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domingo, 19 de junho de 2011

Hosana

Eliane F.C.Lima

Ontem fez um ano da morte do escritor português José Saramago. E, como todo o mundo já percebeu, estamos há um ano mais pobres
. De cultura. De amor ao próximo. De verdade.
Logo após a sua morte, compus o poema abaixo, onde eu imaginava a chegada de Saramago ao céu, ele que era ateu. Não é um poema religioso ou de negação das ideias do escritor. Ao contrário. Vali-me do tema para reafirmar o pensamento do homem.

Hosana

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

Sentado estava Deus, e absorto
– que Deus também tem dúvida e anseio.
E chega-lhe, de manso, em pleno horto,
um magro homem e senta ali no meio.

De imediato o deus o reconhece,
é Saramago, dele não se esquece.
O homem, mesmo vendo, não acredita
e se exaltar, à toa, ainda evita.

Mas o outro – a espera não foi vã –,
mesmo Deus, o coração aos pulos,
sorri de si, e mais dos homens fulos
que, no lodo, cospem ira anã.

Mostra as guirlandas postas pelos cestos,
a festa preparada ao José,
declama, decorados, os seus textos,
demonstra com clareza sua fé.

Diz-lhe que agradece a cada dia
a negação daquele deus cruento,
do que foi só malévolo invento,
daquilo que – por Deus! – não existia.

Negando as hipócritas mentiras,
o uso da falácia e do poder,
falsa verdade que sempre o traíra,
Saramago o estava a defender.

Manso poeta, o abraço às costas,
vê ao redor de si um outro homem,
e, sem se importar por quem o tomem,
envolve-lhe, cálido, as mãos postas.

domingo, 5 de junho de 2011

A rainha do mundo - privado X público: reflexos na literatura

Eliane F.C.Lima

No último dia das mães, fiz uma postagem – “Nós, mulheres, somos tudo. Até mães.” –, onde levantei o conceito de público X privado, chamando a atenção de que toda a sacralidade conferida à mãe se devia ao fato de ser mulher, visto que essa situação especial acima da condição humana estava intimamente ligada a uma espécie de prêmio pelo fato dela estar apartada do mundanismo e suas circunstâncias, ou seja, limitada à casa, “protegida” das tentações e dos pecados. Na canção da MPB “Mamãe”, David Nasser e Herivelto Martins já davam a pista: “Ela é a dona de tudo/ Ela é a rainha do lar”. Esse “tudo” era muito pouco, um universo circunscrito ao privado, ao “lar”, ao qual cabia à mulher, como mãe, ser rainha.
No poema “Infância”, do qual transcrevo algumas estrofes abaixo, Drummond volta à figura materna presa à domus e com ela confundida.

Infância

Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
(…)

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!


Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

É interessante atentar para o fato de que à figura do pai/homem corresponde o “público”, o exterior, a busca pelo capital – ver os versos em itálico –, e à mãe/mulher, a vida “privada”, o interior, a proteção da família – versos em negrito.
Observe-se que a descrição do momento familiar é feita pela visão particular do filho adulto que, olhando para a infância, reintroduz aquela visão de pequeno ainda, para quem a “ordem das coisas” estava perfeita, como se depreende da última estrofe. É dele o olhar que relembra e avalia seu passado. Pela primeira estrofe, pode-se observar, que tinha um temperamento introvertido.
Mas parece que algum sentimento inconveniente ao idealismo da cena, sentimento que ia na alma da mãe – é flagrante a reiteração da inércia materna em “ficava sentada” –, não foge totalmente à percepção da criança: “E dava um suspiro... que fundo!”. Qual o alcance e significado exatos do enunciar daquele suspiro que não parece traduzir satisfação? Introduzida no meio do poema, tal alusão instaura um desequilíbrio na pretensa felicidade doméstica, provocando uma sensação de estranhamento ao leitor.
A estrofe seguinte, novamente, enuncia o afastamento do pai daquela “paz” íntima, reiterando a oposição papel da mulher X papel do homem. O leitor percebe, com sutileza, que “papel”, nesse caso, envolve não só deveres, mas, principalmente, direitos... e, talvez, felicidade. E se pergunta por que suspira tão profundamente aquela mãe/mulher.

E o sujeito enunciador se apressa a encerrar a questão, trazendo para si, subjetivamente, segundo sua visão idealizada, a perfeição da história da família: “minha história.”

Mater dolorosa

Adélia Prado

Este puxa-puxa
tá com gosto de coco.
A senhora pôs coco, mãe?
— Que coco nada.
— Teve festa quando a senhora casou?
— Teve. Demais.
— O que que teve então?
— Nada não menina, casou e pronto.
— Só isso.
— Só e chega.
Uma vez fizemos piquenique,
ela fez bolas de carne
pra gente comer com pão.
Lembro a volta do rio
e nós na areia.
Era domingo,
ela estava sem fadiga
e me respondia com doçura.
Se for isso o céu,
está perfeito.

Adélia Prado também expõe um perfil de mãe em “Mater dolorosa”. No poema, aparece uma mãe sem a disponibilidade apregoada pela tradição patriarcal. Primeiro pela ironia presente em “Teve. Demais”, onde afirma o que evidentemente nega. E o trecho “ela estava sem fadiga/e me respondia com doçura” apresenta uma situação inusitada, não costumeira, que inaugura um caminho desconhecido para o “céu”.
E o termo “céu”, no poema de Adélia, cujo título enfatiza o sofrimento materno, pode remeter-nos para o "paraíso" do famoso poema de Coelho Neto – Caxias, MA, 1864-1934, Rio de Janeiro –, cujos versos finais acabou se configurando em ditado, cultuado no imaginário popular.

Ser Mãe

Coelho Neto

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Parece importante chamar a atenção para a afirmativa de “ser mãe é ter um mundo e não ter nada!” que, fazendo coro à canção popular no início citada, reveste-se, sob a visão atual que se tem sobre os direitos da mulher, com o significado oposto ao que pretendia o poeta. Essa visão parece retomada no poema que se segue. Nele, tradução de um pensamento contemporâneo, a maternidade – paternidade –, esvaziada de seu pseudo conteúdo sagrado, de seu idealismo, está colocada no mesmo patamar de outros elementos da vivência hodierna da mulher, analisada dentro de seus limites reais. Vale se atentar para o fato de que esse eu que “filosofa” se neutraliza ou se amplia nesse “a gente”, independente de sua condição de gênero. Ter filho não é sagrado, é humano.

190

Martha Medeiros

o sentido da vida
é o que a gente sente

por um filho
que é a cara da gente

por um trabalho
que ocupa a mente

por um amor
que nos deixa doente

pena que isso não baste
por mais que se tente

(Poesia Reunida)

O diálogo de opostos, quando se cotejam os poemas de Coelho Neto e Martha Medeiros, fica claro e resumido no trecho “Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,/espelho em que se mira afortunada,” em oposição à “pena que isso não baste/ por mais que se tente.” Serão os versos finais da citada poeta a chave para o suspiro da mãe drummoniana?
(Aguardo você em Poema Vivo e Conto-gotas.)

(Continuo remetendo para o Longitudes, de Nydia Bonetti, poeta que postei em Literatura em vida 2. É maravilhar-se.)

sábado, 28 de maio de 2011

O gume da palavra

Eliane F.C.Lima

Embora eu ainda envie o visitante para minhas postagens anteriores, hoje posto este vídeo, que eu já havia recebido há algum tempo e resolvi copiar do YOUTUBE, ao qual agradeço, estendendo o agradecimento à pessoa que o postou ali.
Ele se tornou conhecido e a Professora Amanda Gurgel foi entrevistada em uma rede de televisão de grande alcance que, pasme o leitor, fez reiteradamente campanha contra professores do Rio de Janeiro, em greve – eu estava lá, junto –, que reivindicavam a mesma coisa. Hoje tal rede não só faz reportagens a favor da educação, apontando suas falhas, como traz a professora para dar entrevista. Porém é preciso não ser ingênuo: será que essa rede não está, sim, contra o governo federal e não a favor da educação? Em sua fala, a professora diz alguma coisa como "em nenhum momento, governo algum teria se preocupado com a educação.". Triste será perceber que seu discurso esteja sendo mais uma vez manipulado e usado como "arma de manobra".
Mas a veiculação aqui se faz menos pelo conhecimento da realidade educacional no país e seu desejo de lutar para salvá-la.
Apresento-o pelo "show" de oratória que a professora dá, domínio completo da arte de persuadir, de expor o pensamento. Ela usa a técnica que sempre ensinei a meus alunos de vencer o inimigo em seu próprio campo – metáfora de convencer, usando as estratégias do pensamento contrário –, quando eu ensinava a dissertação argumentativa, composição escrita que costuma ser pedida em vestibulares. Como a Professora, dei aulas de Língua Portuguesa, o que significa, na verdade, ensinar ao aluno a argumentar e expressar seu pensamento.
Cito dois exemplos: o apelo aos números, truque que sempre dá certo por emprestar ao discurso um quê de ciência exata – o Ocidente adora as Ciências Exatas –, de argumento irrefutável, portanto. Ela se vale do "gancho", usando-o com uma ironia incontestável. Quando a platéia ri, oitenta por cento da batalha já está vencida: ninguém respeita um inimigo do qual todo mundo ri.
Depois, ela usa as palavras da secretária de educação de seu estado – acredito que os professores locais estivessem em greve –, a favor de seus argumentos. Não há, definitivamente, possibilidade da secretária salvar seu discurso de representante do governo, depois do ardil da palestrante, sem reiterar, enfatizar, robustecer a fala implacável anterior. O único recurso é o silêncio.


Como disse, com tanta sabedoria, a própria Professora Amanda Gurgel, a culpa do que acontece na educação não está dentro de sala de aula. A alegação de que os professores são despreparados e precisam se reciclar é negada pela excelência das argumentações, tanto em seu conteúdo, como em seu estilo pela própria emissora do discurso. A Professora – assim mesmo, com letra maiúscula –, é uma oradora de primeira. Imagino as aulas extraordinárias que dá. Como professora também, sinto muito orgulho.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Adriana Calcanhotto - NIELM - "Encontro com as escritoras"

Eliane F.C.Lima

Fiz esta postagem para assinalar o novo "Encontro com as escritoras", evento do NIELM/UFRJ - Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura -, no dia 17-05-2011 agora, do qual participou a compositora, cantora e agora escritora Adriana Calcanhotto, que tem sido frequentemente citada neste blogue, para lançamento de seu livro Saga Lusa. Na foto oficial do NIELM, estavam a Cintia Barreto - talentosa poeta por mim apresentada anteriormente -, o vice coordenador do NIELM Jorge Luiz Marques de Moraes, que é uma gracinha e me dá ali um abraço muito gostoso, a Adriana e eu, já de cabelos curtos de novo.
Agradeço à Cintia a foto que ela colocou em seu Facebook.

domingo, 8 de maio de 2011

Nós, mulheres, somos tudo. Até mães.

Eliane F.C.Lima

Neste dia dedicado às mães por uma sociedade capitalista quero relembrar alguns aspectos. Primeiro que, num tempo não tão longínquo, a única felicidade que restava a uma mulher –
seriam felizes mesmo? – era ser mãe, além de esposa extremosa. Na verdade, o título e a homenagem apenas tinham como intenção reforçar os limites domésticos impostos à mulher em seu papel de ser da vida privada. A rua, os negócios, a vida pública, o capital, a liberdade de escolha, enfim, eram prerrogativas masculinas.
Hoje a homenagem às mães se reveste de um outro aspecto: o fato de uma mulher, com todas as atribuições novas que conquistou na vida pública, que agora também é sua – nada distingue a vida de uma mulher da vida de um homem –, exercer as funções da vida privada, como ser mãe, com aptidão, faz da mulher, realmente, um ser excepcional, tenha filhos ou não. Meus parabéns a nós está posto, não apenas por sermos mães, mas, em primeiro lugar, por sermos mulheres e competentes. Aliás, como sempre fomos.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A função da linguagem poética

Eliane F.C.Lima

As considerações que aqui se apresentam têm como objeto as funções poética e emotiva (subjetiva) da linguagem. Ao se falar em funções da linguagem é impossível não se citar o linguista russo Roman Jakobson (1896-1982), do Círculo Linguístico de Moscou, e seu texto Linguística e Poética, compilação de uma conferência de 1956, em que o estudioso comparava a linguagem quotidiana e a linguagem da poesia. Eram estabelecidos ali seis fatores identificados por Jakobson como constituidores do processo comunicativo: o enunciador, o receptor, o código, a mensagem, o contexto (o referente do meio externo), o canal ou meio. Dependendo do enfoque de um desses elementos no ato de linguagem, segundo ele, uma de seis funções predominava sobre as demais, sendo que, seguidamente, se possa reconhecer a presença de várias em um só momento de comunicação. Para maior aprofundamento, remeto ao trabalho do Prof. Dr. Antônio J. S. Brandão (aqui).
Muitas críticas têm sido colocadas atualmente, principalmente depois dos estudos que levaram à Teoria do Discurso e que mostram a complexidade muito maior em jogo em um desses atos. Embora, como se argumenta, não haja apenas um receptor, na maioria das vezes, e um mesmo código utilizado por enunciador/receptor tenha variações imensas, individualmente, imagino que o elemento de partida para as conclusões do linguista sejam sempre o enunciador, o qual prevê sempre um interlocutor ideal, aparadas todas as arestas.
Neste trabalho, serão levadas em conta, especificamente, a função emotiva ou expressiva da linguagem, centrada no emissor/sujeito da mensagem, como tradutora de seus sentimentos e emoções e todos os elementos linguísticos que a revelam em comparação com a função poética (não confundi-la com o conceito popular de poesia como sinônimo de poema), que é o enfoque sobre a mensagem propriamente dita, um trabalho elaborador da mensagem em si e interessado, em primeiro lugar, nela mesma.
A primeira preocupação aqui será salientar que a função poética, na literatura, raramente vem sozinha e, frequentemente, está acompanhada da função emotiva. Através do estudo de dois poemas, de estilos e épocas diferentes, veremos o crescimento óbvio de uma sobre a outra.
Primeiro é preciso dizer que o discurso subjetivo – presença clara do eu enunciador – é o grande traço da função emotiva. Essa presença é evidenciada por pronomes pessoais e possessivos e por verbos na primeira pessoa. Também todos os vocábulos que conotem emoção são um traço desse ego emocionado que se derrama no poema. O estilo de época do Romantismo tem como um dos principais ditames de sua doutrina a presença dominante da função emotiva.

Texto I: Adeus, meus sonhos!

Álvares de Azevedo (poeta do Romantismo - 1831-1852)

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! votei meus pobres dias

À sina doida de um amor sem fruto...
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus?!... morra comigo

A estrela de meus cândidos amores,
Já que não levo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!
(Lira dos vinte anos)


Saliento, no texto, de início, o predomínio da função emotiva gritante em todos os pronomes e verbos em primeira pessoa, destacando-os em negrito, para marcar esse sujeito que não se vexa de se declarar no texto e cuja presença não é poupada. É a si que ele investiga: “amor sem fruto” ou “cândidos amores” são apenas um quase irrelevante motivo para o “dizer-se”.
Atente-se para as expressões – sonhos, triste (mocidade), misérrimo, pobres (dias), (sina) doida, cândidos (amores), (peito) morto, murchas (flores) – que claramente traduzem a emoção conscientemente não contida. É preciso se atentar ainda para o uso reiterado dos pontos de exclamação como recurso para enfatizar a exacerbação de tal emoção.
A função poética, no entanto, está fortemente presente também. É um texto artístico, no qual a função emotiva acontece. As escolhas feitas na elaboração desse discurso, como uma intenção conscientemente artística, caracterizam essa segunda função agora comentada. Vamos aos detalhes:
1.O texto é um poema dividido em três quadras. Cada verso é um decassílabo. A preocupação de se conseguir as dez sílabas foi responsável pela apócope em “E minh’alma na treva agora dorme”. Imagino que essa deva ser uma das causas, ainda, da preferência de “pranteio” (três sílabas) em lugar de “choro” (duas sílabas), além da invulgaridade maior do primeiro em relação ao último termo.
2. A estrutura das estrofes: o primeiro e o terceiro versos, em todas elas não são rimados. A ideia de morte, traduzida em uma palavra com o mesmo radical (morro, morreu – primeira estrofe; morte – segunda estrofe; morra, morto – terceira estrofe), aparece, enfaticamente, em todas as estrofes. Há uma antítese dominante no texto que é “tanta vida que meu peito enchia” X “no meu peito morto”, que resume, praticamente, toda a intenção do texto.

Texto II: A mulher e a casa

João Cabral de Melo Neto

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.
(J. C. M. Neto – Antologia poética – 4. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1978)

O texto modernista de J. Cabral tem especificidades que o tornam bem diferente de um texto romântico, acrescentadas as características do estilo pessoal de tão raro poeta: o controle emocional do discurso, bem entendido, é uma de suas marcas. Então a subjetividade que é o traço fundamental da função emotiva vem aqui quase completamente diluída. Observe-se que os versos “os quais sugerindo ao homem” e “exercem sobre esse homem”, nas duas últimas estrofes, respectivamente, transferem o sentimento de um “eu” enunciador – atente-se para “exercem sobre esse homem/efeito” e “a vontade de” na última estrofe” – para um ser nomeado em terceira pessoa, o que lhe confere uma pretensa objetividade e distanciamento. Porém o “efeito” que exercem, ou seja, “a vontade de”, deixam escapar uma emoção que a custo se contém. “Eu” e “homem” não serão, assim, a mesma pessoa poética?
Examinados, entretanto, todos os adjetivos que vão sendo atribuídos aos diversos aspectos da casa – plácida (elegância); (riso) franco; (estâncias) aconchegadas; (paredes) bem revestidas; (recessos) bons – verifica-se que eles não são simplesmente descritivos, mas carregados de valores afetivos e avaliativos do próprio eu que os enuncia, o que é um claro sintoma do subjetivismo.
Os termos “sedução” e “seduz”, por seu significado, deixam no leitor, igualmente, o entendimento de que há uma relação nada objetiva entre o detentor do discurso poético e a casa enfocada.
Os detalhes acima revelam um “eu” que se pretendia escondido e a função emotiva, finalmente, se mostra, embora sem a relevância do poema de Álvares de Azevedo. Ela se apresenta, como quis o enunciador, em um patamar bem abaixo da função poética.
Pode-se começar a argumentar que o próprio desejo de elaborar um texto artístico contido, sem o extravasamento romântico, já é um dos efeitos da função poética, que tem como intenção dominar os efeitos estéticos no ato criativo.
Os aspectos formais do texto, claramente, revelam ainda tal função: um poema dividido em oito quadras, com versos heptassílabos, sem rimas.
O grande trunfo do poema, que revela de forma cabal a destreza estética, sinal dessa função poética, entretanto, é a metáfora da casa como representação do objeto amoroso. Se à primeira vista a concretude e frieza de uma casa causa um estranhamento e desincentiva a imaginação idealizadora de uma mulher, essa mesma metáfora, vai sendo, aos poucos entendida: contra toda a cultura ocidental, diminui a importância da aparência física da mulher em detrimento do que ela é em seu interior. A estratégia textual é conseguida, principalmente, pela repetição intencional do termo “dentro”, que aparece oito vezes ao longo do poema, em algumas estrofes duas vezes.
É impossível deixar de assinalar a metáfora sensacional de “riso franco de varandas”. Desse modo, percebe-se que a utilização de um recurso poético só depende do engenho da/do poeta. Os modernistas já diziam que qualquer “palavra é palavra poética” e a língua não tem preconceitos dentro de seu léxico, não sendo qualquer vocábulo o filho preferido. É a/o artista que, reunindo-os, faz deles um universo poético.

terça-feira, 8 de março de 2011

"O mundo é masculino"

Eliane F.C.Lima

Embora absolutamente sem tempo, neste 08-03-2011, quero transcrever um e-mail que enviei para a OAB, Minas gerais. Estou até hoje aguardando resposta. Tendo em vista o parecer de um juiz, largamente divulgado pela imprensa, vemos que a data de hoje nada significa: "o mundo é masculino" - disso todos sabemos, ora bolas! - " e assim deve permancer". Tal conclusão a um pedido de socorro feito por uma mulher à justiça é estarrecedor.
A imprensa comentou o fato - vi reportagem na Record -, mas eu esperava que essa mesma imprensa, tão ciosa de seu direito à liberdade, protestasse veementemente sobre o fato. Que nada! Entre uma mulher que sofre violência e o parecer de um juiz, fica melhor não fazer muito barulho e concordar com ele. Será esse o "mundo masculino"?
Para quem não sabe do que se trata, recomendo ler aqui, aqui
e, para espanto de todos, aqui.
Meu e-mail:

"Senhores,
Tenho aguardado, daqui do Rio de Janeiro, um pronunciamento firme da OAB/Minas Gerais, pelo menos - setor "Mulher" ou não -, sobre as declarações do juiz Edilson Rodrigues e sobre a Amagis que lhe saiu em defesa, discriminatórias e que ferem os direitos humanos em geral. Aguardo ainda posição clara sobre a decisão do STF, suspendendo o afastamento.
Ou será que as mulheres não estão incluídas no gênero humano, visto que o "mundo é masculino e assim deve permanecer" no entender daquele juiz? Parece-me que tais declarações não são uma opinião - isso se daria se ele estivesse, por exemplo, dando uma entrevista para um jornal. Tais palavras são a conclusão de um processo movido por uma mulher que estava sendo prejudicada e recorria a uma lei que existe. Não tendo um parecer favorável, ela não só se vê desamparada pela lei e pelos magistrados que deveriam defendê-la, como, em meu entendimento de leiga, estará obrigada a arcar com as custas do processo que moveu. Passou de vítima a ré. Coisas semelhantes acontecem em países de leis radicais em que mulheres estupradas, por exemplo, são mortas por terem perdido a honra. Será que as mulheres agora, no Brasil, serão condenadas a serem apedrejadas também? Esse procedimento estaria incluído no conceito de "mundo masculino"?
O fato de que o "mundo é masculino" é uma constatação que tem fundamento. Ora, exatamente por isso, nossa sociedade deveria estar interessada em mudar e corrigir esse erro. A partir, a princípio, daqueles que são responsáveis por garantir a justiça.
Eu, se fosse do sexo masculino, jamais admitiria que se dissesse que agredir outra pessoa faz parte do "mundo masculino". Isso é pura barbárie.
Se a OAB não fizer nenhum procunciamento sobre o fato, temerei que ou concorda com o ponto de vista do juiz ou toma uma posição corporativista. Deus me livre desse "mundo masculino", então, medieval e bárbaro!
Atenciosamente,
Eliane F.C.Lima"



Peço a quem tenha visto o pronunciamento da OAB/ Minas Gerais que me avise, para que eu fique aliviada e não seja injusta.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

AVISO

Devido à preparação de mudança para o Rio de Janeiro - de volta a meu paraíso! -, durante, pelo menos, este mês, não haverá postagens novas. Agradeço a quem quiser visitar as matérias já editadas. Mas, abaixo, uma quadrinha fevereira.

O retorno

Nascida em fevereiro,
sou
peixe de água doce.Ainda não o fosse,
sou o Rio de Janeiro.
(06-02-2011)

domingo, 23 de janeiro de 2011

A complexidade do simples - Literatura, já.

Nydia Bonetti (Piracaia SP/1958) é engenheira civil e poeta e se dedica, atualmente, ao projeto do seu primeiro livro. Publica seus trabalhos no OVERMUNDO (link) e tem textos publicados na “Revista ZUNÁI” (link), “Germina Literatura” (link), “Cronópios” (link) e outras mídias eletrônicas, segundo suas próprias palavras. Bloga no Longitudes (link), espaço através do qual entrou como seguidora de meu blogue Poema Vivo. Fui até lá para conhecer minha visitante e tive uma das mais gratas surpresas: encontrei uma poeta que eu, imperdoavelmante, ainda não conhecia. Tenho tido, frequentemente, essas surpresas agradáveis nessa Internet. Nesse mundo pós-moderno e louco, felizmente, porém, uma especialista em literatura, como sou, tem a oportunidade de se reciclar quase em tempo real.
Comprovei, mais uma vez, que ser poeta não é profissão, não é atividade, não é passatempo: é destino. O poeta nasce, assim, assinalado. E, mesmo que escolha qualquer profissão outra, não se livra desse sinal, que o seguirá até o fim. O poema abaixo já começa comprovando o que digo.

Solares

Nydia Bonetti

outra vez
me ronda a poesia

agora é assim

quase uma sombra
colada em mim

não

ela é o sol
eu,
a sombra


O material que Nydia Bonetti utiliza, em um primeiro momento, em seu olhar indagativo sobre o mundo, são as coisas comuns e simples que a envolvem externamente. Mas como, internamente, nada é simples e comum, a manufatura que se apresenta aos olhos do leitor é outra, abençoada pela subjetividade e emoção, que se simula equilíbrio e contenção – observar o último verso do poema "Risco". Identifico até um certo tom blasé, o que é conseguido pelo manusear de uma linguagem bastante cotidiana. Engano do leitor se não for bastante observador: no poema que se segue, jogando com a homofonia de “expiar/espiar” – ouso dizer que a maioria das pessoas toma um termo pelo outro, sem diferenciação –, no derradeiro verso, vários significados e atributos podem ser agregados ao termo “cordeiro”:
1.Seres sem ação e defesa, passivos, o que seria conseguido por “espiam” (observar, olhar, esperar, aguardar) – verificar que abutres e lobos percebem algo e se mantém longe -, que, embora não escrito, é trazido para o texto por sua homonímia com o termo presente.
2.Seres que são sempre utilizados para remir a culpa de outrem diante do assustador uivo da vida, o que se depreende do “expiam”, realmente explícito no texto.
3.Mas aquele mesmo “espiam” do item 1 poderia, trazer, paradoxalmente, a ideia de “procurar descobrir, com o fim de fazer danos” (Dicionário Aurélio, versão digital), o que marcaria “cordeiros” com uma malícia insuspeitada e inverteria a dinâmica do que se supõe à primeira vista, ou os tornaria cúmplices latentes daquele perigo ameaçador da vida. Dada a sutileza da grafia do verbo “expiam” – o termo tem uma entrada muito menos frequente na língua popular –, provavelmente os itens 1 e 3 têm uma garantia maior de entendimento, ainda que não fosse essa a intenção verdadeira da escritora ou que ela não suspeitasse do alcance do que disse. A Teoria da Recepção tem batido nessa tecla e, neste mesmo blogue (confira aqui), já fiz alusão a esse aspecto.


Expiação

Nydia Bonetti

I.

serpentes de barro
rios
de silêncio
rouca
a voz das águas
silencia

II.

ouve-se da vida
um uivo
lobos se esquivam
abutres sobrevoam
enquanto
cordeiros expiam


Mas vamos aos textos – preciso confessar que foi uma enorme dificuldade a escolha:

Risco

Nydia Bonetti

o grande risco do poema
é que ele é feito de giz

e não apaga dor

. . .

Nydia Bonetti

e se eu dissesse apenas
do que sei
e sinto

calava


Outro dia

Nydia Bonetti

a tarde dourada no campo de centeio
não diz das chuvas que virão
diz do sol
embora quase noite
diz do pão
embora as mãos vazias
diz de nós
na janela de outro dia
que já passou

Alma

Nydia Bonetti

a alma do mundo grita
no mormaço dos dias rasos
na escuridão
das noites infinitas
no abandono
das dores terminais
no corpo
do homem que habita
desolada
depois de gerações ainda
aprisionada
que da eternidade
a que almeja sabe
tão pouco quase
nada

Meu pé de não sei que

Nydia Bonetti

árvore do cerrado- cresceu comigo
rude e exótica
mas era minha
eu fui embora - ela não quis
ela não tinha pés
eu não tinha raiz

Nódoa

Nydia Bonetti

árvores do quintal da infância
revi vi
sumo nos olhos:
saudade é nódoa que não sai

Choro pitangas

Nydia Bonetti

preciso rir
chuvas e sóis
preciso rir
primaveras
preciso rir
flores se abrindo
perfume beija-flor

porque ainda
é inverno
não posso

me calo em frio
galho seco noite
choro pitangas
lágrima ácida dor
porém brilhante
vermelha doce
lágrima de esperar


Desejo ao visitante que se delicie neste dia de domingo.

Convido o visitante deste blogue a ir a Conto-gotas (por aqui), onde há um novo conto meu e a Poema Vivo (o caminho é esse).

Estou ainda em:
1.
Debates Culturais, onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima (link).
2
.
Recanto das Letras (aqui).
3. Portal Literal (aqui).
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domingo, 9 de janeiro de 2011

Poesia: o paradoxo da linguagem

Eliane F.C.Lima

Tenho usado o interessante livro da Doutora em Ciência da Literatura Maria Antonieta J. O. Borba, Tópicos de teoria para a investigação do discurso literário, de 2004, editado pela 7Letras, como instrumento de consulta em meu trabalho de análise literária. Mas há, pelo menos, nesse livro, uma afirmativa da qual discordo, em relação a um poema de Manuel Bandeira, transcrito após a citação abaixo, afirmativa e poema os quais usarei como tema de minha discussão.
A afirmativa:

No caso dos versos de Bandeira, nada impediria a classificação como língua padrão segundo as normas formalistas, não fosse o espaço em que primeiramente apareceram e o nome que os assina. Em outras palavras, nada impediria que fizessem parte de um contexto pragmático. (BORBA, 2004, p. 37)

O poema

Poema tirado de uma notícia de jornal

Manuel Bandeira

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num
[barracão sem número

Uma noite ele chegou ao bar Vinte de [Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e [morreu afogado
(Libertinagem - 1930)

Devemos observar que os termos “língua padrão”, “normas formalistas”, “contexto pragmático”, usados no texto da especialista para caracterizar o poema de Bandeira, nos sugerem um texto apenas comunicativo, denotativo, preso a uma realidade concreta e extratextual, ao referente externo, em suma, o que é sugerido pela expressão “uma notícia de jornal” do título do texto, essa, se realmente existiu como ponto de partida da criação, sem dúvida, com tais características. Entretanto é preciso se começar a desconfiar do puramente literal, visto que “poema tirado” nos induz a “poema criado a partir de”, ou seja, um elemento linguístico totalmente diferente.
Vamos caminhar pela forma do poema e suas consequências significativas e líricas, cuidadosamente escolhidas e que anulam qualquer suposição de vinculação à denotação de um texto de comunicação.
A primeira estrofe do poema remete a uma notícia e, intencionalmente, repete-lhe certos termos tradicionais, como o “barracão sem número”. E toda ela já traz o leitor para uma situação de pobreza e, talvez, desamparo: um sujeito poético de quem não se cita o nome oficial – um texto de jornal daria esse detalhe fundamental –, sem endereço exato, o que sempre é um parâmetro social e moral.
Essa incerteza social e psicológica, reforçada pelo nome popular daquele ser poético – João Gostoso – , e traduzida no não número da moradia, no entanto, contrasta, para o leitor, com a precisão do nome do bar “Vinte de Novembro”, que inicia a estrofe seguinte, e ressalta a importância de um espaço físico em detrimento de uma individualidade humana.
Observe-se, ainda, que a expressão “uma noite”, começa a anular qualquer ligação possível com a precisão da notícia midiática, que se valeria de termos exatos, tipo “na noite de segunda-feira”, “na noite de 13 de outubro”, por exemplo. As circunstâncias reais são assim esvaziadas em proveito das circunstâncias emocionais, sentimentais, enfim, que levaram João Gostoso ao bar. A realidade concreta é abandonada e, em seu lugar, surge uma realidade interna ao texto, poetizada.
Os três versos seguintes chamam a atenção pela exiguidade do tamanho – uma palavra só para cada um – em contraste com os versos anteriores e o posterior. Colocados um abaixo do outro, esses vocábulos dão um ritmo marcado de tambor, ao mesmo tempo que aceleram a leitura do poema.
Além desse aspecto gritantemente sonoro, há que se atentar para a camada significativa desses verbos: bebeu, cantou, dançou. Juntos, trazem em si um efeito de comemoração. Será essa a intenção do resultado musical introduzido pela sequência dos três versos?
Um sentido inverso, “um resultado de desespero”, um outro leitor poderá identificar, atento ao significado de desejo de alienação psíquica, implícito na palavra “bebeu”, relacionada a “bar”, o que reforçaria a disposição vertical desses três mesmos termos/ações. Será essa, afinal, a sensação sugerida pelo som musical introduzido pela sequência dos três versos, agora de forma contrária? Já não mais festa, mas toque dramaticamente fúnebre de premonição e suspense pelo final? Ou os dois estratos significativos, antagônicos e paradoxais, se superpõem, num movimento de negação e atração?
Essa irresolução em que se acha o leitor – alegria ou desespero – se prolonga no gesto final do sujeito textual. E ela é o grande trunfo desse texto, é sobre ela que está construída sua dimensão lírica.
Não há nada de “normas formalistas” ou “contexto pragmático” nesse texto, negados por aquela indecisão citada acima, que, valendo-se da camada aparentemente “padrão da língua”, subverte-a, dobra-a e a submete ao engenho poético.

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domingo, 12 de dezembro de 2010

Autor, texto e leitor: uma moeda de três faces

Eliane F.C.Lima

O presente artigo pretende discorrer, de forma bastante superficial e resumida, sobre as mudanças que ocorreram na visão da crítica ao abordar um texto literário. Vamos observar que o movimento, a grosso modo, se deslocou do autor, para o texto e, num terceiro momento, mesmo que inicialmente, para o leitor.
Fixam-se, aqui, certos conceitos e termos, utilizados ao longo deste trabalho, e referentes aos três elementos fundamentais na relação crítica/texto artístico:
1.O autor (a produção): elemento extratextual; do contexto; transcendente ao texto, portanto.
2.O texto (poema, romance, conto ou trecho deles): elementos imanentes.
3.O leitor (recepção): elemento extratextual; do contexto; também transcende ao texto.

Crítica focada na produção (1)

Até o fim do século XIX, enfocava-se a pessoa do autor, salientados seus determinantes sociais, históricos, culturais, biográficos, enfim, as conexões que a obra de arte mantém com esse sujeito e sua sociedade, na época da gênese de sua obra. Desse modo, os preceitos analíticos de então investigavam o estrato histórico-social presentes na criação literária – corrente sociológica – ou os vestígios desse ser produtivo extratextual, o autor – corrente psicológica –, como os reflexos de sua alma ou personalidade na matéria textual.
A abordagem literária, então, ficava sob critérios impressionistas, sem o respaldo de fundamentos realmente teóricos, identificando no texto a expressão da vida de seu autor. As avaliações da época são mais morais do que estéticas, carentes de normas metodológicas de análise do discurso literário. Como exemplo, a produção das mulheres, cujos textos eram medidos por sua condição de gênero, social e não pelo valor artístico do texto.
Por volta da Primeira Guerra Mundial, há uma forte mudança do interesse para o texto propriamente dito, mudança que se apresentou sob diferentes movimentos de crítica.

Crítica focada no texto (2)

Estilística

Esse movimento foca seu interesse no texto artístico, entendido como aquele que rompe com a norma linguística – norteadora tão somente da linguagem lógica, comunicativa, do cotidiano –, texto que promove um “desvio” que possibilita uma linguagem expressiva. A Estilística, entretanto, julga que esse “desvio” da linguagem usual ainda é o sinal de uma situação particular autoral, mesmo que parta de uma especificidade imanente à obra.

Formalismo russo

Com o Círculo Linguístico de Moscou (1915-1930), desenvolveram-se os estudos de linguística e poética, do romance e do conto, o que permitiu a fundamentação teórica, metodológica e instrumental de investigação do texto, sem preocupação com o autor, dados históricos ou sociais: a literatura é a arte da palavra e deve ser estudada sob o foco literário.
A inovação desse pensamento é o estudo descritivo e morfológico do texto, ou seja, prendia-se ao estritamente imanente na obra. Enxergaram-na como organização artística, dedicando-se a uma descrição exaustiva de seus elementos componentes, de suas funções, dos processos técnicos manipulados por um escritor ao organizar seu texto. Os formalistas russos influenciaram os estruturalistas de Praga.

Estruturalismo

Reunido no Círculo Linguístico de Praga (1926), o Estruturalismo, embora com divergências internas, dirigia, de uma forma geral, seus estudos, rigorosamente, para a estrutura do texto, concebido como um conjunto dinâmico de relações, cuja totalidade estrutural, objetivo final dos estudos, confere sentido a cada parte, a qual adquire com precisão o seu valor através de sua relação com aquela totalidade específica e não outra. Como se vê, o estruturalismo despreza também qualquer estudo que transcenda o puramente textual.

New Criticism

É um movimento anglo-americano, que, embora se debruçasse preferencialmente sobre o texto, já começava a ter um certo interesse pela figura do leitor, ao identificar uma série de exegeses para um texto. No entanto ainda atribuía valores a essas diversas interpretações, identificando uma como correta e as demais como falsas. Essa visão axiológica de seu objeto acaba se mostrando subjetiva e impressionista.

Desconstrução

Iniciada pelo estudioso francês Derrida, em 1967, a concepção de “desconstrução” teve seu ápice nas décadas de setenta e oitenta. Mas o pensador sempre rejeitou qualquer definição estável do termo.
Desconstruir um texto é não procurar seu sentido, mas percebê-lo como a infinitude que surge de seu próprio jogo, entendendo-se que muitos textos artísticos ultrapassam os limites de representação.
A desconstrução enfatiza que textos literários apresentam contradições internas, asserções disfarçadas ou não articuladas e que não garantem nenhuma certeza , podendo significar muitas coisas diferentes ou nenhuma em especial. Por sua própria natureza de jogo linguístico artístico, no texto literário não haveria prevalência de um sentido sobre outros, ficando a intenção do autor sempre dissolvida nessa dinâmica lúdica.

Crítica focada no leitor (3)

A Teoria ou Estética da recepção

Tal teoria traz de volta, embora por motivos diferentes dos anteriores ao século XX, aspectos transcendentes ao texto, ao introduzir, na investigação literária, o papel fundamental do leitor como recriador do texto e todas as condições históricas, culturais e sociais mobilizadas por ele em sua leitura/interpretação. A pesquisa se interessa pelas várias interpretações receptivas que um texto teve ao longo de sua vida literária, conjunto que lhe iria atribuindo, assim, os significados.
Num primeiro momento, década de 60, o movimento, radicalmente, ignora a atuação do autor, a produção do texto, para atribuir somente ao leitor e ao seu horizonte de expectativas – à recepção – a importância maior, em seu papel de realizar o sentido do texto. Por motivos diversos do da “Desconstrução”, também nega uma significação única, aspirando ao entendimento da diferença das variadas exegeses de um texto de diferentes leitores.
Posteriormente, os analistas perceberam que havia, evidentemente, também um significado textual intencionado pelo produtor do texto, o primeiro a ser constituído na lista dos sentidos instituídos depois por seus leitores, que não podia ser ignorado, fundamental em relação às inúmeras interpretações e no estabelecimento dos significados da obra.
Como crítica literária contemporânea, acredito firmemente que, se o texto é o instrumental maior e mais seguro a ser focalizado para o descobrimento de todas as exegeses possíveis, os dados extratextuais disponíveis – a biografia do autor, suas circunstâncias históricas e as diversas interpretações feitas através dos tempos ou por variados leitores/críticos coevos – podem e devem ser mobilizados também para a realização segura dessa prazerosa tarefa.

Bibliografia

BORBA, Maria Antonieta. J. O. de, Tópicos de Teoria para a investigação do discurso literário. Rio de Janeiro:7Letras, 2004.
BRASIL, Assis. Vocabulário Técnico de Literatura. Rio de Janeiro: Tecnoprint Ltda/Edições de Ouro, 1979.
JAUSS, H.R... et al.; A literatura e o leitor. (coord. e trad.: Luís Costa Lima). 2 ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
SILVA, Vítor Manuel de A. e. Teoria da Literatura, 3 ed., Coimbra: Livraria Almedina, 1979.

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domingo, 5 de dezembro de 2010

Adiamento

A postagem que estava prevista para hoje deverá entrar no meio da semana. Estou em processo de compra de apartamento no Rio, o que tem demandado muito tempo, impossibilitando a atenção que minhas pesquisas exigem e meus leitores merecem.
Eliane F.C.Lima

sábado, 20 de novembro de 2010

Júlia Cortines Laxe: poeta e mulher - Literatura de ontem 16

Eliane F.C.Lima

Nascida em Rio Bonito, fluminense, portanto, como Narcisa Amália (para ver a postagem sobre ela clique aqui),
JÚLIA CORTINES LAXE (1868-1948) não teve o mesmo reconhecimento posterior da outra, que ainda logrou ter seu nome citado em, pelo menos, duas antologias – em outras antologias há listas enormes de escritores do sexo masculino. Essa invisibilidade acontecia, seguramente, pelo preconceito de então, visto que o crítico literário, José Veríssimo, após a publicação de seu segundo livro, em 1905, tenha declarado que "Os poemas de Júlia Cortines distanciam-se magnificamente da poesia de água-de-cheiro e de pó-de-arroz da musa feminina brasileira, e revelam em Júlia, mais que uma mulher que sabe sentir, alguém que sente com alma e coração e de forma que disputa primazias com nossos melhores poetas contemporâneos." (o texto do crítico está em O Site de Rio Bonito, de onde também foi copiada a foto – ver aqui). A crítica literária da época, na mão e na voz dos representantes de uma cultura patriarcal, caracterizam o produto poético feminino brasileiro, como se vê, pela confusão com sua autoria, minimizando tanto um quanto outra e, comparando-os sempre, com o elemento masculino. O erro principal de Veríssimo – nisso não foge muito da crítica atual, como se vê em minha postagem “O novo tom das narrativas de mulheres” (clique aqui) – é colocar toda a produção de mulheres em um saco só, como se todas fossem uma. Sua poesia é carregada e vibrante, como se pode ver no poema “Fracos”.
Poeta parnasiana, como Francisca Júlia, Júlia Laxe também colaborou em revistas como A semana e A Mensageira, da paulista Presciliana Duarte de Almeida, lançada em 19 de outubro de 1897, que se tornou um dos principais espaços da mulher escritora do final de século XIX/início de XX e onde também escreveram a citada Narcisa Amália, Anália Franco, Júlia Lopes de Almeida, Francisca Júlia (link para minha postagem), Auta de Souza (confira a postagem), nomes igualmente de peso na época. (Informação in Revistas em revista: imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922)) de Ana Luiza Martins – Fapesp – Edusp – pág. 374-375)


Obras

Versos (1894) e Vibrações (1905), a respeito do qual, José Veríssimo fez os elogios.

Interrogação

Júlia Cortines

Contemplo a noite: a cúpula estrelada
do firmamento sobre mim palpita;
meu olhar, que a interroga, embalde fita
o olhar dos astros, que não veem nada:

“Nessa amplitude lôbrega e infinita
que inteligência ou força inominada
numa elipse traçou a vossa estrada,
estrelas de ouro, que o mistério habita?

Dizei-me se, transpondo a imensidade,
alguma cousa a vós minha alma prende,
um vínculo de amor ou de verdade.

Dizei-me, o fim da nossa vida agora:
para que serve a luz que em vós resplende,
e a oculta mágoa que em meu seio mora?...”


O lago

Júlia Cortines

Um pouco d'água só e, ao fundo, areia ou lama,
Um pouco d'água em que, no entanto, se retrata
O pássaro que o voo aos ares arrebata,
E o rubro e infindo céu do crepúsculo em chama.

Água que se transmuda em reluzente prata
Quando do bosque em flor, que as brisas embalsama,
A lua, como uma áurea e finíssima trama,
Pelos ombros da noite a sua luz desata.

Poeta, como esse lago adormecido e mudo
Onde não há, sequer, um frêmito de vida,
Onde tudo é ilusório, e passageiro é tudo,

Existem, sobre um fundo, ou de lama ou de areia,
Almas em que tu vês, apenas, refletida
A tua alma, onde o sonho astros de ouro semeia!


Última página

Júlia Cortines

Antes de mergulhar no silêncio da morte,
Ou da idade sentir a fraqueza e o torpor,
Eu quisera lançar, num supremo transporte,
Meu grito de revolta e meu grito de horror.

Mas sei que por mais forre e por mais estridente
Que ela corra através do infinito, até vós,
Ó céus, que além brilhais numa paz inclemente,
Nem qual brando rumor chegará minha voz!

Mas sei que não há dor que a natureza vença,
E que nunca a fará de leve estremecer
Na sua eternidade e sua indiferença
O lamento que vem dum transitório ser.

Mas sei que sobre a face execrável da terra,
Onde cada alma sente, em torno, a solidão,
Esse grito, que a dor duma existência encerra,
Não irá ressoar em nenhum coração.

Contudo, num clamor de suprema energia,
Eu quisera lançar minha voz! Mas a quem
Enviar esse brado imenso de agonia,
Se para o compreender não existe ninguém?!



Fracos

Júlia Cortines

Fracos, odeio a inércia e detesto a fraqueza.
Prefiro a mão que esmaga ou que vibra o punhal
À doce e inconsciente e nefasta moleza,
Que é para a alma do forte um veneno mortal.

Como de encontro à costa, em ondas remansadas
Chora o mar, ou se atira em bravos vagalhões,
Assim de encontro a vós, almas adormentadas,
Fremem de ódio e de amor os nossos corações.

Almas fracas, fugindo à aspereza das lides,
Sem um esforço para às correntes opor,
Pelo rio do tempo arrebatadas ides,
Desta ou daquela vaga a boiar ao sabor.

Que vos importa a vós a agonia da luta,
A ânsia de possuir, o infinito aspirar?
Que vos importa a vós a decepção que enluta,
Se não sabeis querer, nem sabeis adorar?!


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sábado, 6 de novembro de 2010

Vários olhares sobre a velhice - Palavras sobre palavras 22

Eliane F.C.Lima

Na atual postagem, o tema recorrente é a velhice. Os textos escolhidos são de poetas contemporâneas, com as quais já trabalhei. E, de início, pelas pistas que cada um fornece, se podem reconhecer as diferentes fases da vida em que cada ser poético está, o que lhes propicia uma avaliação divergente diante desse momento da vida.


Poema I: Martha Medeiros

envelhecer, quem sabe
não seja assim tão desastroso
me interessa perder esta ansiedade
me atrai ser atraente mais tarde
um pouco mais de idade, que importa
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão só


O eu lírico do texto de Martha Medeiros não está na velhice ainda – “envelhecer, quem sabe...” – e, por isso, mantém uma expectativa positiva, ou, pelo menos, o benefício da dúvida, embora o leitor conclua que o conceito que faz daquela fase, recebido do senso comum, seja preocupante: “assim tão desastroso” ou “assim tão só”. Sua visão, então, se faz sobre um período que não é o seu.
Mas, se analisarmos o “um pouco mais de idade”, veremos que a concessão feita não vai muito longe, porque estabelece limites.
Outro fator interessante a ser apreciado é o termo “envelhecer”, que, quer se queira ou não, é o início de um processo, não o processo completo. Ainda aqui o leitor pode detetar uma demarcação nessa expectativa positiva, como foi salientado anteriormente.

Poema II: Bicho-de-sete-cabeças

Astrid Cabral

À medida que envelheço
as sete cabeças do bicho
corto. Enfim o reconheço
íntimo de mim, meu próximo.

À medida que envelheço
conquisto-lhe o segredo.
Vejo a morte iniciação
à viagem pelo avesso.

À medida que envelheço
digo: o bicho é meu amigo.
Não, não há porque maldar
envenenando o sossego.

À medida que envelheço
sinto-me remanescente
num deserto onde tropeço
por entre sombras de ausentes.

À medida que envelheço
aprendo a perder o medo.
Todo bicho fica meigo.
É só botar no colo.


O segundo eu enunciador parece já estar no meio do estado enfocado – “À medida que envelheço” –, embora haja, ainda, a ideia de “processo” – o termo significa sucessivos estados de mudança
, o que revela uma situação não definitiva.
O “tão desastroso” do poema de Martha, também sob a opinião do senso comum, vem traduzido, em Astrid, na metáfora do “bicho” e suas “sete cabeças”.
Esse eu textual, entretanto, ainda, mantém uma visão confiante nessa fase da vida: “aprendo a perder o medo”. Um exame mais cuidadoso, porém, identifica que esse sujeito, apesar do “À medida que envelheço”, continua a manter, como o do texto que o antecede, um distanciamento da velhice, vendo-a, por intermédio de sua metáfora, como “um outro” ainda apartado de si: “Enfim o reconheço/íntimo de mim, meu próximo”; “o bicho é meu amigo”; “Todo bicho fica meigo./É só botar no colo.” Pode-se supor que a visão suavizada possa vir, exatamente, desse sentimento de alteridade.

Poema III: Pedido de adoção

Adélia Prado

Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
– não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.



O último eu poético já assume inteiramente a velhice. Aqui não há processo, mas o ciclo completado. A tal ponto, que a ideia de uma mãe idosa se impõe ao reconhecer sua própria figura. Diante do “Mas esta velha sou eu,/minha mãe morreu moça,”, somos, imediatamente, remetidos para os versos de Helena Kolody (ver postagem minha anterior, aqui): A morte desgoverna a vida./Hoje sou mais velha/que meu pai. E a sensação de abandono da velhice – aqui a gente reconhece o “assim tão só” do primeiro poema – vem envolta na “muita saudade/ de ter mãe”, na orfandade, clara no último verso. O sentimento do derradeiro texto é bem diverso dos anteriores e o tema da velhice é inteiramente o tema desse eu lírico. Para o sujeito do poema de Adélia Prado o “bicho” não é amigo, nem ficou meigo. Quem necessita de colo, como as crianças – que é da mãe, tão perfeita para essa função? – é aquela que se reconhece “tão velha”, atadas, deste modo, em sua necessidade de proteção, as duas pontas da vida.


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