Pesquisar este blog

domingo, 25 de setembro de 2011

A poesia forte de uma dramaturga: Renata Pallottini

Eliane F.C.Lima

Poética (II)

Renata Pallottini

Descer até o fundo
e quando o sentimento
esteja o mais maduro

provocá-lo e feri-lo
para que a voz aflore

mas sem meias-medidas
sem cautela e sem pena:
assim o Poema.

O metalinguístico texto acima, confissão poética, é de Renata Pallottini (São Paulo, capital – 1931), formada em Direito, Filosofia e Dramaturgia, área em que deu aulas e exerceu intensa atividade, quer em teatro, quer em televisão, e, através da qual ficou realmente conhecida: para o primeiro escreveu, junto com Chico Buarque de Hollanda, o espetáculo “Pedro Pedreiro”, por exemplo, e para a segunda “Malu Mulher”, “Joana” e “Vila Sésamo”. Mas também publicou muitos livros de poesia:

Acalanto (1952); O cais da serenidade (1953); O monólogo vivo (1956); A casa (1958); Nós, Portugal (1958); Livro de sonetos (1961); A faca e a pedra (1965); Antologia poética (1968); Os arcos da memória (1971); Coração americano (1976); Chão de palavras (antologia –1977); Noite afora (1978); Cantar meu povo (1980); Cerejas, meu amor (1982); Ao inventor das aves (1985); Esse vinho vadio (1985); A menina que queria ser anja (1987); Praça maior (1988); Obra poética (1995); Chocolate amargo (2008).
Nosso enfoque, aqui, obviamente, será sobre sua marcante poesia, na qual prova sua versatilidade artística e seu talento inconfundível. A reflexão sobre a dor humana e o imponderável de sua condição se derrama a cada verso de seus poemas.

Finisterrae

Renata Pallottini

Aqui começa o fim
Feito de vento.

Enlouqueceu a bússola
Do tempo.

Naufragam as certezas
Do infinito.

Aqui se acaba o mapa
Nasce o mito.

Aqui começa a morte
Em naves findas .

Aqui começa o medo.
Como um grito.

Como muitas outras escritoras, o que já foi tema de análise neste blogue a respeito de Cecília Meireles (vale a pena conferir aqui), a poeta se vê diante do dilema do tempo. E surge, exatamente como em Cecília, o íntimo compromisso do termo “vento” com tal abstrata e dúbia dimensão.
Como naquela poeta, ainda, se percebe o embricamento de tempo/espaço, introduzido pelos vocábulos “bússola” e “mapa”, objetos de orientação espacial, aqui acrescidos do outro significado.
Como foi argumentado para o estudo sobre Cecília, pressente-se uma diferenciação entre “tempo” e “eternidade” (infinito) – “Naufragam as certezas/ Do infinito.” – e, se está o primeiro aderido à ideia de matéria e, portanto, à sua finitude – “Aqui começa a morte/ Em naves findas.” – é o “mito” que garante o encontro com a segunda.
O texto abaixo caminha por passos semelhantes.

Lamentação dos filhos


Renata Pallottini

Do infinito nascemos
para um termo preciso.
De infindas, as penas,
de vago, o aviso.

Nados mornos, frágeis,
de entre dois gemidos.
Quando a morte, a eterna?
Quando o Conhecido?

Que isto já nos cansa,
a nós, os malformados,
desde a distante infância
frutos destinados.

Somos os que a vida
fez limite amargo.
De infindas, só as penas,
de vago, o aviso vago.

Lágrimas na cadeira do dentista

Renata Pallottini

Não, não é o dente que dói.
Não, o motor não incomoda.

Não me doem os dentes
mas quem morde.

Nunca o que dói é o aparente
senão o outro, de outra ordem
o oculto na cárie da vida, o tártaro
dos ossos ,
na intempérie incisiva da dentadura mole.

Nunca o que dói, doutor,
é o que fazem as máquinas,
senão
o humano dessas brocas
os buracos
da alma.

Ponha ouro, doutor,
e seja lá o que possa
morder o dente, ávido de amor,
a conta, ao fim, é nossa.

As metáforas construídas por Pallottini, no poema, anterior, para traduzir esse sofrimento inevitável – “os buracos/ da alma”, “o oculto na cárie da vida” – do ser humano no acerto com seu destino – “a conta, ao fim, é nossa.” – são uma marca original de sua linguagem poética.

Por último, seria imperdoável não postar o belo poema que consegue o efeito de envolver o extremo erótico na sutileza pictórica obtida pelo apelo à delicadeza de uma fruta que carrega, em si, do imaginário social e literário, a pureza da ausência do erótico.

Cerejas, meu amor

Renatta Pallottini

Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...


Visite também meus blogues Conto-gotas (aqui) e Poema Vivo (aqui).

domingo, 28 de agosto de 2011

A delicada lira de um Gonzaga, o poeta de Lavínia

Eliane F.C.Lima

O poeta e professor Luiz Gonzaga da Silva me foi apresentado por outra poeta, Francisca Júlia, morta em 1920, por cujo nome ele procurava em pesquisa na Internet. Chegou a este blogue e encontrou a postagem que fiz sobre ela em 05-01-2010. Contatou-me e nasceu uma correspondência e admiração de minha parte por sua produção poética, que ele fez a gentileza de me enviar e autorizar para a presente publicação.
O professor Luiz Gonzaga da Silva é Mestre em Letras pelo CESJF e Professor Titular de Literatura Brasileira e História da Arte nos Cursos de Letras e de História da FAFISM, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Marcelina, de Muriaé, em Minas Gerais, onde reside há muitos anos. A par de seus poemas, há também uma produção acadêmica pela qual é responsável.
Tive de fazer uma difícil seleção entre seus poemas dedicados à cidade natal, Guarani, produzidos pelo olhar saudoso de um adulto para sua infância e juventude, publicados em três livros abaixo relacionados. Neles, se destacam os lugares sacralizados pela memória dessa cidade, por onde caminhamos através de sua linguagem lírica. A recuperação desses locais pela imaginação poética faz o leitor, então, se envolver em um caminho mágico, porque mnemônico, longe da realidade, que nunca é o objetivo daquele que busca seu lugar idealizado. Que importa a pequenez da realidade diante da grandeza do sonho?
E todos esses cantos estão povoados pelas personagens que viveram e falaram e coloriram, transitoriamente, mas para sempre na lembrança daquele que revive, um lugar e um tempo do passado, mas eterno no presente.
É bom ser citada a linguagem especial para construir esse ambiente relembrativo, que me trouxe de volta Manuel Bandeira, outro poeta, sua palavra sabiamente lírica, porque simples, ambos atingindo o preciso e o poético, justamente por acharem o valor exato na fuga ao preciosismo.
Quero chamar a atenção, antes de irmos para os poemas, que tentei manter, o mais próximo que pude, a diagramação dos poemas nas obras, o que nem sempre foi possível, limitada que estou pela fixidez dos recursos do blogue. Tive de abrir mão de dois poemas magníficos por este motivo.

(Des) pedaços

Luiz Gonzaga da Silva

Fico a procurar
pedaços de mim,
pelas ruas
da cidade amada,
onde andei.

(Encontro-me aqui e ali
e os junto com amor
costurando-os com
a linha da saudade.)

Frankenstein de hoje,
vejo, ao final,
ter alivanhado
só pedaços do que fui.
Choro sem saber por que.
E me desfaço, novamente,
nos pedaços que juntei,
atirando-os ao fundo do Pomba,
que os levará

quem sabe? –

ao mar sem fim
sem lembranças
ao mar, ao grande mar...

(2003)



A pracinha, às 20 h

Luiz Gonzaga da Silva

Uma que outra luz
invade o escuro aconchegante
da pracinha.

Não há ninguém por lá.
As casas enfurnam
pessoas e novelas.
O coreto – iluminado –
está lá, perplexo,
– vazio –
parece um útero inútil,
sem serventia.

Há silêncio e estranhas sombras
à volta dele.
Nem um carrinho de pipoca
nem um grito de criança
apenas uma placidez inconfortável
de imobilidade estática...
(E a noite. A noite. A noite.)
(2003)


Cansaço de Chronos

Luiz Gonzaga da Silva

Neste frio mês de julho,
cá no bar do Zanovelli,
tomando uma cervejinha,
sinto o tempo decrescendo,
como um velho, com chinelos.

Até as nuvens do céu,
aqui, neste Guarani,
são lerdas, por sob o azul.

Será que o tempo parou?
Ou o céu que descorou?
Será que o vento cansou?
Ou o sol, que desmarelou?
Ou foi Deus que bocejou?


Vejo, observo, sinto
haver um cansaço em tudo.


Me recolho, quase mudo,
neste silêncio felpudo,
de miúdas lembranças
que o tempo, já tartamudo,
aprofundou
dentro de mim.
(2006)


As cartas não mentem, jamais!...

Luiz Gonzaga da Silva

A Maria da Sá Zinha
punha cartas.
Lia a vida da gente,
sobre muletas,
altiva.

(Quanta gente
saiu de lá, capenga,
quase a rolar,
escorregando,
no

Morro
das
Pedrinhas... )
(2008)


Mas nosso poeta, introduzido, talvez pelo destino do nome Gonzaga, que o levou ao Tomás Antônio, do século XVIII, arcádico, e à sua Marília de Dirceu, dedica seus poemas a uma Lavínia, que lhe frequenta a imaginação poética. Aqui a linguagem, de uma delicadeza amorosa, alcança a mesma precisão dos poetas daquele tempo, cansados do requinte e volteios do Barroco. Fazer uma seleção foi quase uma dolorosa e impossível escolha, porque flutua o encanto de uma voz enamorada, enamoradoradamente tomado também o leitor. De forma bastante subjetiva, me encantei com os textos.

Chegança

Luiz Gonzaga da Silva

Reparaste, Lavínia,
reparaste a tarde?
Tão cinzenta,
Lavínia,
tão cinzenta...

(De repente,
o sol.)

Sabes bem
a hora de chegar...
(2007)


Gosto de domingo

Luiz Gonzaga da Silva

Tens gosto
tão gostoso
de domingo,
Lavínia!

Me deixa
Lavínia,
me deixa
descansar-me
em ti.
(2007)


Compra

Luiz Gonzaga da Silva

Lavínia,
tesouro meu,
moedinha minha,

te tento comprar
com a poesia.

Concordas?

Me sinto feliz.
(2007)


Possessão

Luiz Gonzaga da Silva

A tua dimensão,
Lavínia,
é azul.
És assim
como uma rosa-dos-ventos
desfolhada.
Sul-oeste,
norte-leste
do céu
em minha vida.

Direções totais em ti,
Lavínia.
Me perco em ti,
Lavínia,
e te possuo
em cada ponto
cardeal.
(2007)

Como o visitante percebe, a poeta Francisca Júlia nos abençoou, lá onde está. Aguardo outros poemas que estão sendo escritos, promessa feita a mim por Luiz Gonzaga da Silva, que, sem o menor pejo, evidentemente, cobrarei.

Obras literárias

Poemas

Idas e vindas. Muriaé: 1. Gonzaga da Silva, 2003;
Idas e vindas II: um olhar sobre a cidade amada. Muriaé: Vanguarda Gráfica, 2006;
O livro de Lavínia. Muriaé/Juiz de Fora: Templo, 2007;
Nem idas nem voltas: desvoltas. Muriaé/Juiz de Fora: Templo,2008.

Poemas para crianças
Criancices; poemas infantis. Muriaé/Juiz de Fora: Templo, 2008/2009;
Chinfrim:versinhos de brinquedo. Muriaé: Do autor, 2011.

Convido quem me visita a ir a meus outros dois blogues Poema Vivo (link)
e Conto-gotas (link).


domingo, 7 de agosto de 2011

"Brasil feminino"

Eliane F.C.Lima

Fui visitar a exposição “Brasil Feminino”, na Biblioteca Nacional, que continua a comemorar seu aniversário de 200 anos de criação e 100 no prédio da Avenida Rio Branco. A exposição, cujos responsáveis declaram não ter intenção sexista, é bastante interessante, porque focaliza a ascensão das mulheres em todos os setores, passando por Menininha do Gantois a Dilma Roussef, analisando as circunstâncias das mulheres desde os séculos anteriores ao XXI.
Mas não se deixa de manter a posição crítica, no encaminhamento, ao serem exibidos jornais de época como, por exemplo, o assassinato da jovem Aída Curi, que morreu por despencar do alto de um edifício de luxo, onde subira, atraída por dois jovens bem colocados na vida, violência que não perdeu sua força e que continua a ser uma constante até hoje.
A exposição utiliza, como mecanismo de comunicação com o público e comprovação dos fatos, jornais, revistas e toda e qualquer publicação de época. A diversidade do que é exposto é bem atraente para o visitante.
O que me chamou bastante a atenção, no entanto, foram vários estandartes, dispostos como uma cortina a separar dois ambientes, onde ditos e quadrinhas populares, transcrições de trechos de artigos de livros de séculos anteriores, que, de uma forma resumida, mas contundente, dão testemunho do pensamento dominante, no passado, a respeito das mulheres, suas funções e direitos, pensamento que, como se vê sobre o número atualmente crescente de acontecimentos violentos em relação a elas, parece não ter mudado tanto assim.
Em várias dessas transcrições, pude observar a constante de se enunciar que a educação feminina era um fator em que se deveria colocar bastante cuidado. Às mulheres deveriam ser ensinadas, exclusivamente, noções que as tornassem competentes como donas de casa e mães. E o que me pareceu mais claro: a educação redentora, aquela que leva as pessoas a se tornarem críticas, com capacidade analítica deveria ser evitada para essa parcela da população, a todo custo, como um mal corruptor. Uma das frases populares dizia algo mais ou menos assim: “Não confie em mula que faz 'hiiimmm', nem em mulher que fala latim.” Claro que a equiparação da mulher ao explorado e “desimportante” animal não é por acaso e que a expressão “latim” aparece ali, tão somente, como sinônimo de cultura e erudição, traduzindo uma mulher que fosse capaz de se expressar com profundidade, perceber o tipo de vida a que era condenada e, finalmente, defender-se, o que a tornaria não confiável. Isso desestabilizaria uma cultura patriarcal, cujo principal sustentáculo era a opressão dos outros segmentos.
Saí da exposição com a certeza de que a educação é redentora, certeza que eu já tinha, revigorada. A cultura popular lá dentro, ao temer o crescimento das mulheres sob essa batuta, mostra que é sábia.

Já estou postando também em Poema Vivo (link) e Conto-gotas (link).


Link

domingo, 3 de julho de 2011

Arriete Vilela - a poesia do irrevelado












Eliane F.C.Lima

“Pedem-me notícias de mim./Eu as dou assim:/em versos/que me desmentem.” Essa é a estrofe final do “Poema 13”, da escritora alagoana Arriete Vilela, que teve sua obra analisada em Transparências da memória / Estórias de opressão, estudo da professora Angélica Soares (UFRJ), junto a outras escritoras, pelo conteúdo de seus textos e, ainda, por seu talento poético, o que o leitor deste blogue comprovará a seguir.
Professora aposentada da Universidade Federal de Alagoas, onde trabalhou com a autoria feminina na Literatura Brasileira, foi eleita para a Academia Alagoana de Letras em 1996. Sua obra recebeu inúmeros prêmios, por lhe reconheceram a importância, como o da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, em 2002.
Atualmente edita o blogue “A poesia nas entrelinhas da vida” (link), de onde foi copiada a foto que ilustra a postagem.

Obras (poesia e ficção):
Eu, em versos e prosa (1970), 15 poemas de Arriete (1974), Recados (1978), Para além do avesso da corda (1980), Pequena história da meninice e outras estórias (1981), Remate (1983), Fantasia e avesso (1986), Farpa (1988), A rede do anjo (1992), Dos destroços, o resgate (1994), O ócio dos anjos ignorados (1995), Tardios afetos (1994), Vadios afetos (1999), Grande baú, a infância (2003), Frêmitos (2003), A Palavra sem Âncora (2005), Lãs ao vento (2005), Ávidas paixões, áridos amores (2007), Obra poética reunida (2009).

Poema 13

Arriete Vilela

Pedem-me notícias de mim.
Eu as dou assim:
em versos.

Há tempos não permitia que pedras
rolassem com o limo macio
das palavras.
Eu usava arpões
para não fisgar as minhas fragilidades.

Mas, porque me pedem notícias de mim,
eu as dou assim:
em versos.

Uso a máscara dos antigos bailes
e danço ao som de um clarinete
que sempre imaginei ser do avô.

(O avô - ah, os equívocos da infância! -,
o avô tocava bumbo.)

Porque me pedem notícias de mim,
confidencio afetos em palavras que os contradizem,
em excesso de murmúrios,
já que as tardes concretas silenciaram os meus antigos
(des)amores.

Pedem-me notícias de mim.
Eu as dou assim:
em versos
que me desmentem.

(Ávidas paixões, áridos amores - In: Obra poética reunida)

Poema 42

Arriete Vilela

Pensas encontrar-me aqui
nestes versos?

Enganas-te.

Os pássaros da poesia semeiam
miolos de pedra
a cada linha, para que tropeces nas entrelinhas.

E se buscas pistas de alguém
aqui, nestes versos,
desiste - ou não sairás do labirinto,
e os minotauros pisotearão a tua cabeça
- cruamente, sem simbolismos.

Pensas encontrar-me aqui
nestes versos?
Não te iludas.
Teu voyeurismo te deixará para sempre
no encalhe da maré,
pois fechadas a ti estão as entradas do rochedo:
ele, vigiado pelas borboletas
elas, tecidas por Aracne.

(In: Obra Poética Reunida)

Nos dois primeiros poemas postados, a poeta estabelece a relação de um eu enunciador com a poesia. Essa relação, no entanto, parece indicar um caminho que vai no sentido contrário ao da revelação, como se pode observar em “... eu as dou assim:/em versos/que me desmentem. “ (Poema 13) e em ”Pensas encontrar-me aqui/nestes versos?/Enganas-te.”(Poema 42), ecoando a bela suposição de que uma das estratégias da poesia é o engano. Sutilmente, porém, revela, a princípio, aquilo que nega, pois o hermetismo desse eu mais profundo é surpreendido na beleza da metáfora: “... fechadas a ti estão as entradas do rochedo...”. Entretanto a mesma impossibilidade acaso surpreendida no vocábulo “rochedo” é lapidada pela fragilidade do “tecidas por Aracne” e “vigiado pelas borboletas”.

Os poemas seguintes tematizam esse eu poético que se autoinvestiga. É interessante se atentar para o final do Poema 4, em que novamente a imagem do rochedo é usada, mas, dessa vez, a palavra “descobrindo-se” parece confirmar o estabelecimento da mesma possibilidade de desnudamento: se lá eram o “apenas” borboletas, aqui é a “baixa da maré”.

Poema 4

Arriete Vilela

Preciso sempre
ir dentro de Mim:

confiro-me

E quando emerjo,
sou rochedo descobrindo-se
com a baixa da
maré.


Poema

Arriete Vilela

Não devias ameaçar-me
com essa solidão:
venho de portos sem búzios,
destinos diversos
cruzando-se na soleira
dos meus olhos.

Não devias ameaçar-me:
refaço minha travessia
e te provo que meu coração
sobrevive à ausência
de bússola.
(Frêmitos - In: Obra poética reunida)

Poema 29

Arriete Vilela

Vou me sabendo sem remansos.
Por vezes o mar estronda
dentro de mim
e tempestades me obrigam
a descer aos porões, a reconhecer-me
nas escotilhas fechadas da minha
incômoda solidão.

Difícil reconhecimento, porém.
Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosa
que me ardem no peito.
Mas já não me deixo
possuir.


Poema 5

Arriete Vilela

É bom
ter o coração apaziguado:

outra vez na ponta
do arco,
torna-se flecha
ultrapassando-se
no próprio
voo.
(Frêmitos - In: Obra poética reunida)

Termino a postagem com um poema que, se possui um tema social aflitivo, a beleza da comparação transforma esse tema em uma fala poética, esvaziando-o do que poderia trazer-lhe um ar recorrentemente panfletário. É impossível não se atentar para a inteligência da vinculação de “meninos de rua” e “pardais”, imagem que faz parte de meu universo poético, pelo mesmo motivo que norteou a poeta em questão (remeto o leitor a dois poemas em meu blogue – link e link – “Poema Vivo”, onde uso a imagem do pardal, como a ave que se esvazia de todo o seu conteúdo idealistamente poético, por seu “plebeísmo”).

Poema 28

Arriete Vilela

Os meninos de rua
parecem pardais urbanos:
em ligeiros voos
acham-se em toda parte,
aproveitam restos de toda sorte.

Tropical
é algazarra de suas vozes,
quando se ajuntam;
seus gestos e jeitos,
de uma graça desavisada,
assustam e comovem.

Atentíssimo dever ser
o anjo da guarda dos meninos de rua,
esses tantos pardais urbanos.


Convido o visitante a uma viagem até meus blogues Poema Vivo (link) e Conto-gotas (link).

domingo, 19 de junho de 2011

Hosana

Eliane F.C.Lima

Ontem fez um ano da morte do escritor português José Saramago. E, como todo o mundo já percebeu, estamos há um ano mais pobres
. De cultura. De amor ao próximo. De verdade.
Logo após a sua morte, compus o poema abaixo, onde eu imaginava a chegada de Saramago ao céu, ele que era ateu. Não é um poema religioso ou de negação das ideias do escritor. Ao contrário. Vali-me do tema para reafirmar o pensamento do homem.

Hosana

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

Sentado estava Deus, e absorto
– que Deus também tem dúvida e anseio.
E chega-lhe, de manso, em pleno horto,
um magro homem e senta ali no meio.

De imediato o deus o reconhece,
é Saramago, dele não se esquece.
O homem, mesmo vendo, não acredita
e se exaltar, à toa, ainda evita.

Mas o outro – a espera não foi vã –,
mesmo Deus, o coração aos pulos,
sorri de si, e mais dos homens fulos
que, no lodo, cospem ira anã.

Mostra as guirlandas postas pelos cestos,
a festa preparada ao José,
declama, decorados, os seus textos,
demonstra com clareza sua fé.

Diz-lhe que agradece a cada dia
a negação daquele deus cruento,
do que foi só malévolo invento,
daquilo que – por Deus! – não existia.

Negando as hipócritas mentiras,
o uso da falácia e do poder,
falsa verdade que sempre o traíra,
Saramago o estava a defender.

Manso poeta, o abraço às costas,
vê ao redor de si um outro homem,
e, sem se importar por quem o tomem,
envolve-lhe, cálido, as mãos postas.

domingo, 5 de junho de 2011

A rainha do mundo - privado X público: reflexos na literatura

Eliane F.C.Lima

No último dia das mães, fiz uma postagem – “Nós, mulheres, somos tudo. Até mães.” –, onde levantei o conceito de público X privado, chamando a atenção de que toda a sacralidade conferida à mãe se devia ao fato de ser mulher, visto que essa situação especial acima da condição humana estava intimamente ligada a uma espécie de prêmio pelo fato dela estar apartada do mundanismo e suas circunstâncias, ou seja, limitada à casa, “protegida” das tentações e dos pecados. Na canção da MPB “Mamãe”, David Nasser e Herivelto Martins já davam a pista: “Ela é a dona de tudo/ Ela é a rainha do lar”. Esse “tudo” era muito pouco, um universo circunscrito ao privado, ao “lar”, ao qual cabia à mulher, como mãe, ser rainha.
No poema “Infância”, do qual transcrevo algumas estrofes abaixo, Drummond volta à figura materna presa à domus e com ela confundida.

Infância

Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
(…)

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!


Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

É interessante atentar para o fato de que à figura do pai/homem corresponde o “público”, o exterior, a busca pelo capital – ver os versos em itálico –, e à mãe/mulher, a vida “privada”, o interior, a proteção da família – versos em negrito.
Observe-se que a descrição do momento familiar é feita pela visão particular do filho adulto que, olhando para a infância, reintroduz aquela visão de pequeno ainda, para quem a “ordem das coisas” estava perfeita, como se depreende da última estrofe. É dele o olhar que relembra e avalia seu passado. Pela primeira estrofe, pode-se observar, que tinha um temperamento introvertido.
Mas parece que algum sentimento inconveniente ao idealismo da cena, sentimento que ia na alma da mãe – é flagrante a reiteração da inércia materna em “ficava sentada” –, não foge totalmente à percepção da criança: “E dava um suspiro... que fundo!”. Qual o alcance e significado exatos do enunciar daquele suspiro que não parece traduzir satisfação? Introduzida no meio do poema, tal alusão instaura um desequilíbrio na pretensa felicidade doméstica, provocando uma sensação de estranhamento ao leitor.
A estrofe seguinte, novamente, enuncia o afastamento do pai daquela “paz” íntima, reiterando a oposição papel da mulher X papel do homem. O leitor percebe, com sutileza, que “papel”, nesse caso, envolve não só deveres, mas, principalmente, direitos... e, talvez, felicidade. E se pergunta por que suspira tão profundamente aquela mãe/mulher.

E o sujeito enunciador se apressa a encerrar a questão, trazendo para si, subjetivamente, segundo sua visão idealizada, a perfeição da história da família: “minha história.”

Mater dolorosa

Adélia Prado

Este puxa-puxa
tá com gosto de coco.
A senhora pôs coco, mãe?
— Que coco nada.
— Teve festa quando a senhora casou?
— Teve. Demais.
— O que que teve então?
— Nada não menina, casou e pronto.
— Só isso.
— Só e chega.
Uma vez fizemos piquenique,
ela fez bolas de carne
pra gente comer com pão.
Lembro a volta do rio
e nós na areia.
Era domingo,
ela estava sem fadiga
e me respondia com doçura.
Se for isso o céu,
está perfeito.

Adélia Prado também expõe um perfil de mãe em “Mater dolorosa”. No poema, aparece uma mãe sem a disponibilidade apregoada pela tradição patriarcal. Primeiro pela ironia presente em “Teve. Demais”, onde afirma o que evidentemente nega. E o trecho “ela estava sem fadiga/e me respondia com doçura” apresenta uma situação inusitada, não costumeira, que inaugura um caminho desconhecido para o “céu”.
E o termo “céu”, no poema de Adélia, cujo título enfatiza o sofrimento materno, pode remeter-nos para o "paraíso" do famoso poema de Coelho Neto – Caxias, MA, 1864-1934, Rio de Janeiro –, cujos versos finais acabou se configurando em ditado, cultuado no imaginário popular.

Ser Mãe

Coelho Neto

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Parece importante chamar a atenção para a afirmativa de “ser mãe é ter um mundo e não ter nada!” que, fazendo coro à canção popular no início citada, reveste-se, sob a visão atual que se tem sobre os direitos da mulher, com o significado oposto ao que pretendia o poeta. Essa visão parece retomada no poema que se segue. Nele, tradução de um pensamento contemporâneo, a maternidade – paternidade –, esvaziada de seu pseudo conteúdo sagrado, de seu idealismo, está colocada no mesmo patamar de outros elementos da vivência hodierna da mulher, analisada dentro de seus limites reais. Vale se atentar para o fato de que esse eu que “filosofa” se neutraliza ou se amplia nesse “a gente”, independente de sua condição de gênero. Ter filho não é sagrado, é humano.

190

Martha Medeiros

o sentido da vida
é o que a gente sente

por um filho
que é a cara da gente

por um trabalho
que ocupa a mente

por um amor
que nos deixa doente

pena que isso não baste
por mais que se tente

(Poesia Reunida)

O diálogo de opostos, quando se cotejam os poemas de Coelho Neto e Martha Medeiros, fica claro e resumido no trecho “Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,/espelho em que se mira afortunada,” em oposição à “pena que isso não baste/ por mais que se tente.” Serão os versos finais da citada poeta a chave para o suspiro da mãe drummoniana?
(Aguardo você em Poema Vivo e Conto-gotas.)

(Continuo remetendo para o Longitudes, de Nydia Bonetti, poeta que postei em Literatura em vida 2. É maravilhar-se.)

sábado, 28 de maio de 2011

O gume da palavra

Eliane F.C.Lima

Embora eu ainda envie o visitante para minhas postagens anteriores, hoje posto este vídeo, que eu já havia recebido há algum tempo e resolvi copiar do YOUTUBE, ao qual agradeço, estendendo o agradecimento à pessoa que o postou ali.
Ele se tornou conhecido e a Professora Amanda Gurgel foi entrevistada em uma rede de televisão de grande alcance que, pasme o leitor, fez reiteradamente campanha contra professores do Rio de Janeiro, em greve – eu estava lá, junto –, que reivindicavam a mesma coisa. Hoje tal rede não só faz reportagens a favor da educação, apontando suas falhas, como traz a professora para dar entrevista. Porém é preciso não ser ingênuo: será que essa rede não está, sim, contra o governo federal e não a favor da educação? Em sua fala, a professora diz alguma coisa como "em nenhum momento, governo algum teria se preocupado com a educação.". Triste será perceber que seu discurso esteja sendo mais uma vez manipulado e usado como "arma de manobra".
Mas a veiculação aqui se faz menos pelo conhecimento da realidade educacional no país e seu desejo de lutar para salvá-la.
Apresento-o pelo "show" de oratória que a professora dá, domínio completo da arte de persuadir, de expor o pensamento. Ela usa a técnica que sempre ensinei a meus alunos de vencer o inimigo em seu próprio campo – metáfora de convencer, usando as estratégias do pensamento contrário –, quando eu ensinava a dissertação argumentativa, composição escrita que costuma ser pedida em vestibulares. Como a Professora, dei aulas de Língua Portuguesa, o que significa, na verdade, ensinar ao aluno a argumentar e expressar seu pensamento.
Cito dois exemplos: o apelo aos números, truque que sempre dá certo por emprestar ao discurso um quê de ciência exata – o Ocidente adora as Ciências Exatas –, de argumento irrefutável, portanto. Ela se vale do "gancho", usando-o com uma ironia incontestável. Quando a platéia ri, oitenta por cento da batalha já está vencida: ninguém respeita um inimigo do qual todo mundo ri.
Depois, ela usa as palavras da secretária de educação de seu estado – acredito que os professores locais estivessem em greve –, a favor de seus argumentos. Não há, definitivamente, possibilidade da secretária salvar seu discurso de representante do governo, depois do ardil da palestrante, sem reiterar, enfatizar, robustecer a fala implacável anterior. O único recurso é o silêncio.


Como disse, com tanta sabedoria, a própria Professora Amanda Gurgel, a culpa do que acontece na educação não está dentro de sala de aula. A alegação de que os professores são despreparados e precisam se reciclar é negada pela excelência das argumentações, tanto em seu conteúdo, como em seu estilo pela própria emissora do discurso. A Professora – assim mesmo, com letra maiúscula –, é uma oradora de primeira. Imagino as aulas extraordinárias que dá. Como professora também, sinto muito orgulho.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Adriana Calcanhotto - NIELM - "Encontro com as escritoras"

Eliane F.C.Lima

Fiz esta postagem para assinalar o novo "Encontro com as escritoras", evento do NIELM/UFRJ - Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura -, no dia 17-05-2011 agora, do qual participou a compositora, cantora e agora escritora Adriana Calcanhotto, que tem sido frequentemente citada neste blogue, para lançamento de seu livro Saga Lusa. Na foto oficial do NIELM, estavam a Cintia Barreto - talentosa poeta por mim apresentada anteriormente -, o vice coordenador do NIELM Jorge Luiz Marques de Moraes, que é uma gracinha e me dá ali um abraço muito gostoso, a Adriana e eu, já de cabelos curtos de novo.
Agradeço à Cintia a foto que ela colocou em seu Facebook.

domingo, 8 de maio de 2011

Nós, mulheres, somos tudo. Até mães.

Eliane F.C.Lima

Neste dia dedicado às mães por uma sociedade capitalista quero relembrar alguns aspectos. Primeiro que, num tempo não tão longínquo, a única felicidade que restava a uma mulher –
seriam felizes mesmo? – era ser mãe, além de esposa extremosa. Na verdade, o título e a homenagem apenas tinham como intenção reforçar os limites domésticos impostos à mulher em seu papel de ser da vida privada. A rua, os negócios, a vida pública, o capital, a liberdade de escolha, enfim, eram prerrogativas masculinas.
Hoje a homenagem às mães se reveste de um outro aspecto: o fato de uma mulher, com todas as atribuições novas que conquistou na vida pública, que agora também é sua – nada distingue a vida de uma mulher da vida de um homem –, exercer as funções da vida privada, como ser mãe, com aptidão, faz da mulher, realmente, um ser excepcional, tenha filhos ou não. Meus parabéns a nós está posto, não apenas por sermos mães, mas, em primeiro lugar, por sermos mulheres e competentes. Aliás, como sempre fomos.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A função da linguagem poética

Eliane F.C.Lima

As considerações que aqui se apresentam têm como objeto as funções poética e emotiva (subjetiva) da linguagem. Ao se falar em funções da linguagem é impossível não se citar o linguista russo Roman Jakobson (1896-1982), do Círculo Linguístico de Moscou, e seu texto Linguística e Poética, compilação de uma conferência de 1956, em que o estudioso comparava a linguagem quotidiana e a linguagem da poesia. Eram estabelecidos ali seis fatores identificados por Jakobson como constituidores do processo comunicativo: o enunciador, o receptor, o código, a mensagem, o contexto (o referente do meio externo), o canal ou meio. Dependendo do enfoque de um desses elementos no ato de linguagem, segundo ele, uma de seis funções predominava sobre as demais, sendo que, seguidamente, se possa reconhecer a presença de várias em um só momento de comunicação. Para maior aprofundamento, remeto ao trabalho do Prof. Dr. Antônio J. S. Brandão (aqui).
Muitas críticas têm sido colocadas atualmente, principalmente depois dos estudos que levaram à Teoria do Discurso e que mostram a complexidade muito maior em jogo em um desses atos. Embora, como se argumenta, não haja apenas um receptor, na maioria das vezes, e um mesmo código utilizado por enunciador/receptor tenha variações imensas, individualmente, imagino que o elemento de partida para as conclusões do linguista sejam sempre o enunciador, o qual prevê sempre um interlocutor ideal, aparadas todas as arestas.
Neste trabalho, serão levadas em conta, especificamente, a função emotiva ou expressiva da linguagem, centrada no emissor/sujeito da mensagem, como tradutora de seus sentimentos e emoções e todos os elementos linguísticos que a revelam em comparação com a função poética (não confundi-la com o conceito popular de poesia como sinônimo de poema), que é o enfoque sobre a mensagem propriamente dita, um trabalho elaborador da mensagem em si e interessado, em primeiro lugar, nela mesma.
A primeira preocupação aqui será salientar que a função poética, na literatura, raramente vem sozinha e, frequentemente, está acompanhada da função emotiva. Através do estudo de dois poemas, de estilos e épocas diferentes, veremos o crescimento óbvio de uma sobre a outra.
Primeiro é preciso dizer que o discurso subjetivo – presença clara do eu enunciador – é o grande traço da função emotiva. Essa presença é evidenciada por pronomes pessoais e possessivos e por verbos na primeira pessoa. Também todos os vocábulos que conotem emoção são um traço desse ego emocionado que se derrama no poema. O estilo de época do Romantismo tem como um dos principais ditames de sua doutrina a presença dominante da função emotiva.

Texto I: Adeus, meus sonhos!

Álvares de Azevedo (poeta do Romantismo - 1831-1852)

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! votei meus pobres dias

À sina doida de um amor sem fruto...
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus?!... morra comigo

A estrela de meus cândidos amores,
Já que não levo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!
(Lira dos vinte anos)


Saliento, no texto, de início, o predomínio da função emotiva gritante em todos os pronomes e verbos em primeira pessoa, destacando-os em negrito, para marcar esse sujeito que não se vexa de se declarar no texto e cuja presença não é poupada. É a si que ele investiga: “amor sem fruto” ou “cândidos amores” são apenas um quase irrelevante motivo para o “dizer-se”.
Atente-se para as expressões – sonhos, triste (mocidade), misérrimo, pobres (dias), (sina) doida, cândidos (amores), (peito) morto, murchas (flores) – que claramente traduzem a emoção conscientemente não contida. É preciso se atentar ainda para o uso reiterado dos pontos de exclamação como recurso para enfatizar a exacerbação de tal emoção.
A função poética, no entanto, está fortemente presente também. É um texto artístico, no qual a função emotiva acontece. As escolhas feitas na elaboração desse discurso, como uma intenção conscientemente artística, caracterizam essa segunda função agora comentada. Vamos aos detalhes:
1.O texto é um poema dividido em três quadras. Cada verso é um decassílabo. A preocupação de se conseguir as dez sílabas foi responsável pela apócope em “E minh’alma na treva agora dorme”. Imagino que essa deva ser uma das causas, ainda, da preferência de “pranteio” (três sílabas) em lugar de “choro” (duas sílabas), além da invulgaridade maior do primeiro em relação ao último termo.
2. A estrutura das estrofes: o primeiro e o terceiro versos, em todas elas não são rimados. A ideia de morte, traduzida em uma palavra com o mesmo radical (morro, morreu – primeira estrofe; morte – segunda estrofe; morra, morto – terceira estrofe), aparece, enfaticamente, em todas as estrofes. Há uma antítese dominante no texto que é “tanta vida que meu peito enchia” X “no meu peito morto”, que resume, praticamente, toda a intenção do texto.

Texto II: A mulher e a casa

João Cabral de Melo Neto

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.
(J. C. M. Neto – Antologia poética – 4. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1978)

O texto modernista de J. Cabral tem especificidades que o tornam bem diferente de um texto romântico, acrescentadas as características do estilo pessoal de tão raro poeta: o controle emocional do discurso, bem entendido, é uma de suas marcas. Então a subjetividade que é o traço fundamental da função emotiva vem aqui quase completamente diluída. Observe-se que os versos “os quais sugerindo ao homem” e “exercem sobre esse homem”, nas duas últimas estrofes, respectivamente, transferem o sentimento de um “eu” enunciador – atente-se para “exercem sobre esse homem/efeito” e “a vontade de” na última estrofe” – para um ser nomeado em terceira pessoa, o que lhe confere uma pretensa objetividade e distanciamento. Porém o “efeito” que exercem, ou seja, “a vontade de”, deixam escapar uma emoção que a custo se contém. “Eu” e “homem” não serão, assim, a mesma pessoa poética?
Examinados, entretanto, todos os adjetivos que vão sendo atribuídos aos diversos aspectos da casa – plácida (elegância); (riso) franco; (estâncias) aconchegadas; (paredes) bem revestidas; (recessos) bons – verifica-se que eles não são simplesmente descritivos, mas carregados de valores afetivos e avaliativos do próprio eu que os enuncia, o que é um claro sintoma do subjetivismo.
Os termos “sedução” e “seduz”, por seu significado, deixam no leitor, igualmente, o entendimento de que há uma relação nada objetiva entre o detentor do discurso poético e a casa enfocada.
Os detalhes acima revelam um “eu” que se pretendia escondido e a função emotiva, finalmente, se mostra, embora sem a relevância do poema de Álvares de Azevedo. Ela se apresenta, como quis o enunciador, em um patamar bem abaixo da função poética.
Pode-se começar a argumentar que o próprio desejo de elaborar um texto artístico contido, sem o extravasamento romântico, já é um dos efeitos da função poética, que tem como intenção dominar os efeitos estéticos no ato criativo.
Os aspectos formais do texto, claramente, revelam ainda tal função: um poema dividido em oito quadras, com versos heptassílabos, sem rimas.
O grande trunfo do poema, que revela de forma cabal a destreza estética, sinal dessa função poética, entretanto, é a metáfora da casa como representação do objeto amoroso. Se à primeira vista a concretude e frieza de uma casa causa um estranhamento e desincentiva a imaginação idealizadora de uma mulher, essa mesma metáfora, vai sendo, aos poucos entendida: contra toda a cultura ocidental, diminui a importância da aparência física da mulher em detrimento do que ela é em seu interior. A estratégia textual é conseguida, principalmente, pela repetição intencional do termo “dentro”, que aparece oito vezes ao longo do poema, em algumas estrofes duas vezes.
É impossível deixar de assinalar a metáfora sensacional de “riso franco de varandas”. Desse modo, percebe-se que a utilização de um recurso poético só depende do engenho da/do poeta. Os modernistas já diziam que qualquer “palavra é palavra poética” e a língua não tem preconceitos dentro de seu léxico, não sendo qualquer vocábulo o filho preferido. É a/o artista que, reunindo-os, faz deles um universo poético.

terça-feira, 8 de março de 2011

"O mundo é masculino"

Eliane F.C.Lima

Embora absolutamente sem tempo, neste 08-03-2011, quero transcrever um e-mail que enviei para a OAB, Minas gerais. Estou até hoje aguardando resposta. Tendo em vista o parecer de um juiz, largamente divulgado pela imprensa, vemos que a data de hoje nada significa: "o mundo é masculino" - disso todos sabemos, ora bolas! - " e assim deve permancer". Tal conclusão a um pedido de socorro feito por uma mulher à justiça é estarrecedor.
A imprensa comentou o fato - vi reportagem na Record -, mas eu esperava que essa mesma imprensa, tão ciosa de seu direito à liberdade, protestasse veementemente sobre o fato. Que nada! Entre uma mulher que sofre violência e o parecer de um juiz, fica melhor não fazer muito barulho e concordar com ele. Será esse o "mundo masculino"?
Para quem não sabe do que se trata, recomendo ler aqui, aqui
e, para espanto de todos, aqui.
Meu e-mail:

"Senhores,
Tenho aguardado, daqui do Rio de Janeiro, um pronunciamento firme da OAB/Minas Gerais, pelo menos - setor "Mulher" ou não -, sobre as declarações do juiz Edilson Rodrigues e sobre a Amagis que lhe saiu em defesa, discriminatórias e que ferem os direitos humanos em geral. Aguardo ainda posição clara sobre a decisão do STF, suspendendo o afastamento.
Ou será que as mulheres não estão incluídas no gênero humano, visto que o "mundo é masculino e assim deve permanecer" no entender daquele juiz? Parece-me que tais declarações não são uma opinião - isso se daria se ele estivesse, por exemplo, dando uma entrevista para um jornal. Tais palavras são a conclusão de um processo movido por uma mulher que estava sendo prejudicada e recorria a uma lei que existe. Não tendo um parecer favorável, ela não só se vê desamparada pela lei e pelos magistrados que deveriam defendê-la, como, em meu entendimento de leiga, estará obrigada a arcar com as custas do processo que moveu. Passou de vítima a ré. Coisas semelhantes acontecem em países de leis radicais em que mulheres estupradas, por exemplo, são mortas por terem perdido a honra. Será que as mulheres agora, no Brasil, serão condenadas a serem apedrejadas também? Esse procedimento estaria incluído no conceito de "mundo masculino"?
O fato de que o "mundo é masculino" é uma constatação que tem fundamento. Ora, exatamente por isso, nossa sociedade deveria estar interessada em mudar e corrigir esse erro. A partir, a princípio, daqueles que são responsáveis por garantir a justiça.
Eu, se fosse do sexo masculino, jamais admitiria que se dissesse que agredir outra pessoa faz parte do "mundo masculino". Isso é pura barbárie.
Se a OAB não fizer nenhum procunciamento sobre o fato, temerei que ou concorda com o ponto de vista do juiz ou toma uma posição corporativista. Deus me livre desse "mundo masculino", então, medieval e bárbaro!
Atenciosamente,
Eliane F.C.Lima"



Peço a quem tenha visto o pronunciamento da OAB/ Minas Gerais que me avise, para que eu fique aliviada e não seja injusta.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

AVISO

Devido à preparação de mudança para o Rio de Janeiro - de volta a meu paraíso! -, durante, pelo menos, este mês, não haverá postagens novas. Agradeço a quem quiser visitar as matérias já editadas. Mas, abaixo, uma quadrinha fevereira.

O retorno

Nascida em fevereiro,
sou
peixe de água doce.Ainda não o fosse,
sou o Rio de Janeiro.
(06-02-2011)

domingo, 23 de janeiro de 2011

A complexidade do simples - Literatura, já.

Nydia Bonetti (Piracaia SP/1958) é engenheira civil e poeta e se dedica, atualmente, ao projeto do seu primeiro livro. Publica seus trabalhos no OVERMUNDO (link) e tem textos publicados na “Revista ZUNÁI” (link), “Germina Literatura” (link), “Cronópios” (link) e outras mídias eletrônicas, segundo suas próprias palavras. Bloga no Longitudes (link), espaço através do qual entrou como seguidora de meu blogue Poema Vivo. Fui até lá para conhecer minha visitante e tive uma das mais gratas surpresas: encontrei uma poeta que eu, imperdoavelmante, ainda não conhecia. Tenho tido, frequentemente, essas surpresas agradáveis nessa Internet. Nesse mundo pós-moderno e louco, felizmente, porém, uma especialista em literatura, como sou, tem a oportunidade de se reciclar quase em tempo real.
Comprovei, mais uma vez, que ser poeta não é profissão, não é atividade, não é passatempo: é destino. O poeta nasce, assim, assinalado. E, mesmo que escolha qualquer profissão outra, não se livra desse sinal, que o seguirá até o fim. O poema abaixo já começa comprovando o que digo.

Solares

Nydia Bonetti

outra vez
me ronda a poesia

agora é assim

quase uma sombra
colada em mim

não

ela é o sol
eu,
a sombra


O material que Nydia Bonetti utiliza, em um primeiro momento, em seu olhar indagativo sobre o mundo, são as coisas comuns e simples que a envolvem externamente. Mas como, internamente, nada é simples e comum, a manufatura que se apresenta aos olhos do leitor é outra, abençoada pela subjetividade e emoção, que se simula equilíbrio e contenção – observar o último verso do poema "Risco". Identifico até um certo tom blasé, o que é conseguido pelo manusear de uma linguagem bastante cotidiana. Engano do leitor se não for bastante observador: no poema que se segue, jogando com a homofonia de “expiar/espiar” – ouso dizer que a maioria das pessoas toma um termo pelo outro, sem diferenciação –, no derradeiro verso, vários significados e atributos podem ser agregados ao termo “cordeiro”:
1.Seres sem ação e defesa, passivos, o que seria conseguido por “espiam” (observar, olhar, esperar, aguardar) – verificar que abutres e lobos percebem algo e se mantém longe -, que, embora não escrito, é trazido para o texto por sua homonímia com o termo presente.
2.Seres que são sempre utilizados para remir a culpa de outrem diante do assustador uivo da vida, o que se depreende do “expiam”, realmente explícito no texto.
3.Mas aquele mesmo “espiam” do item 1 poderia, trazer, paradoxalmente, a ideia de “procurar descobrir, com o fim de fazer danos” (Dicionário Aurélio, versão digital), o que marcaria “cordeiros” com uma malícia insuspeitada e inverteria a dinâmica do que se supõe à primeira vista, ou os tornaria cúmplices latentes daquele perigo ameaçador da vida. Dada a sutileza da grafia do verbo “expiam” – o termo tem uma entrada muito menos frequente na língua popular –, provavelmente os itens 1 e 3 têm uma garantia maior de entendimento, ainda que não fosse essa a intenção verdadeira da escritora ou que ela não suspeitasse do alcance do que disse. A Teoria da Recepção tem batido nessa tecla e, neste mesmo blogue (confira aqui), já fiz alusão a esse aspecto.


Expiação

Nydia Bonetti

I.

serpentes de barro
rios
de silêncio
rouca
a voz das águas
silencia

II.

ouve-se da vida
um uivo
lobos se esquivam
abutres sobrevoam
enquanto
cordeiros expiam


Mas vamos aos textos – preciso confessar que foi uma enorme dificuldade a escolha:

Risco

Nydia Bonetti

o grande risco do poema
é que ele é feito de giz

e não apaga dor

. . .

Nydia Bonetti

e se eu dissesse apenas
do que sei
e sinto

calava


Outro dia

Nydia Bonetti

a tarde dourada no campo de centeio
não diz das chuvas que virão
diz do sol
embora quase noite
diz do pão
embora as mãos vazias
diz de nós
na janela de outro dia
que já passou

Alma

Nydia Bonetti

a alma do mundo grita
no mormaço dos dias rasos
na escuridão
das noites infinitas
no abandono
das dores terminais
no corpo
do homem que habita
desolada
depois de gerações ainda
aprisionada
que da eternidade
a que almeja sabe
tão pouco quase
nada

Meu pé de não sei que

Nydia Bonetti

árvore do cerrado- cresceu comigo
rude e exótica
mas era minha
eu fui embora - ela não quis
ela não tinha pés
eu não tinha raiz

Nódoa

Nydia Bonetti

árvores do quintal da infância
revi vi
sumo nos olhos:
saudade é nódoa que não sai

Choro pitangas

Nydia Bonetti

preciso rir
chuvas e sóis
preciso rir
primaveras
preciso rir
flores se abrindo
perfume beija-flor

porque ainda
é inverno
não posso

me calo em frio
galho seco noite
choro pitangas
lágrima ácida dor
porém brilhante
vermelha doce
lágrima de esperar


Desejo ao visitante que se delicie neste dia de domingo.

Convido o visitante deste blogue a ir a Conto-gotas (por aqui), onde há um novo conto meu e a Poema Vivo (o caminho é esse).

Estou ainda em:
1.
Debates Culturais, onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima (link).
2
.
Recanto das Letras (aqui).
3. Portal Literal (aqui).
4. Alma de Poeta (aqui).