante se refere sempre à D.a Glória, sua mãe:

- Também eu fiquei gostando de todos, mas é possível fazer distinção, confesso-lhe que sua mãe é uma pessoa adorável. (cap. LXXVIII )

Nem de outro modo se explica a opinião de Escobar, que apenas trocara com ela quatro palavras. (cap. LXXIX)

Insistia na educação, nos bons exemplos, na “doce e rara mãe” que o céu me deu... Tudo isso com a voz engasgada e trêmula.
Todos ficaram gostando dele. (cap. XCIII)

Escobar confessou esse acordo do interno com o externo, por palavras tão finas e altas que me comoveram; depois, a propósito da beleza moral que se ajusta à física, tornou a falar de minha mãe, “um anjo dobrado”, disse ele. (mesmo capítulo)

Aos poucos, Escobar vai amiudando a conversa sobre a viúva e Bentinho, ingenuamente, vai dando as explicações.

- Já fez quarenta, respondi eu vagamente por vaidade.
- Não é possível! exclamou Escobar. Quarenta anos! Nem parece trinta; está muito moça e bonita. Também a alguém há de você sair, com esses olhos que Deus lhe deu; são exatamente os dela. Enviuvou há muitos anos?
Contei-lhe o que sabia dela e de meu pai. Escobar escutava atento, perguntando mais, pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. […] E não contávamos voltar à roça? (cap. XCIII)

Mas os detalhes que vai arrancando de Bentinnho não se limitam a aspectos pessoais da senhora. Aos poucos, Bentinho acaba fazendo um verdadeiro inventário dos bens da mãe: o número de escravos que tinha, todas as casas que possuía alugadas, além da casa de Mata-Cavalos – hoje Rua do Riachuelo – e a da roça:

- O que me admira é que D. Glória se acostumasse logo a viver em casa da cidade, onde tudo é apertado; a de lá é grande naturalmente.
- Não sei, mas parece. Mamãe tem outras casas maiores que esta; diz porém que há de morrer aqui. As outras estão alugadas. Algumas são bem grandes, como a da Rua da Quitanda... (cap. XCIII)

O interesse de Escobar – travestido de qualquer outra coisa, como supõe o Bentinho da época, mas do qual desconfia a pessoa que lê – vem como golpe final, algumas páginas adiante:

Nem ele sabia só elogiar e pensar, sabia também calcular depressa e bem. […] Não se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava de cor. (cap. XCIV)

- Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma porção de números que eu não saiba nem possa saber antes... olhe, dê-me o número das casas de sua mãe e os aluguéis de cada uma, e se eu não disser a soma total em dous, em um minuto, enforque-me! (cap. XCIV)

O Dom Casmurro, o homem já maduro que resolve narrar suas memórias, vai assim desenvolvendo um perfil de Escobar, que se harmoniza com aquela guinada, pouco compreendida, de seminarista a comerciante. É sem surpresa que a perspicácia do comentário da prima é encontrado adiante:

Era opinião de prima Justina que ele afagara a ideia de convidar minha mãe a segundas núpcias. (cap. XCVIII)

E sem surpresa também se percebe a natureza do interesse do rapaz pela mãe do amigo e do motivo de sua desistência, surpreendido em suas próprias palavras: “D. Glória é medrosa e não tem ambição.” (mesmo capítulo)
Se o matrimônio com D.a Glória não parece possível, a amizade com Bentinho, o herdeiro, é passível de concretização. É de Escobar a ideia de que a promessa da mãe do amigo de dar um padre a Deus, seja cumprida por outro menino, um menino orfão. Assim sairiam os dois do seminário e o casamento de Bentinho seria possível e a amizade continuaria.
E é o que se verifica. Porque o imprevisto casamento de Escobar com Sancha, a melhor amiga de Capitu, a eleita de Bentinho e sua esperada futura esposa, estreita e alicerça a amizade.

Venceu Escobar; posto que vexada, Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio... Que ele casou, – adivinha com quem, – casou com a boa Sancha, a amiga de Capitu, quase irmã dela, tanto que alguma vez, escrevendo-me, chamava a esta a “sua cunhadinha”. Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros. (mesmo capítulo)

Apesar de Capitu e o marido terem esperado por um longo tempo a vinda de um filho que parecia quase impossível – Sancha e Escobar já eram pais de uma menina –, nascidos os filhos de ambos, estabelecia-se a intimidade total dos casais.
É o filho de Bentinho e Capitu, entretanto, que, crescendo e teimando em imitar, em todos os gestos e atitudes o marido de Sancha, que faz o pai levantar a suspeita da traição de sua mulher com Escobar, mesmo depois da morte desse. Não há, em toda a narrativa, nenhum dado concreto que justifique as suspeitas do marido, a não ser suas conclusões subjetivas, seu enorme sentimento de inferioridade diante de Capitu. Inclusive, o próprio sentimento de Escobar em relação a sua filha e o filho do amigo – “Escobar acompanhava muita vez as minhas criancices; também interrogava o futuro. Chegava a falar da hipótese de casar o pequeno com a filha”. (Cap. CVIII) – embaça no espírito de quem faz a leitura a possibilidade de serem irmãos. Seria o desejo de Escobar, lançado no meio do discurso do velho narrador, uma pista para desfazer sua desconfiança paranoica? Ou, ao contrário, para enfatizar o grau elevado e sem limites de uma jogada comercial, que envolveria seus próprios filhos e garantiria ao comerciante a fortuna do outro?
De qualquer modo, o que fica evidente, com uma leitura analítica, é a desigualdade de tratamento com que são tratados os supostos parceiros de traição. Apesar de ter seu temperamento esboçado, aos poucos, salva-se Escobar do julgamento inclemente dado pelo memorialista à sua mulher. Salva-se, ainda, desse mesmo julgamento feito pela opinião pública e crítica nesses cem anos de publicação de Dom Casmurro.


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sábado, 10 de agosto de 2013

Estudo de Escobar: desagravo a Capitu

Eliane F.C.Lima  (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

A reflexão de hoje será feita, em duas partes, sobre uma personagem de Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, personagem central na trama, mas que normalmente é relegada a segundo plano em comparação com a controversa personagem Capitu, que se torna o objeto principal da narração, na velhice, feita pelo ciumento marido – Bentinho –, cujo objetivo é sobrepor prova sobre prova da personalidade capciosa da ex-esposa e de sua suposta infidelidade: “olhos de ressaca”; “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, dentre outras. Tal figura feminina tem frequentado um número enorme de análises do romance, quase sempre com a mesma visão do narrador, indício de que a argumentação daquele atingiu seu intento principal, que era o de tomar quem lê – e desse destino não escapa a maioria dos críticos – como principal cúmplice de sua teoria.
Escobar é o amigo de Bentinho, amigo do seminário, que seria o par de Capitu nessa presumida traição, mas que, estranhamente, não tem tido o mesmo prestígio da companheira de ficção. Seria o destino de Capitu o mesmo da Eva bíblica – e sua serpente, como sua versão zoomórfica –, ou seja, ligado à maligna e traiçoeira “essência” feminina?
Ao longo de seu discurso, Bentinho também vai, aos poucos, fornecendo a seu destinatário sinais significativos – segundo sua visão parcial de narrador profundamente magoado e envolvido na história – da personalidade do companheiro, embora a aparente inocência com que o faz – ou seria complacência? – possa intrigar a pessoa leitora, se se confrontar com a implacabilidade de sua análise da personagem feminina. A tão somente contínua narração de passagens que dão pistas sobre o caráter de Escobar já faz quem lê suspeitar de que o estado de ingenuidade de Bentinho sobre o antigo camarada é falso, que ele pretende marcar o perfil de sua personagem masculina, o que surpreende sobre seu omisso e condescendente julgamento sobre ela, comparativamente ao inclemente juízo sobre Capitu. Se Escobar conseguiu fugir da condenação da personagem narradora, à época em que os fatos aconteciam, via morte – afoga-se nadando –, por que o sentimento de tolerância persiste, no final da vida de Bentinho, quando resolve fazer um balanço judicativo e implacável?
Façamos um breve preâmbulo sobre Escobar, o qual era três anos mais velho que o ingênuo amigo: primeiro é preciso se atentar para o fato de que, tendo  se tornado amigos durante sua estada no seminário, o companheiro abandona seu desejo de ordenar-se padre – por quê? –  praticamente à mesma época do protagonista, para dedicar-se ao comércio, o que, convenhamos, é uma guinada bem violenta em relação às intenções iniciais. Guardemos essa vocação “comercial” como um traço importante da sequência narrativa – e argumentativa – que está por vir.
Durante sua estada ali, fala repetidamente de uma irmã, louvando-lhe em excesso as qualidades, chegando ao ponto de mostrar a Bentinho as cartas que essa lhe envia. Quem lê já começa a estranhar essa porta aberta em sua intimidade – ou na intimidade de Bentinho –, o que não era comum naqueles tempos, ou a desconfiar de sua pretensão. Adiante, no mesmo capítulo, Bentinho completa, a respeito das palavras da irmã do outro, que “tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela se não fosse Capitu.”
Comecemos, então, a analisar o discurso de Bentinho sobre Escobar através – a suspeita sobre as palavras do Bentinho ciumento deve ser mantida pelo analista isento – da narrativa.

Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam as outras, nem se deixava apertar delas, porque os dedos, sendo delgados e curtos, quando a gente cuidava tê-los entre os seus, já não tinha nada. (capítulo LVI)

Uma coisa não seria tão fugitiva, como o resto, a reflexão: íamos dar com ele, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando. (o mesmo capítulo)

Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me frequentemente explicações e repetições miúdas, e tinha memória para guardá-las todas, até as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra. (o mesmo capítulo)
 


A reflexão dos exemplos acima já configura um ser esquivo, que pouco se deixa revelar – “não sabendo por onde lhe pegasse” –, mas que, ao contrário, tem como costume – pelo menos a Bentinho – investigar o outro.
Alguns parágrafos à frente, o narrador completa: 


A princípio fui tímido, mas ele fez-se entrado na minha confiança. Aqueles modos fugitivos cessavam quando ele queria, e o meio e o tempo os fizeram mais pousados.


A impressão que fica é de alguém que quer observar miudamente, sem ser observado. E o resultado dessa observação  – “... e tinha memória para guardá-las todas, até as palavras.” – parece estar contemplado naquele “cogitando”, termo cuidadosamente escolhido pelo narrador, pois cogitar é muito mais do que simplesmente pensar. Visto que os trechos anteriores fazem parte do mesmo parágrafo, concluí-se – essa provavelmente é a intenção do narrador no momento de seu relato – que a memória das explicações e repetições miúdas, dadas por Bentinho, devia ser, muita vez, a matéria do cogitar da personagem  descrita.
Por último, é impossível, igualmente, não se encontrar semelhança entre o “não fitava de rosto”, para Escobar no primeiro exemplo, e “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, aplicados a Capitu.
Do mesmo modo, é igualmente impossível não se reconhecer afinidades entre o “... pedia-me frequentemente explicações e repetições miúdas” e  o “olhos enfiados em si, cogitando”, isto é, no costume da “reflexão” sobre as informações persistentemente buscadas, por parte de Escobar e essas mesmas características na menina amada por ele:

Capitu refletia. A reflexão não era cousa rara nela, e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos. Pediu-me algumas circunstâncias mais, as próprias palavras de uns e de outros, e o tom delas. (cap. XVII)

Mostrar que Escobar e Capitu eram feitos um para o outro é a intenção do velho dom casmurro? 
(Este artigo continua na próxima postagem).

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