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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A viagem lírica de Ju Rigoni - Literatura, já / Palavras sobre palavras 10

Ao produzir seus textos, quem faz poesia liga-se à sua época. Mas, nessa estrada que pertence a uma coletividade e a um determinado tempo, vai deixando suas pegadas, marcas indeléveis. E tais sinais são como impressões digitais, pistas pessoais: só seus. Reveladores. De posse do material cultural a que tem acesso, do qual destaca-se a língua para o escritor, vai tecendo suas tramas literárias individuais, seu rastro poético, que marcará e enriquecerá o material cultural inicial.
Hoje apresento Ju Rigoni, poeta e responsável pelo espaço poético denominado Fundo de Mim II (clique aqui e vá até lá para ver tudo), além de mais outros, ali indicados, inclusive o Fundo de Mim, de onde são tirados os dois últimos textos. Posto seus poemas, prova inconteste de que a cultura literária da humanidade está viva, e faço rápidos comentários sobre suas singularidades, no primeiro.

Da viagem e seus extravios...

Ju Rigoni

Fosse adeus ou até logo,
toda partida era aborto.

E parto...
Eu, dando à luz a louca
que me delicia
e mata...

Eu, a janela,...
a porta,...
o porto...
A curiosidade
que transmuda...

Em toda partida
morri um pouco...

Afogada nos sorrisos
banhados em lágrimas,
apartei e apertei corações,
atei e desatei laços...
Toda partida me repartia
em desiguais pedaços,
houvesse, ou não,
a estação,
os beijos,
os abraços...

Partia
e me repartia
na saudade
que me consumia...
antes mesmo
do tempo de sentir
saudade.

Partia e partia-me
no repartir sacrifícios...
Sem avaliar
princípios ou fins,
dividia-me
entre o fim e o princípio...

Misturava tintas
de cores pálidas
sem qualquer talento
para combiná-las...
Transparecia...

Eu e minhas artes...

Bicho-carpinteiro,
praga,
tentando entalhar a vida...
Madeira-de-dar-em-doido...

Partia
para renascer,
preparar-me,
e partir, de novo...

E às vezes penso
que partia e parto
porque, ainda que haja dor,
partir nunca foi o último,
e, sim, o primeiro ato, -
do espetáculo que desafia.

Entre partidas
e chegadas,
desenho cenários,
ensaio,
leio e releio
o texto que não se decora.

E vou indo,...
indo,
indo,...
cultivando infinitos
no meu minifúndio,
aprendendo o mel
e o fel
deste meu hemisfério,
e assim, - quem sabe? -,
desvendando o mistério
que me habita...

Cedo ou tarde,
(tomara, bem mais tarde)
a indesejada linha de chegada...
que é partida,
e que não se reparte.

O inevitável eu
comigo...

Vou chamar a atenção para alguns aspectos que a língua possui e que o escritor pode usar com sabedoria e engenho.
Se o verbo “parto” no presente, no terceiro verso, não suscitaria no leitor a dúvida da homonínia – identidade fonética e/ou gráfica entre palavras de significado e origem distintos –, ligado, que está à idéia de partida na estrofe anterior, a culminância dessa mesma estrofe na palavra “aborto” – partida como interrupção de um processo – cria uma armadilha poética: esse novo vocábulo, a par de resumir as idéias da estância primeira, traz para a segunda a presença do homônimo “parto” substantivo”, o eu lírico reforçando a dúvida, provocativamente, com seu “Eu, dando à luz a louca/que me delicia/ e mata... “ e retomado bem à frente com “... e parto/porque, ainda que haja dor,... “; o leitor, preso em um jogo, o qual revela e esconde, esconde e revela...
Mas a criação artística não tem nenhum compromisso com a clareza ou com a precisão, somente o de provocar no texto as várias possibilidades. É justamente essa imprecisão significativa que faz a poesia ser poesia. O poeta coloca todas as alternativas; o leitor segue aquelas que lhe convém ou é capaz de vislumbrar.
No entanto isso não é apenas um jogo de palavras, malabarismos verbais: promove a pluripotencialidade dos significados dos vários termos mobilizados. E, se a agulha dessa bússola oscila, traz para o texto a gama completa das longitudes e latitudes significativas intercorrentes. Esse é o jogo: diz-se muito, diz-se pouco, diz-se nada, diz-se tudo.
Outro aspecto bastante vigoroso em poesia, e de que a poeta se vale, é a paronímia – palavras que têm som semelhante ao de outras, mas que independem significativamente. Em “...apartei e apertei corações,...”, a utilização lúdica tem um efeito especial: se as duas palavras se entrelaçam fonicamente, no campo do significado, contudo, elas acabam criando uma oposição, embora respeitadas suas especificidades.
Seria um pecado, entretanto, não chamar a atenção para os versos “... cultivando infinitos/ no meu minifúndio,...” e não atentar para o apelo sonoro da repetição de fonemas vocálicos de articulação próxima como /i/ e /u/ e consonânticos como /v/ e /f/, de um lado, e /m/ e /n/, de outro: será intencional? Será coincidência? Será pura intuição poética? De qualquer maneira, a beleza lírica dos dois versos, conseguida com o estranhamento do emprego do verbo “cultivar” para “infinitos” e do paradoxo que existe na ligação entre o último termo e “minifúndio”, vai muito além de seu efeito sonoro: trazer o infinito para dentro de si ou transformar seu interior em um infinito.
A língua tem virtualidades, que estão esperando para serem convocadas por qualquer usuário. O poeta, que sempre pressente isso, pleno de licenciosidade, libertário e libertino, abusa da língua, desvenda-lhe as entranhas, desnuda-a para sua plena satisfação. Dele e do leitor, cúmplice reincidente.
Para quem deseja mais de Ju Rigone, posto outros dois poemas e deixo-os aos cuidados do leitor, sua pura fruição.

Ponto de Interrogação

Ju Rigoni

Este nariz virgulado,
esta boca entre parênteses,
e… aqui!,
entre as sobrancelhas,
dois pontos de exclamação.
No pescoço travessões -,
um para cada frase.
E com quantas reticências
o sol premiou esta face!
Há pontuação: há palavras, -
há erros e acertos há,
que este rosto é pedra bruta,
não conhece perfeição.
As memórias são tantas…
Nele perdeu-se a própria saga.
Mas ainda há vagas
para angústias de todo trato, -
hífens, asteriscos, aspas…
Destacando consoantes
há vogais
no acentuado semblante,
- grave,
cincunflexo til,
agudo trema,
crase…
E à violência de um ponto
que deveria ser final,
uma sucessão de parágrafos…

(O rosto bem junto ao espelho,
e ainda assim não me vejo,
quem é esta que me olha
como quem está de partida?
Quem sou eu?,
é a pergunta
que me segue pela vida…)


Bem-Me-Vi

o espírito encharcado…
A chuva cai com força
aqui, dentro de mim;
aqui, onde não me conheço;
aqui, onde tudo é segredo…
Mas, lá fora, o vento é brando,
e esta manhã tão azul
não combina com meu pranto.
Tento me abandonar,
sair de dentro de mim,
e caminho devagar,
bem devagarzinho,
para não espantar
esse passarinho
que parece fazer ninho
na árvore que eu plantei.
“Bem-te-vi”, ele revela.
Bem-me-viu esse amiguinho
que decide ser vizinho
num momento tão difícil…
Sento-me ao chão da varanda
olhando para o jardim
e pra esse bichinho tão frágil,
de corpo tão delicado,
de canto tão encantado,
que quase me rouba um sorriso!
Meu Deus! Como posso eu,
em meio à tamanha tristeza,
vislumbrar suavidade,
descobrir tanta beleza?…
Como ouso render-me
ao hiato inevitável
que ao meu pai aponta o chão
e a mim a minha árvore
plena de vida com asas?…
Tudo que me consome,
tudo que me corrói,
em beleza ou fúria,
sabe de cor a natureza.
Eu só sei do mistério.
Eu só sei do que eu não sei…
E eu não sei do nunca mais.
Este céu,
este gorjeio,
as ondas quebrando mansinho,
sem parar,
sem parar,
sem parar…
De janeiro a dezembro
aquele novembro que, eu sei!, voltará…
Pé-ante-pé… Levezinho,
como as folhas dançam na brisa.
A saudade é passarinho
fazendo ninho
na minha ibirapitanga…
(Para Amyl, meu pai. 1913-2001)




7 comentários:

ju rigoni disse...

Eliane,

muito obrigada! É só o que consigo dizer, porque você me deixou sem palavras...

Obrigada, obrigada, obrigada! Bjs e inté!

Lobodomar disse...

Eliane, boa tarde. E parabéns... pela escolha da poesia e pela belíssima análise.

E se a Ju, por timidez, falou pouco aqui, peço licença para escrever um complemento acerca dessa escritora.

De minha parte, sou duplamente sortudo, pois sou fã e amigo de Ju Rigoni. Não por acaso. Mas porque sua literatura me conquistou já na primeira leitura. Não sei se foi seu estilo inconfundível; sua habilidade em manusear palavras, muito além dos jogos fonéticos; ou seu profundo conhecimento da linguagem regional. Deve ser tudo isso... e muito mais.

Ju Rigoni conhece as palavras e todas as suas peculiaridades. Nada que ela escreve é coincidência. Dona de imensa humildade, certamente me desmentirá. Dirá que é o acaso. No entanto, acompanho – de perto – a poesia, a crônica e os contos dessa escritora, cuja originalidade e beleza da obra constituem o mais grato presente que a web já me proporcionou.

Eliane, quando, em sua análise, você destaca os versos “...cultivando infinitos / no meu minifúndio,...”, tenha a certeza de tudo isso foi proposital. A literatura de Ju Rigoni é engajada com as lutas do lugar onde nasceu. Assim, ela apenas trouxe para o plano individual a questão maior da terra e das lides agrárias, comuns nesse país, especialmente no Nordeste. Tenho notado que, por trás da ‘primeira leitura’, Ju Rigoni quase sempre insere temáticas sociais que correm paralelas à interpretação superficial.

Adorei ler essa postagem, que me ajudou a entender um pouco mais essa admirável obra. Ju Rigoni estava mesmo merecendo uma apreciação desse nível, porque sua obra, embora não publicada comercialmente, nada deve aos ditos ‘escritores profissionais’. Há que se ressaltar, ainda, que a obra de Ju Rigoni, além de vasta em quantidade e diversificada em estilos, é consistente em termos de qualidade. Devo já ter lido pelo menos uns cem textos, todos muitíssimo bem escritos.

Parabéns a Ju Rigoni; parabéns a você, Eliane. Agora vou estar aqui também, vez por outra, para aprender mais.

Grande abraço!
.
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Sonia Schmorantz disse...

Linda esta postagem, lindos poemas mostrados aqui. Parabéns às duas!
beijo, ótimo fim de semana

Alexandre disse...

Excelente blog Eliana. Gosto muito de literatura apesar de não ser minha formação. Estou pensando em publicar um livro só para ter meus escritos encadernado.
Continue sempre com esse belo trabalho.
Vou passar nos seus outros blogs.

L. Rafael Nolli disse...

Que análise precisa, reveladora dos meandros da arte poética, generosa ao indicar ao leitor as jóias escondidas nos cantos do poema, nos detalhes. Posso afirmar que não há nenhum outro espaço nessa imensa rede com um trabalho de valorização e critica como esse. É de admirar. Parabéns, as duas!

Tais Luso disse...

Oi, Eliane, falar da poesia de Ju é falar numa poesia que cativa, que emociona e que nos faz pensar; é uma mistura, um retrato de nossa sociedade como ela é, como se posta e como se comporta. Fala do ser humano, com seus devaneios, seus sonhos, sua postura, suas quedas e seus vôos. Não vejo em sua poesia nada que não seja forte, instigador. Vejo-a como vejo uma obra abstrata, que por vários caminhos posso descobrir tanto a beleza da mistura das cores como traços angustiados ou como, até quem sabe, mais no fundo, encoberto por várias cores, um grito de socorro. Acho que tanto na pintura como na poesia deve haver, e há, uma livre interpretação, já que nada é muito claro, se fosse não seria poesia.

Anotei isto:

‘Mas a criação artística não tem nenhum compromisso com a clareza ou com a precisão, somente o de provocar no texto as várias possibilidades. É justamente essa imprecisão significativa que faz a poesia ser poesia. O poeta coloca todas as alternativas; o leitor segue aquelas que lhe convém ou é capaz de vislumbrar’.

Beijos a Ju. Estou tendo o prazer de conhecê-la um pouquinho, conhecer sua alma, seus pensamentos que clamam sempre pela liberdade de se expressar.
E a você meus parabéns por esta postagem tão bela.
Tais Luso

Paula: pesponteando disse...

Eliane, Gostei muito da análise. Já conhecia os textos da Ju. Já tinha observado, pensado, mas ainda não sob o olhar de outra pessoa. É incrível como cada leitura no brinda com algo novo. Em em cada acréscimo uma nova reviravolta em nossos olhares, antes precisos, mas sempre passível de ser repensado. Coisa da literatura...

Sobre o texto de alencar em meu blog, coloquei a fonte.

bjs