Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Horizonte de expectativas - teoria da recepção - tom confessional - Lya Luft - Machado de Assis - "Dom Casmurro" - James Joyce - Marcel Proust - Fernando Pessoa - H.R.Jauss - Husserl. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Horizonte de expectativas - teoria da recepção - tom confessional - Lya Luft - Machado de Assis - "Dom Casmurro" - James Joyce - Marcel Proust - Fernando Pessoa - H.R.Jauss - Husserl. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de agosto de 2010

O novo tom das narrativas de mulheres - Palavras sobre palavras 20

Eliane F.C.Lima

Pode-se ler, ainda, nos mais diferentes artigos de crítica, que o tom confessional é uma das características do discurso literário feminino, mesmo quando esse discurso se faz em um texto ficcional. E raramente esse atributo é visto como uma qualidade a ser louvada, pelo contrário. Normalmente estabelece um elo, que acaba tornando todos os textos, das mais variadas tendências, como de uma autoria só: mulher. E se nota, mesmo sem intenção, que esse dado o desqualifica como texto literário de primeira linha, encarado apenas como uma autobiografia chorosa.
O estranhamento da colocação se dá por vários motivos. Um deles é que se deve salientar que há um número enorme de textos de autoria de homens, marcadamente confessionais, como os de James Joyce e Marcel Proust, só para citar dois nomes de enorme peso. Mas ninguém se atreveria a anular suas individualidades literárias marcantes e a vê-los apenas como gênero masculino.
Em segundo lugar, cabe a pergunta sobre o que é um texto com tom confessional. Narrado em primeira pessoa e falando de si e de suas dúvidas e questões? Se o critério fosse esse, se correria o risco de cair na armadilha de se considerar Dom Casmurro um texto de caráter confessional: Bentinho, um homem torturado pela dúvida e pelo ciúme, já maduro, empreende uma narrativa autobiográfica, tentando justificar suas ações em relação à mulher amada e ao filho, enumerando juízos extremamente subjetivos sobre o comportamento daquela. Não, o critério não é esse, pois analista nenhum nunca teve dúvida de que aquele romance é pura ficção, que o protagonista e narrador é uma personagem, estando o matiz subjetivo do dito Dom Casmurro bem apartado do próprio Machado, logicamente. Mas essa compreensão dicotômica da realidade intraobra, que parece tão óbvia nesse caso, no que se refere à construção narrativa de autoria de mulher, não tem a mesma sorte.
Os analistas não enxergam, nas vozes que enunciam e se movimentam nelas, seres criados e verdadeiros apenas dentro daquele universo narrativo, independentes da condição de gênero de quem o cria. O lamento é sempre entendido como o de uma mulher, a autora, a qual se esconde, sem consciência, imaginam, atrás de uma boca que se confunde com a sua. Para a autoria de mulher, o velho e verdadeiro “o poeta é um fingidor” do Pessoa, e que pode ser estendido para qualquer criação literária, não vale. Desse modo, a escritora tem negada sua capacidade fabulística.
Lembro-me bem do dia em que, informando a um especialista em literatura de que havia analisado os romances de Lya Luft em minha tese de doutorado, o inexorável “tom confessional”, agora em relação à escritora citada, foi posto na conversa, como justificativa para seu desinteresse em relação a ela, sem qualquer disfarce do sentimento de pouco caso, como se todas as suas personagens femininas fossem tão somente a própria escritora, desdobrada diversas vezes em suas páginas.
Hans Robert Jauss, em sua teoria da recepção, retomando Husserl, faz alusão ao conceito de “horizonte de expectativas” de todo leitor, condicionado por fatores de natureza histórica, sociológica, cultural, estética, mas, principalmente, ideológica (crenças e conceitos adquiridos, dentre outros), quadro de referência que, como aliás em qualquer interpretação inespecífica diante do mundo, é posto em ação, consciente ou inconscientemente, em seu contato com um novo texto. Visto assim, ouso imaginar que um texto de autoria de mulher já estaria, em muitos dos casos, antecipadamente preso a um projeto de leitura, não só porque houve uma época em que os textos de mulheres refletiram sobre si – olhar inicial e oportunidade única de tomar em suas mãos as rédeas da discussão e da descrição sobre elas, o que sempre havia partido e era privativo da visão masculina –, mas também pela memória que os leitores têm de suas condições sociais, econômicas e culturais, memória clichê da qual as mulheres não conseguiram se livrar inteiramente. Portanto a pretendida coloração intimista não é um dado imanente aos textos de autoria feminina, mas está muito mais nas expectativas estereotipadas do receptor sobre ela.
Esse olhar teimoso e anacrônico não faz mais sentido, pois, marcadamente na literatura pós-moderna, as mulheres já superaram suas antigas questões e, inseridas na vida social, refletem sobre o mundo, independentemente de sua condição de gênero e, através de suas narrativas e suas personagens, da mesma forma que se dá com os escritores, questionam todos os aspectos variadíssimos de suas vidas de seres humanos. As mulheres já não se investigam obsessivamente, mas passeiam seu olhar em volta, com a finalidade de agir sobre o mundo.

Aconselho ao visitante a conferir minha postagem sobre Luci Collin, testemunho do que digo.
(Agradeço ao Google a foto acima)

Renovo o convite para meu leitor visitar os blogues Conto-gotas, que hoje completa seu primeiro aniversário (aqui), e Poema vivo (siga).