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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A emoção transbordante de uma musa impassível da literatura - Literatura de ontem 9

Francisca Júlia da Silva (1871-1920) era uma escritora paulista, de índole poética parnasiana, cujo nome, em suas primeiras publicações, foi entendido, segundo o preconceito da época, como um pseudônimo de autor masculino, como já ocorrera com Narcisa Amália, escritora romântica. Negava-se que uma mulher pudesse fazer literatura e bem. João Ribeiro, que mais tarde prefaciou sua primeira obra, de tanto que passou a admirá-la – Mármores –, assumiu para si um pseudônimo também e começou a criticar as obras publicadas, convencido de que eram de Raimundo Correia.
A escritora fez um enorme sucesso de público, chegando a ser comparada à tríade masculina parnasiana que dominava a cena literária da época – Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira –, o que, se conclui, era um feito e tanto. O próprio Bilac teceu elogios a ela.
Teve tanto prestigio que, ao morrer, recebeu em sua tumba uma estátua feita por Vítor Brecheret, o famoso escultor modernista, a Musa Impassível, nome que remetia a um de seus sonetos mais famosos. Por sua beleza, a estátua que foi redescoberta em 1992, foi substituída por uma de bronze e a original foi levada para a Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 13-12-2006, para ser visitada pelo público.

Foto 1
Foto 2












Foto 1: Musa impassível - Vítor Brecheret - Estátua original transplantada.
Foto 2: Estátua de bronze, agora, no túmulo (Fonte, site do escultor Vítor Brecheret - clique aqui).

Embora seja afiliada ao Parnasianismo (conferir características no poema Musa Impassível I), que pretendia a perfeição da forma e a contenção das emoções na criação – daí o “musa impassível” –, o que de início já contraria o fazer poético, em suas últimas obras vislumbram-se características do Simbolismo, principalmente no sentimento místico.
Mas a biografia da poeta continua atraente, pois sua morte remete para um romantismo explícito, feição da escola literária anterior à sua prática literária: tendo seu marido, por quem era apaixonada, morrido no dia 31 de outubro, de tuberculose, a escritora, após o velório, toma uma dose grande de calmantes e morre no início do dia seguinte.
OBRAS : 1895 - Mármores; 1899 - Livro da Infância; 1903 - Esfinges; 1908 - A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso); 1912 - Alma Infantil (com Júlio César da Silva, poeta e irmão); 1921 - Esfinges - 2a ed. (ampliada); 1962 - Poesias (organizadas por Péricles Eugênio da Silva Ramos).

Musa impassível I

Francisca Júlia
Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho, e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma angüiforme de Dante;
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

Mármores (1895) - Remeto ao interessante site da USP, Brasiliana, onde se encontra a reprodução desta obra da época, clicando aqui.

No poema abaixo, é interessante notar a feminilização de uma personagem mitológica quase sempre apresentada no sexo oposto.

Dança de centauras

Francisca Júlia

Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,
Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,
Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças
Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.
A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;
Mil centauras a rir, em lutas e torneios,
Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios
De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga...
A dança hípica pára e logo atroa o espaço
O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,
Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço
Pendente a clava argiva, Hércules aparece...

No último poema postado, já se percebe a preocupação mística e, além da pretensa frieza parnasiana, a emoção vindo à tona.

À Santa Teresa

Francisca Júlia

Reza de manso... Toda de roxo,
A vista no teto presa,
Como que imita a tristeza
Daquele círio tremulo e frouxo...

E assim, mostrando todo o desgosto
Que sobre sua alma pesa,
Ela reza, reza, reza,
As mãos erguidas, pálido o rosto...

O rosto pálido, as mãos erguidas,
O olhar choroso e profundo...
Parece estar no Outro-Mundo
De outros mistérios e de outras vidas.

Implora a Cristo, seu Casto Esposo,
Numa prece ou num transporte,
O termo final da Morte,
Para descanso, para repouso...
(...)

Reza de manso, reza de manso,
Implorando ao Casto Esposo
A morte, para repouso,
Para sossego, para descanso

D'alma e do corpo que se consomem,
Num desânimo profundo,
Ante as misérias do Mundo,
Ante as misérias tão baixas do Homem !

Quanta tristeza, quanto desgosto,
Mostra na alma aberta e franca,
Quando fica, branca, branca,
As mãos erguidas, pálido o rosto...

O rosto pálido, as mãos erguidas,
O olhar choroso e profundo,
Parece estar no Outro-Mundo
De outros mistérios e de outras vidas...


2 comentários:

Mário disse...

Eliane
Belissimos poemas, não conhecia esta poetiza.

Beijinhos

Sonhadora

ju rigoni disse...

Eliane, imagine só ser mulher - e poeta! - àquele tempo!... Por a nu a alma, "bocas livres dos freios", quando (já) mil das suas centauras (metade mulher, onde se localiza o cérebro; metade cavalo, um signo muito masculino) não podiam com um Hércules... Uia! (mas esta é só uma daquelas minhas leituras subversivas rsrs)

Essa musa jamais conheceu passividade... Conhecia a "arte da guerra" como poucos. À época, a chance de qualquer mulher inteligente ir à frente estava em começar com dois passos para trás...

E não é que ela matou-se!

Eliana, à parte meu olhar caolho, adorei a chance de conhecer um pouco a Francisca.

Bjs e inté!