Hoje vou tomar a liberdade de falar sobre um conto meu, o que farei posteriormente com outro. Nesses dois casos, vou lançar o olhar de analista sobre um texto ficcional meu. Mas são dois processos diferentes. No primeiro, o que me movia era um sentimento artístico. Nele, as forças em ação são de uma natureza, algumas vezes, inapreensível, por mais que a teoria se esforce por entendê-las e as descrever. É impossível se revelar inteiramente o que ocorre no ato de criação. A análise é posterior e só enxerga o que já nasceu, não a gestação e o nascimento. Na condição de autora e analista, tenho um trunfo a mais.
Uma dessas teorias é a da recepção, ou seja, ela vê com clareza esses dois momentos, o da solidão criativa do escritor e o do encontro do leitor com o texto. A estética da recepção introduz, portanto, no campo da investigação literária, o papel fundamental do leitor como recriador do texto, quando são mobilizadas todas as condições históricas, culturais, geográficas, sociais, desse leitor. Isso fica muito claro, quando se veem as várias leituras dos textos machadianos, por exemplo, através dos tempos. Um romance como Dom casmurro vai apresentando significados novos, como num palimpsesto, revelando escritas escondidas por debaixo de outras, muitas das quais só são possíveis, quando a sociedade muda seu modo de pensar e encarar o mundo. Desse modo, um leitor só chegará a um significado, se suas circunstâncias históricas assim o permitirem. É claro, também, que, numa mesma época e lugar, dois leitores de idades ou níveis culturais e sociais diferentes podem enxergar significados distintos, fazendo do mesmo texto dois textos. E é sobre isso que vou falar. Mas primeiro peço que o visitante vá a meu blogue Conto-gotas e leia o conto “Pulsão”. Depois, volte aqui para continuarmos. Sem isso, é impossível entender o comentário (clique aqui).
Durante a leitura, o leitor imaginava que ia chegar à solução da busca da personagem. Ao final, porém, não há uma resposta clara por parte do narrador. Mas esse leitor guarda algumas ideias que lhe ficaram na última frase: busca - morte – diante daquilo. E cada leitor, colocando em ação seu repertório cultural, social e histórico, aí incluída sua ideologia, imagina ter encontrado a resposta: o religioso vê Deus nesse encontro buscado; o simplesmente místico, após a personagem ter se libertado do corpo, o encontro com sua alma transcendente; o materialista, o encontro com a paz para sempre, com a vida eterna prometida, liberta a personagem, finalmente, de todo e qualquer problema oriundo da vida, interpretação particular e oposta aos dois primeiros.
E há outras possibilidades. E a autora, qual seria a sua resposta? A autora, posto seu filho no mundo, perdeu um pouco o controle sobre ele. Ainda mais que optou, exatamente, por deixar para o leitor a opção, jamais imaginada por ele, de fazer sua própria ficção.
Uma dessas teorias é a da recepção, ou seja, ela vê com clareza esses dois momentos, o da solidão criativa do escritor e o do encontro do leitor com o texto. A estética da recepção introduz, portanto, no campo da investigação literária, o papel fundamental do leitor como recriador do texto, quando são mobilizadas todas as condições históricas, culturais, geográficas, sociais, desse leitor. Isso fica muito claro, quando se veem as várias leituras dos textos machadianos, por exemplo, através dos tempos. Um romance como Dom casmurro vai apresentando significados novos, como num palimpsesto, revelando escritas escondidas por debaixo de outras, muitas das quais só são possíveis, quando a sociedade muda seu modo de pensar e encarar o mundo. Desse modo, um leitor só chegará a um significado, se suas circunstâncias históricas assim o permitirem. É claro, também, que, numa mesma época e lugar, dois leitores de idades ou níveis culturais e sociais diferentes podem enxergar significados distintos, fazendo do mesmo texto dois textos. E é sobre isso que vou falar. Mas primeiro peço que o visitante vá a meu blogue Conto-gotas e leia o conto “Pulsão”. Depois, volte aqui para continuarmos. Sem isso, é impossível entender o comentário (clique aqui).
Durante a leitura, o leitor imaginava que ia chegar à solução da busca da personagem. Ao final, porém, não há uma resposta clara por parte do narrador. Mas esse leitor guarda algumas ideias que lhe ficaram na última frase: busca - morte – diante daquilo. E cada leitor, colocando em ação seu repertório cultural, social e histórico, aí incluída sua ideologia, imagina ter encontrado a resposta: o religioso vê Deus nesse encontro buscado; o simplesmente místico, após a personagem ter se libertado do corpo, o encontro com sua alma transcendente; o materialista, o encontro com a paz para sempre, com a vida eterna prometida, liberta a personagem, finalmente, de todo e qualquer problema oriundo da vida, interpretação particular e oposta aos dois primeiros.
E há outras possibilidades. E a autora, qual seria a sua resposta? A autora, posto seu filho no mundo, perdeu um pouco o controle sobre ele. Ainda mais que optou, exatamente, por deixar para o leitor a opção, jamais imaginada por ele, de fazer sua própria ficção.