Houve uma ausência prolongada, mas isso se deve apenas ao fato de que está sendo preparada uma postagem em breve sobre o gênero lírico, ainda sob a visão de Käte Hamburguer. Aguardem. Até breve.
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sábado, 17 de setembro de 2016
sábado, 12 de março de 2016
Parte III - Os fenômenos fundamentais da Criação Literária
Eliane
F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - Rio de
Janeiro)
Resumo das postagens anteriores sobre o pensamento de Käte Hamburguer:
1.
ENUNCIADO DE REALIDADE: A presença de um sujeito-de-enunciação
caracteriza um enunciado de realidade. Não é o conteúdo de
realidade que marca tal enunciado. Mesmo que se identifiquem
elementos “invencionados” ali, fantasiados, isso não
descaracteriza a realidade, porque o sujeito-de-enunciação é
sempre real.
2.
TEXTO FICCIONAL: É a presença de personagens em suas ações, em
suas próprias falas – a mimese aristotélica
–, que indica o texto ficcional. O narrado deixa de estar no campo
da experiência ou de vivência do sujeito-de-enunciação e passa
para o campo da vivência de personagens.
3.
Há aspectos linguísticos – nomeados “sintomas” pela escritora
–, que são identificados por ela e que estabelecem, então, a
“lógica” da criação literária – tese do livro estudado –,
os quais, dependendo de sua natureza, tanto mostram o enunciado de
realidade (a não ficção), como o contrário, o texto ficcional.
Nesta
postagem, serão mostrados os elementos que Käte Hamburguer aponta
para identificar um sujeito-de-enunciação e seu enunciado de
realidade X o texto de ficção, o que realmente interessa ao leitor.
Tal estudo foi direcionado aqui para textos de Literatura Brasileira
(ALMEIDA, Manuel Antônio. Memórias de um sargento de milícias.
Ed. Crítica de Cecília de Lara. Rio de Janeiro:livros Técnicos
e Científicos, 1978. p. 5) (biblioteca Universitária de literatura
brasileira: Série C, ficção, romance e conto; v. 2), acessíveis,
portanto, a todos os leitores brasileiros.
Texto
1
Uma
das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda,
cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo – O canto dos
meirinhos –; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar
de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava
então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são
mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses
eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um
dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o
Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento
de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos
se tocam, e estes, tocando-se fechavam o círculo dentro do qual se
passavam os terríveis combates das citações, provarás, razões
principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se
chamavam o processo.
Daí
sua influência moral. (pág. 6)
Inicialmente,
observemos o dado curioso de que este
recorte
de romance apresenta a mesma estrutura linguístico-lógica que o
trecho da biografia
do
escultor Michelangelo Buonarroti, por
exemplo.
É construído
de tal modo que poderia ser proveniente de
um relato histórico. Se nos fosse apresentado esse segmento,
desligado do romance, compreenderíamos aquele local retratado como o
campo de experiência do sujeito relator, podendo ser esse
considerado um sujeito-de-enunciação teórico,
como
no
caso da
biografia de Michelangelo
Buonarroti.
Havendo no texto acima um sujeito-de-enunciação, estamos
no caso de um enunciado de realidade e
não de um texto
de ficção, segundo a autora em questão.
Se
lermos, porém, esse trecho, sabendo que é o começo de um romance,
supomos que a paisagem não faz parte do campo de experiência desse
e passa a ser cenário de outras figuras – as personagens
fictícias, as figuras de romance –, cuja entrada em cena
aguardamos.
Mas
o problema não é tão simples assim. Na verdade, enfim, esse
trecho, apesar de fazer parte de um romance, segundo os
critérios da teórica,
configura-se, sim, como um enunciado de realidade. Comecemos
observando o dêitico “aí” (linha 3), que marca uma localização
no espaço em oposição a um hipotético “aqui”, não
escrito, mas local de onde
fala o sujeito enunciador e que não se refere a personagens que
surgirão, mas a ele mesmo.
Examinemos
também os
tempos verbais – presentes (“formam”, “são”) e pretéritos
(“chamava”, “assentava”, “eram” etc) – e as expressões
temporais
“nesse tempo”, “de hoje”, “então”,
“do tempo do rei”: fica
bastante claro que as formas
temporais estão fixadas
em relação à experiência do
sujeito-de-enunciação: observe-se
a localização precisa da esquina de “hoje”
– tempo atual desse
sujeito e sua importância
relativamente à lembrança dele
ao que era no passado. O uso
das relações temporais está preso, estritamente, ao
conceito
descrito nas gramáticas: pretérito,
presente e passado são tempos estabelecidos por um sujeito.
Faz parte de um enunciado de
realidade, portanto, mesmo que a pessoa leitora já saiba que
entrarão, adiante, as personagens de uma ficção.
Texto
II
Mas
voltemos à esquina.
…......................................................................................................................
Entre
os termos que formavam essa equação meirinhal pregada na esquina
havia uma quantidade constante, era o Leonardo-Pataca.
…......................................................................................................................
Sua
história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe em
Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao
Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou
o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos,
desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei
fazer o que, uma certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças
de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitota. O Leonardo, fazendo-se-lhe
justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e
sobretudo maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à
borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto
dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no
pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se
como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um
tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. (Mesmo romance,
ainda pág. 6)
No
trecho, há muitos detalhes a serem observados. Várias expressões
ainda denunciam a presença daquele mesmo sujeito-de-enunciação
acima: “como dissemos”, “não sei fazer o que”, além do
advérbio “aqui” (X Lisboa), que demonstra, ainda sem sombra de
dúvidas, o local de onde se posiciona o sujeito narrador. A presença
desse sujeito, segundo o conceito expresso da estudiosa alemã, ainda
denuncia um enunciado de realidade, mesmo com fortes indícios da
presença do “invencionado”, do “fingido”. Seguindo a
conceituação aristotélica, a mimese ficcional só se
apresenta como tal, quando a personagem age, pensa, fala. Ainda não
seria o caso.
Mas
a atenção de quem lê já dispara, pois não se pode deixar de
observar o significado dos verbos “aborrecera-se” (l.7) e
“fingiu”, que são os chamados verbos de processos internos,
processos esses que uma pessoa de fora não tem conhecimento sobre
outra pessoa em um conteúdo de realidade, mas somente em narrativas
ficcionais. Esse é um “sintoma” ou aspecto linguístico-semântico
marcante, quanto à ficção, que faz parte do que a teórica vem
nomeando como “lógica” literária.
Outro
detalhe a ser anotado é o emprego dos verbos situacionais.
Käte Hamburguer chama a atenção para o fato de que, em um
enunciado de realidade, transcorrido no passado autêntico, tais
verbos, do tipo “sorrir”, “andar”, “deitar”, ou seja, de
significado extremamente momentâneo, são impossíveis de serem
usados. Eles não cabem em situações passadas reais. Registremos as
ações situacionais em “assentou-lhe uma valente pisadela no pé
direito”; “sorriu-se como envergonhada...”; “deu-lhe também
em ar de disfarce um tremendo beliscão...”. Só a narrativa
ficcional, como se vê, prevê e permite o uso largo de tais verbos.
Diz lá a autora:
Em
asserções sobre situações reais empregamos tais verbos de
situação no imperfeito somente com referência a situações
temporais próximas, porque designam uma situação concreta, ainda
visualizável e lembrada pelo enunciador. (p. 67)
Já
se pode perceber, desse modo, que os verbos no passado listados nos
dois casos deixam de ser tempos gramaticais, pois
não têm mais uma
ligação específica com o sujeito de enunciação, perdendo sua
função e capacidade marcadora do passado, para serem apenas
recursos ficcionais. Têm
ligação com as personagens. O
enunciado de realidade passa
a dar lugar ao texto narrativo ficcional. Os aspectos temporais
deixam de ser os gramaticais – reais,
autênticos –, ao se
esvaziarem
do
campo da vivência do sujeito-de-enunciação, porque a narrativa
entra no campo da experiência das personagens épicas,
que fazem a literatura narrativa.
Transcrevamos
alguns trechos das próprias palavras da estudiosa em seu citado
livro:
Pois
não tinha sido posto em discussão que o pretérito possa deixar de
ser, em algum lugar qualquer da manifestação verbal, a expressão
de acontecimentos passados. (p.46)
A
mudança de significação, porém, consiste em que o pretérito
perde a sua função gramatical, que é a de designar o passado.
(em itálico no livro, p. 46)
Pois
é somente a entrada em cena, ou seja, a expectativa da entrada da
eu-origo fictícia dos
personagens do romance, a razão
para o desaparecimento da eu-origo real
e concomitantemente, em consequência lógica, para a destituição
pelo pretérito da sua função de passado. (eu-origo é
um termo pelo qual a autora substitui, agumas vezes,
sujeito-de-enunciação ou sujeito/personagem por
questões epistemológicas.
p. 53)
(…)
o que significa do ponto de vista da Teoria Literária a noção de
personagem fictício e por que é apenas a sua entrada em cena que dá
à narração o caráter de não-realidade, tirando,
consequentemente, ao imperfeito o seu significado de passado. (p. 53)
Pois
nenhum texto pode esclarecer mais nitidamente que com este imperfeito
desaparece a eu-origo
do narrador, retira-se da narração, dando lugar às eu-origines
fictícias dos personagens.
A
expressão “não
era nesse tempo de sua mocidade” não
marca
um tempo em relação ao presente do sujeito-de-enunciação, porém
em relação ao próprio tempo da narrativa de Leonardo-Pataca,
personagem que já começa a
surgir
como ser agente, quando a mimese
aristotélica começa a ser introduzida. Na
mocidade, ou já na velhice, muitos
anos
depois,
Leonardo-Pataca continua a ser narrado no passado, que
mostra assim o enriquecimento ficcional conseguido com esse tempo
épico, em detrimento de sua temporalidade gramatical.
Daqui
em diante aparece o reverso da medalha. Segui-se a morte de D. Maria,
a do Leonardo-Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que
pouparemos aos leitores, fazendo aqui ponto final. (Memórias de
um sargento de milícias. p. 209)
Alguns
dados acima, secundados pela teoria da escritora alemã, devem ser
destacados e resumidos:
1.
Um enunciado de realidade é comandado por um sujeito-de-enunciação,
que é sempre real. Um “aqui” espacial real – lugar de onde
esse sujeito enuncia – e verbos com seus aspectos temporais também
reais, por acontecerem em relação a um “sujeito que fala”, como
conceituam as gramaticas, são exemplos linguísticos desse
sujeito-de-enunciação. Quando surge um pretérito, o tempo é
realmente pretérito.
2.
Há uma lógica da criação literária, da ficção, que é
construída – e identificada, posteriormente, – por aspectos
línguísticos, além da presença de personagens que agem e falam
por si mesmos:
a.
verbos situacionais e de processos internos – impossíveis de
serem usados em enunciados reais – que surgem na narrativa.
b.
verbos que estruturalmente estão no pretérito, mas são vazios de
sua intencionalidade temporal. São mecanismos narrativos. Fazem
parte do processo mimético aristotélico, ou seja, realizam-se na
presença das personagens que agem e falam.
O
estudo superficial feito aqui sobre toda a conceituação da “lógica”
literária, feita por Käte Hamburger, não substitui o mergulho em
seu livro. A intenção é apenas aguçar a curiosidade da/do visitante
e incentivá-la (lo) a estudos mais aprofundados, para enriquecimento da
pessoa leitora, chegando-se até à possibilidade de questionamentos
ou refutação dos argumentos e conclusões da teórica.
Possivelmente farei, em uma outra ocasião, um estudo sobre suas
concepções sobre a narrativa em primeira pessoa, interessantes e
inovadoras, sobre as quais tenho claras discordâncias.
Gostaria
de receber comentários dos visitantes. Saber quem são e os motivos
que os trouxeram aqui. Como não posso atender a esclarecimentos
pessoais pelo blogue, peço que estudantes de Letras, que desejarem,
postem seus e-mails, que não serão, claro, publicados.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Parte II - Os fenômenos fundamentais da Criação Literária
Eliane
F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - Rio de
Janeiro)
Hoje
vou fazer a segunda postagem sobre a teoria de Käte Hamburger, a
estudiosa alemã sobre a qual se falou anteriormente. Serão
colocados aqui alguns pontos fundamentais anteriores, embora
resumidos, para que a/o visitante consiga acompanhar o que vem pela
frente.
1.
Ela segue o caminho da “lógica” da criação literária, em
detrimento da busca estética. Esse encontro da “lógica” se dá,
essencialmente, por aspectos linguísticos.
2.
Na
busca dessa lógica, focalizará
a
tensão conceitual entre “criação literária” (apenas
como literatura
narrativa
e
dramática) e
“realidade” (“realidade”
em seu sentido de confronto ou relação com a ficção).
3.
Ela segue, ainda, o pensamento aristotélico da mimesis (como
sinônimo de poiesis) como ficção em que a personagem surge
no texto através de suas próprias ações e de sua voz.
4.
Propõe que se estude e estabeleça a linguagem da criação
literária justamente pela diferença com a linguagem da realidade.
5.
Para
isso, vai pelo caminho inverso: examina
os critérios da linguagem não poética, ou
seja, da
linguagem comprometida com a realidade,
o sistema
enunciador da linguagem,
do
enunciado
de realidade.
xxx
Faremos,
então, a partir daqui um estudo do enunciado de realidade -
“ toda
enunciação é uma expressão da realidade”,
disse a escritora –, usando para isso textos publicados
aqui no Brasil,
para
maior entendimento da pessoa leitora brasileira e porque, em síntese,
é a nossa cultura
que nos interessa, afinal.
Para
tal,
no
entanto, é necessário que se entre
antes
em contato com
certos conceitos
estabelecidos pela estudiosa.
Enunciado
O
enunciado, que sempre é um enunciado de realidade, é a enunciação
de um sujeito-de-enunciação sobre um objeto-de-enunciação (o
conteúdo). O caráter e a função do enunciado são reconhecidos
pelo enfoque no sujeito-de-enunciação.
Enunciação
Apresenta-se
como a estrutura sujeito/objeto da língua. No enunciado “eu
enuncio algo” (enunciação em si): o enunciado é a enunciação
de um sujeito (eu) sobre o objeto (algo). A fórmula de enunciação,
segundo
a filósofa alemã,
não
é válida para a criação do gênero narrativo,
o
que é um dado
extremamente relevante como diferencial para se conhecer o genêro
narrativo.
Mas
ela
é
válida em todo o domínio restante da linguagem. A estudiosa também
reconhece a validez da fórmula da enunciação para a criação
lírica. Como afirma que toda enunciação é uma expressão da
realidade e fundamento para determinar a diferença “realidade” X
“criação literária”, já podemos inferir que Käte, então,
aparta o gênero lírico da criação literária e o aproxima da
realidade.
Guardemos
esses dois dados:
1.
A presença da
fórmula de enunciação (expressão
da realidade)
indica
que não
há ali
gênero narrativo.
2.
Há
validez da fórmula da enunciação (expressão da realidade) para a
criação lírica também.
O
gênero lírico estaria próximo da realidade e longe da criação
literária.
Objeto-de-enunciação
O
objeto é o conteúdo da enunciação
em qualquer modalidade proposicional (enunciativa/declarativa;
exclamativa; interrogativa etc).
Sujeito-de-enunciação:
Não
confundi-lo
com o eu-emissor
da comunicação que
se opõe a um “tu-receptor”, fora do texto
(eu-emissor/tu-receptor).
O sujeito-de-enunciação sempre enuncia exclusivamente em relação
a seu objeto-de-enunciação (sujeito/objeto).
O
sujeito-de-enunciação
é o elemento estrutural da estrutura da linguagem.
A
análise do sujeito-de-enunciação converte o enorme campo
temático-material dos enunciados em um sistema de três categorias:
a.
sujeito histórico – definido, individual. ex.: presente em uma
carta.
b.
sujeito teórico: geral, interindividual. ex.: responsávelpor uma
sentença matemática, texto científico ou lógico; texto teórico,
enfim.
c.sujeito
pragmático: quer algo referente ao objeto-de-enunciação. ex.:
pergunta, ordem, pedido.
Examinemos
o texto abaixo, retirado de Michelangelo,
da Coleção “Mestres da pintura”, da Abril Cultural, 1 ed, 1977,
página 6, e
que é identificado, no final do livro como de
José Arrabal Fernandes Filho, responsável
também pela pesquisa.
Nos
seus 89 anos de vivência no mundo das artes e no universo social
europeu, Michelangelo ascendeu a uma estatura jamais alcançada
anteriormente por qualquer outro artista. Viveu um tempo de gênios e
de obras grandiosas, numa época de grandes transformações nas
mentalidades, na economia e na política.
Objeto-de-enunciação:
biografia do escultor Michelangelo Buonarroti.
Sujeito-de-enunciação:
um biógrafo (sabe-se depois), que pesquisa e escreve o texto, por
encomenda da Coleção “Mestres da pintura”. É um
sujeito-de-enunciação geral, interindividual. Está de tal modo
indefinido, que seu nome nem aparece encabeçando o texto e só ao
final da publicação, por uma questão legal, provavelmente, é
citado. Tal sujeito-de-enunciação teórico, entretanto, apesar
dessa busca pela objetividade textual, por seu apagamento, também é
um sujeito real.
Começamos
a reconhecer que esse é um enunciado de realidade. Mas,
conforme nos ensina a teórica, não é a realidade do objeto o que
dá a esse enunciado seu caráter de realidade, senão a do
sujeito-de-enunciação, sujeito identificado como real.
Nesse
caso, como é um enunciado e de realidade, com um
sujeito-de-enunciação real, já podemos afirmar, com Käte
Hamburguer, que não é um texto de criação literária.
Para
enfatizar
e esclarecer isso
melhor, fazendo um paralelo com o que diz a
estudiosa,
devemos nos reportar ao filme documentário “Cinco vezes Chico –
o velho e sua gente”, recentemente lançado, em que vários
pescadores, seguindo o ritual da “mentira”, fazem relatos
flagrantemente imaginativos e
grandiosos,
para delícia dos espectadores. Pois
bem, esses relatos, ao contrário do texto
lido
acima, embora tenha
objetos-de-enunciação
invencionados,
termo
da própria escritora, são
enunciados de realidade, porque seus sujeitos-de-enunciação são
reais, eles são o fator decisivo. Como a escritora afirma na página
30:
A
enunciação sempre é real, porque o sujeito-de-enunciação é
real, porque, com outras palavras, uma enunciação somente pode ser
constituída por um sujeito-de-enunciação real, autêntico.
É
somente com o esclarecimento da noção de realidade concernente ao
sujeito-de-enunciação que se pode iluminar a estrutura do enunciado
de realidade (…).
Então,
invencionado ou real, não é o objeto o marcador do enunciado, mas o
sujeito-de-enunciação.
No
prefácio de Manuel Bandeira a
Cartas
a Manuel Bandeira,
de Mário de Andrade, provavelmente
livro póstumo, da Ediouro, Coleção Prestígio (sem indicação de
data ou edição), diz o poeta:
Tive
com Mário de Andrade uma correspondência epistolar que se iniciou
em 1922 e se prolongou sem interrupção até a sua morte. Mário
escreveu milhares de cartas. Nunca deixou carta sem resposta. Creio,
no entanto, que as de nossa correspondência têm importância
especial, porque comigo ele se abria em toda a confiança, de sorte
que estas cartas valem por um retrato de corpo inteiro, absolutamente
fiel. (p. 13)
Aqui
também temos um enunciado de realidade, cujo objeto-de-enunciação
são as cartas do escritor modernista Mário de Andrade e um pouco de
sua personalidade. Mas, continuemos a entender que,
o
que faz esse compromisso com a realidade, é a enunciação de um
sujeito real, aqui classificável como sujeito histórico, porque
definido, individual. Notemos a presença dos verbos e pronomes de
primeira pessoa, ali,
personalíssimos.
Como
diz Käte Hamburger, na página 34: “o
que foi enunciado é o campo da experiência ou de vivência do
sujeito-de-enunciação.”
A
próxima postagem irá analisar, finalmente, textos narrativos,
ficcionais. Confrontando-os com os argumentos caracterizadores do
enunciado (de realidade), ressaltar e definir a “lógica” da
criação literária.
Gostaria
de receber comentários dos visitantes. Saber quem são e os motivos
que os trouxeram aqui. Como não posso atender a esclarecimentos
pessoais pelo blogue, peço que estudantes de Letras, que desejarem,
postem seus e-mails, que não serão, claro, publicados.
I
would like receiving comments of the visitors. To know who they are
and the motives that brought them here. Students of Letters can leave
e-mails.
sábado, 5 de dezembro de 2015
Os fenômenos fundamentais da Criação Literária - parte I
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - Rio de Janeiro)
Conforme
anunciei, vou começar a postar alguns comentários sobre a teoria de
Käte Hamburger (1896/1992), filóloga, filósofa e teórica
literária alemã – primeira mulher a ganhar um grau de
pós-doutorado em estudos literários alemães –, desenvolvida no
livro A lógica da criação literária,
2.ed, de 2013, da Editora Perspectiva. Minha tentativa será
exemplificar com escritores da Literatura Brasileira, para maior
entendimento e aproveitamento. Para
maiores informações sobre a estudiosa, remeto ao link (Atenção: este link pode levar a um site com cookie./Please: this link can lead to a site with cookie).
A lógica da Arte Literária tem por objeto a relação da obra com a linguagem , mas relação diferente daquela compreendida pelas teorias acima [a Lógica, a Filosofia, a Teoria do pensamento etc]. Não considera a linguagem em sua função descritiva e expressiva nem por conseguinte o fato mais ou menos trivial de que a Literatura é a arte da linguagem no sentido verbal. É antes desenvolvida a partir da circunstância de que a linguagem como material configurativo da criação literária é ao mesmo tempo o veículo através do qual se realiza a vida humana propriamente dita. (VIII)
Mas, conforme já o estabelecemos como um problema na introdução, é de fato o material linguístico da criação literária que estabelece finalmente o conceito de realidade e ficção e, através disso, o conceito e o sistema da criação literária em si. (p. 6)
Para
conhecer os critérios da linguagem poética, a autora reconhece uma
“lógica da criação literária” e opta pelo estudo desse
caminho, visitando, indiretamente, uma lógica da poiesis
aristotélica, destacando-a da
estética da Arte Literária, diferentemente do que sói acontecer
com os teóricos dessa área. Vale
a pena ler seus trechos abaixo.
A lógica da Arte Literária tem por objeto a relação da obra com a linguagem , mas relação diferente daquela compreendida pelas teorias acima [a Lógica, a Filosofia, a Teoria do pensamento etc]. Não considera a linguagem em sua função descritiva e expressiva nem por conseguinte o fato mais ou menos trivial de que a Literatura é a arte da linguagem no sentido verbal. É antes desenvolvida a partir da circunstância de que a linguagem como material configurativo da criação literária é ao mesmo tempo o veículo através do qual se realiza a vida humana propriamente dita. (VIII)
A
lógica ou lógica linguística da criação literária (…) pode
ser designada com maior precisão como teoria
da linguagem,
que tem por objetivo examinar se e até que ponto a linguagem que
produz as formas literárias (afirmação que por ora aceitamos) é
funcionalmente
diferente da linguagem usual de pensamento e de comunicação. (VIII)
A
lógica literária deve ser compreendida, portanto, no sentido de
teoria
linguística,
sendo que esta teoria linguística será desenvolvida a seguir como
teoria do enunciado (...)(IX).
Esse
afastamento que Käte faz da “estética”, optando pelo
estudo da estrutura
“lógica”, da
regularidade da
criação literária, fica claro quando a autora mostra que as leis
lógicas de tal criação são absolutas, ou seja, a
linguagem origina literatura tanto
numa
obra como O Otelo,
de Shakespeare,
como
num conto ruim, por exemplo, sem se prender ao sentido estético. As
leis lógicas são objeto do conhecimento e desconhecem a noção de
positivo ou negativo. Nisso se afastam das leis estéticas, que, ao
contrário, são relativas. São conceitos de valor.
O
tema fundamental da “lógica” estudada pela teórica alemã é a
tensão conceitual entre “criação literária” e “realidade”,
que sempre serviu de base às considerações da Teoria Literária. A
novidade é que, no livro em questão, “realidade” aparecerá
apenas em seu sentido de confronto ou relação com a ficção: de
um lado, o modo da realidade da vida humana e, de outro, o modo
criado e representado pela Literatura, o “conteúdo” das obras
literárias.
Começa
aqui um dado interessante do texto em questão: Käte Hamburger,
inicialmente, chama a atenção para o fato de que essa tensão
“criação literária X “realidade” aponta na direção da
literatura narrativa (romance, conto etc) e dramática (teatro), não
incluindo o gênero lírico. A justificativa está no estudo de
Aristóteles, a sua Poética. Ao contrário do que modernamente
se entende, para o filósofo grego, o gênero lírico, a que
costumamos chamar de “poesia”, não pertenceria à poieses,
mas a outro domínio das obras literárias.
O
argumento está em que Aristóteles usava, com identidade de sentido,
os termos poiesis
e mimeses,
uso idêntico, segundo a autora, na obra de Auerbach, Mimesis.
Para o grego, a palavra mimesis
não significaria apenas “imitação” da realidade, mas a
introdução de personagens com seus caracteres, paixões e ações:
o escritor deveria falar o menos possível e dar voz livre às
personagens, que assumiriam, por si mesmas, suas falas. Isso seria
mimesis:
o autor narraria
de maneira mimética, quando os
deixasse
falar por si.
Como
já se antecipa, o gênero lírico não se utiliza de personagens e
que falam prioritariamente por si. A natureza de tal gênero, segundo
ela, seria bem outra.
Então
já se deve registrar aqui uma primeira conclusão: uma forma
literária – literatura ficcional ou mimética, entenda-se –, que
faz agentes que falam por si, ou seja, seres fictícios vivendo no
modo da mimesis
e
não da realidade (diferentemente da “lírica”), está no sistema
global da Arte Literária. Essa diferença entre narrativa-drama X
lírica tem significado para a estrutura lógica do sistema
literário.
Como
se disse a princípio, a estudiosa alemã escolhe estabelecer os
critérios da linguagem poética:
Mas, conforme já o estabelecemos como um problema na introdução, é de fato o material linguístico da criação literária que estabelece finalmente o conceito de realidade e ficção e, através disso, o conceito e o sistema da criação literária em si. (p. 6)
Käte
propõe que se estude e estabeleça a diferença entre a linguagem da
criação literária e a linguagem da realidade para que surja a
estrutura que denunciará de que maneira a ficção se distingue da
realidade. É aí que se estabelece a tensão conceitual entre
criação literária e realidade. Isso propicia tanto a iluminação
da fenomenologia da criação literária quanto a da própria
realidade.
Então,
há um dado a que se deve prestar uma atenção fundamental neste
momento e daqui para a frente: como a teórica deseja estabelecer a
estrutura da linguagem poética – entendida, veja bem, como da
ficção e do drama – começa a examinar
os critérios da linguagem não poética – da linguagem
comprometida com a realidade –,
ou seja, o sistema
enunciador da linguagem,
conforme declara na página 22:
… toda
enunciação é uma expressão da realidade, obtendo-se um fundamento
para determinar exatamente a relação da linguagem, e, com ela, da
criação literária, com a realidade.
Acrescenta
adiante “que não é a noção de realidade em si, mas a do
enunciado
de realidade que
fornece o critério decisivo para a classificação dos gêneros
literários. (p. 29 – grifo meu).
Em
nossa próxima postagem, fixaremos algumas noções, como a de
enunciado, a de enunciação, a de sujeito-de-enunciação e de
objeto-de-enunciação, todas referentes a esse primeiro conceito de
realidade.
Gostaria
de receber comentários dos visitantes. Saber quem são e os motivos que
os trouxeram aqui. Como não posso atender a esclarecimentos pessoais pelo blogue, peço que estudantes de Letras, que desejarem, postem seus e-mails, que não serão, claro, publicados.
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aqui. Estudantes de Letras podem deixar e-mails. I would like receiving
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