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domingo, 12 de dezembro de 2010

Autor, texto e leitor: uma moeda de três faces

Eliane F.C.Lima

O presente artigo pretende discorrer, de forma bastante superficial e resumida, sobre as mudanças que ocorreram na visão da crítica ao abordar um texto literário. Vamos observar que o movimento, a grosso modo, se deslocou do autor, para o texto e, num terceiro momento, mesmo que inicialmente, para o leitor.
Fixam-se, aqui, certos conceitos e termos, utilizados ao longo deste trabalho, e referentes aos três elementos fundamentais na relação crítica/texto artístico:
1.O autor (a produção): elemento extratextual; do contexto; transcendente ao texto, portanto.
2.O texto (poema, romance, conto ou trecho deles): elementos imanentes.
3.O leitor (recepção): elemento extratextual; do contexto; também transcende ao texto.

Crítica focada na produção (1)

Até o fim do século XIX, enfocava-se a pessoa do autor, salientados seus determinantes sociais, históricos, culturais, biográficos, enfim, as conexões que a obra de arte mantém com esse sujeito e sua sociedade, na época da gênese de sua obra. Desse modo, os preceitos analíticos de então investigavam o estrato histórico-social presentes na criação literária – corrente sociológica – ou os vestígios desse ser produtivo extratextual, o autor – corrente psicológica –, como os reflexos de sua alma ou personalidade na matéria textual.
A abordagem literária, então, ficava sob critérios impressionistas, sem o respaldo de fundamentos realmente teóricos, identificando no texto a expressão da vida de seu autor. As avaliações da época são mais morais do que estéticas, carentes de normas metodológicas de análise do discurso literário. Como exemplo, a produção das mulheres, cujos textos eram medidos por sua condição de gênero, social e não pelo valor artístico do texto.
Por volta da Primeira Guerra Mundial, há uma forte mudança do interesse para o texto propriamente dito, mudança que se apresentou sob diferentes movimentos de crítica.

Crítica focada no texto (2)

Estilística

Esse movimento foca seu interesse no texto artístico, entendido como aquele que rompe com a norma linguística – norteadora tão somente da linguagem lógica, comunicativa, do cotidiano –, texto que promove um “desvio” que possibilita uma linguagem expressiva. A Estilística, entretanto, julga que esse “desvio” da linguagem usual ainda é o sinal de uma situação particular autoral, mesmo que parta de uma especificidade imanente à obra.

Formalismo russo

Com o Círculo Linguístico de Moscou (1915-1930), desenvolveram-se os estudos de linguística e poética, do romance e do conto, o que permitiu a fundamentação teórica, metodológica e instrumental de investigação do texto, sem preocupação com o autor, dados históricos ou sociais: a literatura é a arte da palavra e deve ser estudada sob o foco literário.
A inovação desse pensamento é o estudo descritivo e morfológico do texto, ou seja, prendia-se ao estritamente imanente na obra. Enxergaram-na como organização artística, dedicando-se a uma descrição exaustiva de seus elementos componentes, de suas funções, dos processos técnicos manipulados por um escritor ao organizar seu texto. Os formalistas russos influenciaram os estruturalistas de Praga.

Estruturalismo

Reunido no Círculo Linguístico de Praga (1926), o Estruturalismo, embora com divergências internas, dirigia, de uma forma geral, seus estudos, rigorosamente, para a estrutura do texto, concebido como um conjunto dinâmico de relações, cuja totalidade estrutural, objetivo final dos estudos, confere sentido a cada parte, a qual adquire com precisão o seu valor através de sua relação com aquela totalidade específica e não outra. Como se vê, o estruturalismo despreza também qualquer estudo que transcenda o puramente textual.

New Criticism

É um movimento anglo-americano, que, embora se debruçasse preferencialmente sobre o texto, já começava a ter um certo interesse pela figura do leitor, ao identificar uma série de exegeses para um texto. No entanto ainda atribuía valores a essas diversas interpretações, identificando uma como correta e as demais como falsas. Essa visão axiológica de seu objeto acaba se mostrando subjetiva e impressionista.

Desconstrução

Iniciada pelo estudioso francês Derrida, em 1967, a concepção de “desconstrução” teve seu ápice nas décadas de setenta e oitenta. Mas o pensador sempre rejeitou qualquer definição estável do termo.
Desconstruir um texto é não procurar seu sentido, mas percebê-lo como a infinitude que surge de seu próprio jogo, entendendo-se que muitos textos artísticos ultrapassam os limites de representação.
A desconstrução enfatiza que textos literários apresentam contradições internas, asserções disfarçadas ou não articuladas e que não garantem nenhuma certeza , podendo significar muitas coisas diferentes ou nenhuma em especial. Por sua própria natureza de jogo linguístico artístico, no texto literário não haveria prevalência de um sentido sobre outros, ficando a intenção do autor sempre dissolvida nessa dinâmica lúdica.

Crítica focada no leitor (3)

A Teoria ou Estética da recepção

Tal teoria traz de volta, embora por motivos diferentes dos anteriores ao século XX, aspectos transcendentes ao texto, ao introduzir, na investigação literária, o papel fundamental do leitor como recriador do texto e todas as condições históricas, culturais e sociais mobilizadas por ele em sua leitura/interpretação. A pesquisa se interessa pelas várias interpretações receptivas que um texto teve ao longo de sua vida literária, conjunto que lhe iria atribuindo, assim, os significados.
Num primeiro momento, década de 60, o movimento, radicalmente, ignora a atuação do autor, a produção do texto, para atribuir somente ao leitor e ao seu horizonte de expectativas – à recepção – a importância maior, em seu papel de realizar o sentido do texto. Por motivos diversos do da “Desconstrução”, também nega uma significação única, aspirando ao entendimento da diferença das variadas exegeses de um texto de diferentes leitores.
Posteriormente, os analistas perceberam que havia, evidentemente, também um significado textual intencionado pelo produtor do texto, o primeiro a ser constituído na lista dos sentidos instituídos depois por seus leitores, que não podia ser ignorado, fundamental em relação às inúmeras interpretações e no estabelecimento dos significados da obra.
Como crítica literária contemporânea, acredito firmemente que, se o texto é o instrumental maior e mais seguro a ser focalizado para o descobrimento de todas as exegeses possíveis, os dados extratextuais disponíveis – a biografia do autor, suas circunstâncias históricas e as diversas interpretações feitas através dos tempos ou por variados leitores/críticos coevos – podem e devem ser mobilizados também para a realização segura dessa prazerosa tarefa.

Bibliografia

BORBA, Maria Antonieta. J. O. de, Tópicos de Teoria para a investigação do discurso literário. Rio de Janeiro:7Letras, 2004.
BRASIL, Assis. Vocabulário Técnico de Literatura. Rio de Janeiro: Tecnoprint Ltda/Edições de Ouro, 1979.
JAUSS, H.R... et al.; A literatura e o leitor. (coord. e trad.: Luís Costa Lima). 2 ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
SILVA, Vítor Manuel de A. e. Teoria da Literatura, 3 ed., Coimbra: Livraria Almedina, 1979.

Estou também em Conto-gotas (link), Poema Vivo (link), Debates Culturais, onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima (link) e Recanto das Letras (aqui).

domingo, 5 de dezembro de 2010

Adiamento

A postagem que estava prevista para hoje deverá entrar no meio da semana. Estou em processo de compra de apartamento no Rio, o que tem demandado muito tempo, impossibilitando a atenção que minhas pesquisas exigem e meus leitores merecem.
Eliane F.C.Lima

sábado, 20 de novembro de 2010

Júlia Cortines Laxe: poeta e mulher - Literatura de ontem 16

Eliane F.C.Lima

Nascida em Rio Bonito, fluminense, portanto, como Narcisa Amália (para ver a postagem sobre ela clique aqui),
JÚLIA CORTINES LAXE (1868-1948) não teve o mesmo reconhecimento posterior da outra, que ainda logrou ter seu nome citado em, pelo menos, duas antologias – em outras antologias há listas enormes de escritores do sexo masculino. Essa invisibilidade acontecia, seguramente, pelo preconceito de então, visto que o crítico literário, José Veríssimo, após a publicação de seu segundo livro, em 1905, tenha declarado que "Os poemas de Júlia Cortines distanciam-se magnificamente da poesia de água-de-cheiro e de pó-de-arroz da musa feminina brasileira, e revelam em Júlia, mais que uma mulher que sabe sentir, alguém que sente com alma e coração e de forma que disputa primazias com nossos melhores poetas contemporâneos." (o texto do crítico está em O Site de Rio Bonito, de onde também foi copiada a foto – ver aqui). A crítica literária da época, na mão e na voz dos representantes de uma cultura patriarcal, caracterizam o produto poético feminino brasileiro, como se vê, pela confusão com sua autoria, minimizando tanto um quanto outra e, comparando-os sempre, com o elemento masculino. O erro principal de Veríssimo – nisso não foge muito da crítica atual, como se vê em minha postagem “O novo tom das narrativas de mulheres” (clique aqui) – é colocar toda a produção de mulheres em um saco só, como se todas fossem uma. Sua poesia é carregada e vibrante, como se pode ver no poema “Fracos”.
Poeta parnasiana, como Francisca Júlia, Júlia Laxe também colaborou em revistas como A semana e A Mensageira, da paulista Presciliana Duarte de Almeida, lançada em 19 de outubro de 1897, que se tornou um dos principais espaços da mulher escritora do final de século XIX/início de XX e onde também escreveram a citada Narcisa Amália, Anália Franco, Júlia Lopes de Almeida, Francisca Júlia (link para minha postagem), Auta de Souza (confira a postagem), nomes igualmente de peso na época. (Informação in Revistas em revista: imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922)) de Ana Luiza Martins – Fapesp – Edusp – pág. 374-375)


Obras

Versos (1894) e Vibrações (1905), a respeito do qual, José Veríssimo fez os elogios.

Interrogação

Júlia Cortines

Contemplo a noite: a cúpula estrelada
do firmamento sobre mim palpita;
meu olhar, que a interroga, embalde fita
o olhar dos astros, que não veem nada:

“Nessa amplitude lôbrega e infinita
que inteligência ou força inominada
numa elipse traçou a vossa estrada,
estrelas de ouro, que o mistério habita?

Dizei-me se, transpondo a imensidade,
alguma cousa a vós minha alma prende,
um vínculo de amor ou de verdade.

Dizei-me, o fim da nossa vida agora:
para que serve a luz que em vós resplende,
e a oculta mágoa que em meu seio mora?...”


O lago

Júlia Cortines

Um pouco d'água só e, ao fundo, areia ou lama,
Um pouco d'água em que, no entanto, se retrata
O pássaro que o voo aos ares arrebata,
E o rubro e infindo céu do crepúsculo em chama.

Água que se transmuda em reluzente prata
Quando do bosque em flor, que as brisas embalsama,
A lua, como uma áurea e finíssima trama,
Pelos ombros da noite a sua luz desata.

Poeta, como esse lago adormecido e mudo
Onde não há, sequer, um frêmito de vida,
Onde tudo é ilusório, e passageiro é tudo,

Existem, sobre um fundo, ou de lama ou de areia,
Almas em que tu vês, apenas, refletida
A tua alma, onde o sonho astros de ouro semeia!


Última página

Júlia Cortines

Antes de mergulhar no silêncio da morte,
Ou da idade sentir a fraqueza e o torpor,
Eu quisera lançar, num supremo transporte,
Meu grito de revolta e meu grito de horror.

Mas sei que por mais forre e por mais estridente
Que ela corra através do infinito, até vós,
Ó céus, que além brilhais numa paz inclemente,
Nem qual brando rumor chegará minha voz!

Mas sei que não há dor que a natureza vença,
E que nunca a fará de leve estremecer
Na sua eternidade e sua indiferença
O lamento que vem dum transitório ser.

Mas sei que sobre a face execrável da terra,
Onde cada alma sente, em torno, a solidão,
Esse grito, que a dor duma existência encerra,
Não irá ressoar em nenhum coração.

Contudo, num clamor de suprema energia,
Eu quisera lançar minha voz! Mas a quem
Enviar esse brado imenso de agonia,
Se para o compreender não existe ninguém?!



Fracos

Júlia Cortines

Fracos, odeio a inércia e detesto a fraqueza.
Prefiro a mão que esmaga ou que vibra o punhal
À doce e inconsciente e nefasta moleza,
Que é para a alma do forte um veneno mortal.

Como de encontro à costa, em ondas remansadas
Chora o mar, ou se atira em bravos vagalhões,
Assim de encontro a vós, almas adormentadas,
Fremem de ódio e de amor os nossos corações.

Almas fracas, fugindo à aspereza das lides,
Sem um esforço para às correntes opor,
Pelo rio do tempo arrebatadas ides,
Desta ou daquela vaga a boiar ao sabor.

Que vos importa a vós a agonia da luta,
A ânsia de possuir, o infinito aspirar?
Que vos importa a vós a decepção que enluta,
Se não sabeis querer, nem sabeis adorar?!


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sábado, 6 de novembro de 2010

Vários olhares sobre a velhice - Palavras sobre palavras 22

Eliane F.C.Lima

Na atual postagem, o tema recorrente é a velhice. Os textos escolhidos são de poetas contemporâneas, com as quais já trabalhei. E, de início, pelas pistas que cada um fornece, se podem reconhecer as diferentes fases da vida em que cada ser poético está, o que lhes propicia uma avaliação divergente diante desse momento da vida.


Poema I: Martha Medeiros

envelhecer, quem sabe
não seja assim tão desastroso
me interessa perder esta ansiedade
me atrai ser atraente mais tarde
um pouco mais de idade, que importa
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão só


O eu lírico do texto de Martha Medeiros não está na velhice ainda – “envelhecer, quem sabe...” – e, por isso, mantém uma expectativa positiva, ou, pelo menos, o benefício da dúvida, embora o leitor conclua que o conceito que faz daquela fase, recebido do senso comum, seja preocupante: “assim tão desastroso” ou “assim tão só”. Sua visão, então, se faz sobre um período que não é o seu.
Mas, se analisarmos o “um pouco mais de idade”, veremos que a concessão feita não vai muito longe, porque estabelece limites.
Outro fator interessante a ser apreciado é o termo “envelhecer”, que, quer se queira ou não, é o início de um processo, não o processo completo. Ainda aqui o leitor pode detetar uma demarcação nessa expectativa positiva, como foi salientado anteriormente.

Poema II: Bicho-de-sete-cabeças

Astrid Cabral

À medida que envelheço
as sete cabeças do bicho
corto. Enfim o reconheço
íntimo de mim, meu próximo.

À medida que envelheço
conquisto-lhe o segredo.
Vejo a morte iniciação
à viagem pelo avesso.

À medida que envelheço
digo: o bicho é meu amigo.
Não, não há porque maldar
envenenando o sossego.

À medida que envelheço
sinto-me remanescente
num deserto onde tropeço
por entre sombras de ausentes.

À medida que envelheço
aprendo a perder o medo.
Todo bicho fica meigo.
É só botar no colo.


O segundo eu enunciador parece já estar no meio do estado enfocado – “À medida que envelheço” –, embora haja, ainda, a ideia de “processo” – o termo significa sucessivos estados de mudança
, o que revela uma situação não definitiva.
O “tão desastroso” do poema de Martha, também sob a opinião do senso comum, vem traduzido, em Astrid, na metáfora do “bicho” e suas “sete cabeças”.
Esse eu textual, entretanto, ainda, mantém uma visão confiante nessa fase da vida: “aprendo a perder o medo”. Um exame mais cuidadoso, porém, identifica que esse sujeito, apesar do “À medida que envelheço”, continua a manter, como o do texto que o antecede, um distanciamento da velhice, vendo-a, por intermédio de sua metáfora, como “um outro” ainda apartado de si: “Enfim o reconheço/íntimo de mim, meu próximo”; “o bicho é meu amigo”; “Todo bicho fica meigo./É só botar no colo.” Pode-se supor que a visão suavizada possa vir, exatamente, desse sentimento de alteridade.

Poema III: Pedido de adoção

Adélia Prado

Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
– não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.



O último eu poético já assume inteiramente a velhice. Aqui não há processo, mas o ciclo completado. A tal ponto, que a ideia de uma mãe idosa se impõe ao reconhecer sua própria figura. Diante do “Mas esta velha sou eu,/minha mãe morreu moça,”, somos, imediatamente, remetidos para os versos de Helena Kolody (ver postagem minha anterior, aqui): A morte desgoverna a vida./Hoje sou mais velha/que meu pai. E a sensação de abandono da velhice – aqui a gente reconhece o “assim tão só” do primeiro poema – vem envolta na “muita saudade/ de ter mãe”, na orfandade, clara no último verso. O sentimento do derradeiro texto é bem diverso dos anteriores e o tema da velhice é inteiramente o tema desse eu lírico. Para o sujeito do poema de Adélia Prado o “bicho” não é amigo, nem ficou meigo. Quem necessita de colo, como as crianças – que é da mãe, tão perfeita para essa função? – é aquela que se reconhece “tão velha”, atadas, deste modo, em sua necessidade de proteção, as duas pontas da vida.


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domingo, 24 de outubro de 2010

"Essa gente raivosa" - Comentando... 13

Eliane F.C.Lima

Aos cinquenta e nove anos, conhecendo pessoas de todos os tipos, o ser humano, contudo, ainda tem me surpreendido. Vejo que, nesse aspecto, ainda morrerei menina.
Primeiro: surpreendi um de meus textos deste espaço, adulterado, numa suposta brincadeira, no blogue de uma pessoa com quem me correspondia por e-mail e a quem tinha em grande consideração intelectual – será isso a que chamam “fogo amigo”? Mesmo assim, aguardei desse “quem”, sabedor ele de que eu reconheci meu texto, até hoje, um e-mail, que, pelo menos explicasse o fato, coisa que fazem pessoas adultas, para usar um atributo bem isento, o que teria amenizado a decepção no campo das ideias e, provavelmente, teria alimentado nossa amizade, levando-a adiante.
Se imagino, ainda agora que tal pessoa não me respeita profissionalmente, o mesmo sentimento sobre ela me ficou e acabará se sedimentando, o que é lamentável. Nenhum desapontamento me cala mais fundo do que o intelectual.
Segundo: tendo declarado em meus três blogues meu voto a Dilma Rousseff, coisa que o farei de novo, no dia 31-10, a maioria de meus frequentadores assíduos desapareceu. Numa certa época, isso era chamado de “patrulhamento ideológico”. No respeitável blogue Céu aberto (vá por aqui), há uma postagem, na qual se diz a mesma coisa, para se verificar que não é apenas uma vazante de maré deste meu blogue ou sensaboria de meus textos.
Ainda me recuperando da decepção virtual, fui surpreendida por uma decepção ao vivo e a cores, principal motivo daquele título lá em cima. No último dia 20 de outubro, estando eu no Rio de Janeiro – grande saudade! – e tendo recebido um botom do PT de presente – não acho os meus depois da mudança de casa –, coloquei-o imediatamente em meu peito.
Ao entrar em um restaurante de autosserviço – ora do almoço, ninguém sabia ainda da famosa história da bolinha de papel –, fui até a banca de comida, prato na mão, aproximando-me, involuntariamente, de duas pessoas. Uma delas, uma senhora bem idosa e muito bem vestida, acompanhada de outra com o mesmo requinte, mas um pouco mais nova, e que talvez tenha me confundido – do lado em que estava não via meu botom –, mostrou-me à segunda, indicando-me como “amiga” da outra. O sorriso meigo dela me mostrava o engano. Retribui o sorriso. Então fui surpreendida com o maior ataque de que já fui vítima: sem nenhum motivo, sem eu ter aberto minha boca em momento nenhum, a “requintada” senhora começou a me agredir, dizendo que não era minha amiga, que jamais seria amiga de uma pessoa do PT, que tinha alergia a “essa gente”, que não gostava das atitudes do pessoal do PT. E começou a falar alto com a idosa, a empurrá-la, dizendo que a outra fosse sentar à mesa, visivelmente furiosa, quando eu lhe respondi que também não queria ser amiga dela e que estava claro que ela era amiga do outro candidato.
Vi a volta de um vocabulário de que eu havia me esquecido e que pensei que estava sepultado após o governo Lula, época em que mostrou que o partido não é insensato nem toma nenhuma atitude radical. Pelo contrário, a esquerda mais inflexível, por assim dizer, andou acusando seu governo de estar se dirigindo para o centro, imaginem. A prova da seriedade e confiança no partido foi todo o capital estrangeiro aqui aplicado, não havendo aqui nenhum elogio meu a esse fato, apenas a prova de que os de fora superaram a desconfiança “nessa gente”. A agressão me horrorizou, sentimento que já vinha me dominando pelas tentativas de algumas pessoas mostrarem ainda o partido como terrorista em todos os e-mails falaciosos que circularam pela rede e pela farsa montada sobre o ataque ao tucano, endossada pela mídia mais perigosa, que morre de medo de ter regulamentada a lei que tira de suas mãos o cartel e o direito de decidir sobre a república (do termo latino res – coisa – pública) e a democracia, mídia que recorreu a um autoproclamado “perito” – ver no site do jornalista Luiz Carlos Azenha , reprodução das declarações dos verdadeiros peritos no trecho intitulado “Desafio de peritos” (este é o caminho).
Então eu vejo que não era à toa que Adriana Calcanhoto cantava “eu não gosto do bom gosto,/eu não gosto do bom senso”, numa franca ironia aos que se sentem “finos” e donos da verdade. Elite, enfim. Que perde a pose, desce do salto e mostra seus mais vis instintos humanos, quando imagina que está sendo ameaçada naquilo que é seu direito: manter o povo longe do poder... e de si. Quantas vezes não ouvi eu, cinicamente, "dessa gente", que afinal, a sociedade precisa de “garis e empregadas domésticas”?
Podemos ver que o epíteto era atribuído ao grupo errado e “essa gente raivosa”, da qual aquela senhora bem vestida é uma sinédoque (a parte pelo todo; o indivíduo pela espécie), havia estado calada durante oito anos, mas está apenas aguardando para mostrar-se novamente, se possível, ainda nesta eleição ou de qualquer outra forma – alguns têm mencionado um golpe, agora explícito, quando as forças que se mostram midiaticamente perderiam a vergonha – para continuar a sequestrar pessoas, levá-las para os porões, torturá-las, seviciá-las, esquartejá-las. Estava lá a operação OBAN – operação Bandeirantes (ver maiores esclarecimentos no site da Wikipédia), que não me deixa mentir, tendo os militares, sozinhos, levado a culpa daquilo que a sociedade civil ajudou a construir.
Enfim, o meio não importa, o ser humano sempre arranjará um jeito de mostrar sua verdadeira natureza. Já dizia um sábio amigo meu que “essa gente raivosa” usa roupas caras, frequenta lugares elegantes e não usa botom.

É à custa dos "que têm fome" que a minoria ainda mantém seu "bom gosto" e seu "bom senso". A canção que você ouviu é de autoria de Adriana Calcanhotto e denomina-se “Senhas”. Está no CD de mesmo nome. Aconselho a compra da obra, como eu fiz. Lá estão também as canções “Mentiras” e “Esquadros”. Custa bem pouco para o enorme valor que tem. E se paga à autora o que ela tem direito. Agradeço ao Youtube o vídeo (está aqui).



Convido meus leitores a meu blogue Conto-gotas (link) e Poema Vivo (link). Estou ainda em Debates Culturais (link), onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima. Recomendo ainda, nesse mesmo endereço, a excelente Cintia Barreto, além de todos os outros.

sábado, 9 de outubro de 2010

O coração lírico e militante de Jacinta Passos - Literatura de ontem 15

Eliane F.C.Lima

A poeta sobre a qual comentarei hoje, Jacinta Passos (Recôncavo baiano - 1914-1973), era uma mulher excepcional, no sentido mais literal da palavra, pois já a partir de 1939, ano do início da Segunda Guerra Mundial, apesar de haver recebido forte formação religiosa, comum na época, começou a ter intensa militância política, lutando por questões relevantes sociais, como a paz mundial, contra o fascismo, a opressão das mulheres e das minorias exploradas, de uma forma geral. Um de seus textos mostra, poeticamente, esse mundo interior que possuía.


Canção da liberdade

Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver.

Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.
(trecho do poema in Canção da partida)

Professora por formação, no novo caminho que escolhera, acaba se relacionando com intelectuais comunistas, como o escritor Jorge Amado, com cujo irmão, James Amado, se casaria mais tarde. Sua filha Janaína Amado é fruto desse casamento.
Em 1945, já está oficialmente ligada ao Partido Comunista Brasileiro, onde permanece até morrer.
Muda-se depois – 1951 –, com sua nova família para São Paulo e, em seguida, para o Rio de Janeiro.
No final desse mesmo ano, um fato marca sua vida e a separa do marido e da filha: após crise nervosa e de se ver internada em clínica psiquiátrica, recebe o diagnóstico de esquizofrenia, tendo seu tratamento, compatível com o que se acreditava na ocasião, lhe proporcionado grande sofrimento.
Voltando para Salvador, só, embora mantenha relacionando ocasional com a filha, vai residir com os pais, mas continua sua atuação política e social em comunidades pobres, como em uma colônia de pescadores de Aracaju, onde vivia ela mesma em extrema pobreza.
Continua sua atuação mesmo após o golpe militar de 1964, o que lhe vale, em 1965, a prisão, quando escrevia em muros da cidade sua revolta à ditadura. Sua família interfere, alegando seu problema psiquiátrico, e Jacinta é internada numa casa de saúde da cidade, onde fica até sua morte – 1973 –, com apenas cinquenta e oito anos de idade.
Apesar de ter sua vida ligada à de Jorge Amado, não é por esse motivo que se torna poeta, é bom que se deixe claro, pois seu primeiro livro de poesias, Nossos poemas, já sai em 1942, dividido em duas partes: “Monumentos de poesia”, com poemas de Jacinta; “Mundo em agonia”, com poemas de Manoel Caetano Filho, seu irmão. O livro já foi recebido com críticas favoráveis aos dois na imprensa baiana.

Obras

Poemas

Nossos poemas (1942 – Salvador: Editora Bahiana)
Canção da Partida (1945 – São Paulo: Edições Gaveta – edição de apenas duzentos exemplares, assinados pela autora e ilustrados pelo grande artista Lasar Segall, tendo recebido elogios de nomes nacionais como Aníbal Machado, Antonio Cândido, Mário de Andrade, dentre outros).
Poemas políticos (1951 - Rio de Janeiro: Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil - poemas inéditos, políticos e líricos, além de uma seleção de poesias anteriores).
A Coluna (1957 - Rio de Janeiro: A. Coelho Branco Filho Editor). O volume contém um longo poema épico, de quinze cantos, sobre a Coluna Prestes).

Em 2010, sua filha Janaína Amado, escritora e historiadora, organiza o livro Jacinta Passos, coração militante, lançado, em conjunto, pelas editoras Edufba (da Universidade Federal) e pela Corrupio, reunião da obra completa da escritora, com artigos jornalísticos e inéditos, além da fortuna crítica. Os desenhos de Lasar Segall, do livro Canção da partida, são trazidos de volta. A admiração da filha por Jacinta fica bem patente, não só pela obra publicada, fazendo ressurgir toda a produção da mãe, mas por dois espaços (aqui – este artigo está reproduzido lá – e aqui – site oficial) na internet a ela dedicados e aos quais agradeço. Foi do primeiro link que partiu a facilitação de minha pesquisa, encaminhada aos diversos outros sites onde se informou sobre a poeta e aos quais estendo meu agradecimento. No segundo, pode-se visitar poemas e prosa da escritora.

Escrevendo Jacinta Passos, em jornais e revistas, um de seus temas, como foi dito, era a denúncia da opressão sofrida pelas mulheres, o que se refletiu até em seus poemas, como os abaixo:

Canção Simples

A flor caída no rio
que a leva para onde quer
sabia disso e caiu,
seu destino é ser mulher.

Mulher que tudo já deu
homem que tudo tomou,
é mulher que se perdeu,
é homem que conquistou.
(Canção da Partida)

Chiquinha

Chiquinha
Chiquinha
tão frágil,
magrinha.
Teu corpo miúdo,
O tempo secou,
As formas redondas,
o tempo gastou.

(...)
Teu corpo cansado
lutou no Egito
as mãos, mãos escravas,
abanaram leques
e teu corpo nu,
teus seios morenos
e teus pés pequenos
dançaram lascivos,
ligeiros, airosos,
deleitando o tédio
de reis ociosos.
Chiquinha,
teu corpo cansado,
foi corpo explorado
na Mesopotâmia,
na Pérsia e Turquia
- haréns de sultão –
foi pária na Índia,
na China e Japão.
Teu corpo explorado
foi mercadoria,
espada e cavalo
e vinho, foi orgia
na Arábia lendária,
de ardência e magia.
(…)

Chiquinha
Chiquinha
durante dez séculos,
teu corpo fechado
nas torres feudais
de imensos castelos
foi corpo arrancado
da terra, da vida,
corpo sem raiz,
feito puro de espirito,
mistério e tabu,
teu corpo adorado
foi corpo explorado.
(Canção da Partida)

Canção da partida

Bernadete é preta
é preta que nem tição.

Bernadete é pobre,
é pobre sem um tostão.
(...)

- Pelo sinal da pobreza!
- Pelo sinal de mulher!
- Pelo sinal!
da nossa cor!

Nós somos gente marcada
- ferro em brasa em boi zebu –
ninguém precisa dizer:
Bernadete, quem és tu?
(Canção da partida)

Abaixo coloco alguns de seus textos do livro Poemas políticos, embora eu deva salientar que a poesia vai muito além de uma questão momentânea. Mas quem sou eu para discutir com a autora o título que ela mesma lhe deu.

1935

Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.

Fruto peco.

Novembro de sangue e de heróis.

Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.

Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.
(Poemas políticos)

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo
aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.

Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.

Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.
(Poemas políticos)

Mas devemos nos deliciar também com os poemas líricos de Jacinta, os quais têm a mesma força dos de cunho libertário. Em uma linguagem simples e direta, como foi a ação em sua vida, sem jogos figurativos muito requintados, atinge em todos a poesia que emociona.

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.
(Poemas políticos)

Cantiga de Ninar

Senhora Onda do Mar
vestida de verde com franjas de luar,
ninai meu filhinho fechai seu olhinho
seu soninho velai
que mamãe precisa fazer com papai,
Senhora Onda do Mar,
um planeta novo de neném morar.

Su su su
Quem dorme na lagoa
é sapo-cururu.

(Canção da Partida)

Diálogo na sombra

– Que dissestes, meu bem?

Esse gosto.
Donde será que ele vem?

Corpo mortal.
Águas marinhas.

Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

– De quem falas amor, do mar ou de mim?

(Canção da Partida)

Fecho a postagem com um poema de Jacinta Passos, que, parecendo antever sua grande ação social e seu final de vida, resume-a, assim, em 1942. Doente e com problemas de saúde, o que ficou da escritora foi mesmo sua essência lírica, o que atravessou o túnel do tempo e a traz de volta. Não é o que se diz dela, dados ligados à história do país, de um “indivíduo”, afinal, o que a marca mais fortemente, mas a força e verdade de um sujeito poético

Eu serei Poesia

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.
Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia
Quando nada mais existir ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O que o texto revela - Palavras sobre palavras 21

Eliane F.C.Lima

Começo, chamando a atenção para o fato de que este blogue completou, no dia 21 de setembro, agora, um ano. É herdeiro do Literatura em vida, que lá ficou, com problemas de operacionalização. Convido o leitor a ler minha primeira postagem, clicando no link.

Neste ensaio, faço a análise de quatro contos da antologia Os cem menores contos brasileiros do século1, organização de Marcelino Freire, utilizando-me de conceitos defendidos por Umberto Eco em Os limites da interpretação2. A escolha dos textos se deu por seu tamanho e por serem construídos em cima de vazios a serem preenchidos na leitura, que desafiam o leitor em seu processo de entendimento do texto.
A discussão do semiólogo se faz, em grande parte, sobre três elementos que sempre vêm à baila, quando se fala sobre a interpretação de um texto: o que o autor quis dizer ou disse – a intentio auctoris –; a estrutura propriamente dita do texto, com o sistema de significações em que se ampara, independentes das ambições do autor – sua intentio operis – e, finalmente, o leitor, que, modernamente, depois da estética da recepção, foi trazido à frente da cena, com sua interpretação, baseada em seus próprios sistemas de significação, que são motivados por seus aspectos culturais, históricos, ideológicos e até por seus desejos, seu “horizonte de expectativas” – a intentio lectoris – neutralizado o autor, enfim.
Que o leitor realiza, em termos pragmáticos, o texto é uma verdade inegável. Devo concordar com Eco, no entanto, quando salienta que o leitor cria uma hipótese (ou várias) sobre a intentio operis, que deve ser aprovada ou rejeitada inteiramente pelo todo orgânico coerente do texto, o qual tem mecanismos internos que possibilitam o controle sobre as interpretações.
Vamos começar, lendo um texto de Adrienne Myrtes, daquela antologia:

Caiu da escada
e foi para o andar de cima.

Uma leitura que entenda que o conto acima versa “sobre um soldado, que havia partido para a guerra e voltado apaixonado por uma enfermeira”, por exemplo, seria inteiramente repelida por qualquer pessoa que dela tomasse conhecimento. Com um exemplo desse tipo, Eco começa a mostrar que um texto já traz em si as possibilidades aceitáveis ou não, com o que todos temos de concordar. Na verdade, se aceita, tal interpretação valeria para qualquer um dos textos a seguir. A negação inviabiliza a ideia de que haja obra aberta ou de interpretação ilimitada.
Façamos agora uma leitura de significação literal – ou grau zero, como o estudioso nomeou –, entendendo todos os termos em seu sentido mais simples. Bem, isso tornaria o texto, no mínimo, surreal, pois “caiu” invalidaria o “de cima”. Mas esse significado não pode ser inteiramente descartado, visto que o nonsense é uma possibilidade literária. Porém a própria aceitação dessa leitura já anula o termo “sentido mais simples” e instaura, ao contrário, uma visão bastante sofisticada.
Podemos entender, entretanto, “foi para o andar de cima” como morte. Nesse caso, esse significado depende que um leitor traga já para a cena interpretativa esse conhecimento da expressão. Aqui seria o caso de coincidência entre intentio lectoris e intentio operis (possibilidade guardada no texto). Ouso dizer que vejo aí também a intentio auctoris.
Vamos nos debruçar sobre outro texto, de Ronaldo Correia de Brito.

Fumaça

Olhou a casa, o ipê florido.
Tudo para ela.
Suspendeu a mala e foi.

Agora, a liberdade do leitor parece mais garantida pelo próprio texto. Os versos permitem uma mudança radical de perspectiva: alguém que chega a uma casa ou que parte daquela mesma casa, desiludido. Esse mesmo ser pode ser o “ela” a quem o pronome se refere ou um outro que se sente preterido. Até o “suspender” tem a possibilidade de ser lido com o sentido literal ou como “desistir de”, entendendo-se o “foi” como “voltar” ou “ficar”. Todas essas probabilidades estão previstas na indecisão que o texto contém, através de seus mecanismos internos de controle.
O conto a seguir exige do leitor uma visão das circunstâncias momentâneas e ouso dizer que um leitor de outra época não chegará ao mesmo significado ou ficará preso ao sentido literal, perdendo toda a ironia e humor presentes no texto. Lerá um outro texto. Aqui, a bagagem cultural do leitor é fundamental para a realização do significado.
Observemos o “estar denunciando”, o gerundismo, como tem sido chamado, e que tem caracterizado pessoas que trabalham com atendimento, quase sempre, pelo telefone. O formalismo do pronome “senhor” permite a conclusão de que alguém fala com outro hierarquicamente superior numa relação trabalhista. O título completa a relação que os elementos do texto estabelecem.

Assédio sexual

Sérgio Móia

Eu vou estar
denunciando o senhor ainda hoje.

O último texto também prevê um leitor preso ao presente pelo tema instaurado pelo título.

Pedofilia

Marcelino Freire

Ajoelhe, meu filho.
E reze.

Parece, entretanto, querer segmentar esse tema: valendo-se de um ditado popular, agrega-lhe, além de seu significado metafórico, um outro literal, de religiosidade, na ligação que estabelece com o título, remetendo aos escândalos que a mídia tem estampado atualmente. Deve-se perceber que, se o texto afiança tal entendimento, pode-se entender que essa era, realmente, a intenção do autor, que, afinal, vive em seu texto.

Aguardo você em Poema Vivo (aqui) e Conto-gotas (aqui). Há poema e conto novos ali.

domingo, 19 de setembro de 2010

Outro caso de mulher - Comentando 12

Eliane F.C.Lima

Minha postagem estava marcada para semana que vem. Mas não posso deixar de fazer uma chamada para o excelente blogue
Scenarium de minha amiga e poeta Marise Ribeiro. Ali há uma matéria interessante e informativa sobre Artemisia Gentileschi que, como outras artistas como Camille Claudel, por exemplo, foi violentada por aquilo que Simone de Beauvoir chamou, ironicamente, de "destino de mulher". Convido meu visitante a ir até lá com urgência (link). Há, inclusive, muitas outras postagens para serem apreciadas. O quadro ao lado denomina-se "Judite decapitando Holofernes", tema caro a outros pintores, mas cheio de significações nesse caso específico.


Visite, ainda, meus blogues Poema Vivo (link) e Conto-gotas (link).

domingo, 12 de setembro de 2010

O perfume da poeta maior - Literatura, já 18

Eliane F.C.Lima

Minha postagem de hoje é sobre
Helena Kolody e corro o risco de ser confundida com o escritor de novelas, visto que essa é a terceira com o mesmo nome. Mas por ela vale a pena se correr riscos.
A escritora era paranaense (1912 — 2004) e foi a primeira mulher, no Brasil, a publicar haicais (ainda haikais ou haicu), um tipo de composição poética japonesa de três versos, que pretendia passar um máximo de sensações com uma concisão de palavras. Um antigo poeta japonês, um “haijin” ou haicaísta, Matsuô Bashô (1644-1694), elevou tal tipo de poema à arte, como prática espiritual, pois antes dele, era apenas uma forma de entretenimento dos samurais e comerciantes abastados.
Inicialmente, o poema devia ter um verso de cinco sílabas, o segundo de sete e outro de cinco, completando dezessete. Não seria rimado, mas devia enfocar a natureza ou a estação do ano. Mas, claro, os poetas brasileiros não aceitaram essas imposições, como era de nosso temperamento e Guilherme de Almeida, por exemplo, um dos mestres do haicai, usou muito a rima, às vezes internamente:

O pensamento

Guilherme de Almeida

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.

Paulo Leminsky, o poeta, traduziu Bashô. E a citação de Leminski (leia um poema dele e meu comentário, clicando aqui), nesse momento, vem do fato dele, além de ser um dos principais escritores de haicais e paranaense também, ser amigo e admirador de Helena Kolody, a quem elogiou sem restrições. Abaixo, exemplos de Bashô e Leminski

Solidão

Bashô

Velho tanque.
Uma rã mergulha.
Barulho da água.
(uma das traduções livres: por Cecília Meireles em Escolha o seu sonho – 1974)


Paulo Leminski

soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento

Mas voltemos à Helena Kolody, que recebeu da comunidade nipo-brasileira de Curitiba, em 1993, o nome haicaísta “Reika” por difundir a poesia japonesa, nome que tem uma significação imprecisa, como “perfume da poeta maior”, por exemplo. O sentido do nome, então, marcaria o encanto que o leitor tem com aquele tipo de poema e sua autora.
Vamos ver um haicai de Helena Kolody, com algumas observações em seguida:

Pereira em flor

Helena Kolody

De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
A pereira sonha.

No texto anterior, vemos uma fidelidade maior ao tipo tradicional de composição: o tema é a natureza. Formalmente, não tem rima e está dividido da seguinte forma:
verso 1: De.gri.nal.da.bran (são cinco sílabas, pois a contagem deve ir até a última sílaba tônica);
verso 2: To.da.ves.ti.da.de.luar (são sete sílabas, pois a última palavra deve ser lida como contendo um ditongo. Esse recurso se denomina "sinérese");
verso 3: A.pe.rei.ra.so (são cinco sílabas, pelo mesmo motivo do verso 1).

Abaixo, seguem-se outros haicais da poeta, já criados de forma mais flexível, com maior grau de liberdade.

Areia

Da estátua de areia,
nada restará,
depois da maré cheia.

Avesso

Seu olhar profundo
olha na poça d'água
e enxerga estrelas no fundo.

Gestação

Do longo sono secreto
na entranha escura da terra,
o carbono acorda diamante.

Luz Interior

O brilho da lâmpada
no interior da morada
empalidece as estrelas.

Sem aviso

Sem aviso,
o vento vira
uma página da vida.

Outros haicais, sem nome específico, o que era outra tendência mais clássica.

Haicais

Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.

Xxxx

Corrida no parque.
O menino inválido
aplaude os atletas.

xxxxxxx

O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.

Xxxxxxxx

Tão longa a jornada!
e a gente cai, de repente,
no abismo do nada

xxxxxxxxxxxxxxx

A morte desgoverna a vida.
Hoje sou mais velha
que meu pai.

Mas a poeta não fez apenas haicais. Talvez pela prática ou por seu estilo poético mesmo, seus poemas tenham mantido sempre a simplicidade, um alto grau de limpidez, a precisão característica daquelas composições. A gente quase que identifica, em cada estrofe, um haicai.
Os temas foram, muitas vezes, a análise do ser humano e suas eternas circunstâncias, a inexorabilidade da vida diante da morte.

Antes

Helena Kolody

Antes que desça a noite,
imprimir na retina
os rostos amados,
o sol
as cores,
o céu de outono
e os jardins da primavera.

Inundar de sons
de vozes
e de música eterna
os ouvidos
antes que os atinja
a maré do silêncio.

Conquistar
os pontos culminantes
da vida,
antes que se esgote
o prazo de permanência
em seu território sagrado.

Pânico

Helena Kolody

Não há mais lugar no mundo.
Não há mais lugar.

Aranhas do medo
fiam ciladas no escuro

Nos longes, pesam tormentas.
Rolam soturnos ribombos.

Súbito,
precipita-se nos desfiladeiros
a vida em pânico.

Limiar

I

Helena Kolody

Da soturna jornada
Pelas brumosas sendas
Da anestesia,
Não guardei memória.

Sou um pêndulo que oscila
Dos limites da vida
Aos limites da morte.

Rubros lobos me espreitam silentes,
Numa densa garoa vermelha
Que lateja no ritmo da febre.

Venho à tona, por segundos,
E volto ao limo do sono.

Da sede, brota em meu sonho uma fonte:
Água fria em chão de pedra.
No fundo, uma alga se espreguiça
E essa alga sou eu.


Exilados

Helena kolody

Ensimesmados,
olham a vida
como exilados
fitando o mar.

Não estão no mundo
como quem o habita.
Estão de visita
num planeta estranho.


Oscilação

Helena Kolody

A cada oscilar do pêndulo
algo se apaga
ou para nós termina.

De segundo em segundo,
algo germina
ou para nós floresce.

Jovem

Helena kolody

Suporta o peso do mundo.
E resiste.

Protesta na praça.
Contesta.
Explode em aplausos.

Escreve recados
nos muros do tempo.
E assina.

Compete
no jogo incerto da vida.

Existe.

Tempo

Cai a areia da vida
Na ampulheta da morte.

Grafite

Meu nome,
desenho a giz
no muro de tempo.

Choveu,
sumiu.

A poeta também escreveu largamente sobre as viagens que o homem empreendeu ao espaço. Mas, longe de ser uma apologia à tecnologia, Helena reconheceu no fato a mesmice humana, a repetição de sua condição de ser problemático, sendo a adoção da máquina e a descoberta do espaço um desdobramento das relações que estabelece em seu planeta. Tais poemas, enfim, quase sempre, foram uma reflexão social e filosófica sobre ele.

Astronave

Helena Kolody

Soberbo monumento da astronáutica
num pedestal de cifras.
Bezerro de ouro,
cosmonave!
Milhares de famintos
baixaram ao vale da morte,
para que pudesse subir.

Selenita

Helena Kolody

O homem irá viver na Lua,
em cavernas.

Como se alegrará o troglodita,
soterrado em sólidas camadas
de civilização...

Obras

Poemas

Paisagem interior (1941- publica aqui os primeiros haicais); Música submersa (1945); A sombra no rio (1951); Poesias completas (1962); Vida breve (1965); Era espacial e Trilha sonora (1966); Antologia poética (1967); Tempo (1970); Correnteza (1977); Infinito presente (1980); Poesias escolhidas (1983, poemas traduzidos para o ucraniano); Sempre palavra (1985); Poesia mínima (1986); Viagem no espelho (1988, reunião de livros anteriores) ; Ontem, agora (1991); Reika (1993); Sempre poesia (1994 – antologia); Caixinha de música (1996); Luz infinita (1997, edição bilíngue); Sinfonia da vida (1997, antologia e depoimentos da poetisa); Helena Kolody por Helena Kolody (1997, CD especial para a coleção Poesia Falada); Poemas do amor impossível (2002, antologia)

Em prosa: Memórias de Nhá Mariquinha (2002).

Meu desejo, com esta postagem, é ajudar a difundir a obra de Helena Kolody, que não teve um reconhecimento nacional à altura de seu talento (a foto acima é do Google).

Convido a quem apreciou esta postagem a ir até meu blogue de poesias Poema Vivo (link) e o de contos, Conto-gotas (link). c

domingo, 29 de agosto de 2010

O novo tom das narrativas de mulheres - Palavras sobre palavras 20

Eliane F.C.Lima

Pode-se ler, ainda, nos mais diferentes artigos de crítica, que o tom confessional é uma das características do discurso literário feminino, mesmo quando esse discurso se faz em um texto ficcional. E raramente esse atributo é visto como uma qualidade a ser louvada, pelo contrário. Normalmente estabelece um elo, que acaba tornando todos os textos, das mais variadas tendências, como de uma autoria só: mulher. E se nota, mesmo sem intenção, que esse dado o desqualifica como texto literário de primeira linha, encarado apenas como uma autobiografia chorosa.
O estranhamento da colocação se dá por vários motivos. Um deles é que se deve salientar que há um número enorme de textos de autoria de homens, marcadamente confessionais, como os de James Joyce e Marcel Proust, só para citar dois nomes de enorme peso. Mas ninguém se atreveria a anular suas individualidades literárias marcantes e a vê-los apenas como gênero masculino.
Em segundo lugar, cabe a pergunta sobre o que é um texto com tom confessional. Narrado em primeira pessoa e falando de si e de suas dúvidas e questões? Se o critério fosse esse, se correria o risco de cair na armadilha de se considerar Dom Casmurro um texto de caráter confessional: Bentinho, um homem torturado pela dúvida e pelo ciúme, já maduro, empreende uma narrativa autobiográfica, tentando justificar suas ações em relação à mulher amada e ao filho, enumerando juízos extremamente subjetivos sobre o comportamento daquela. Não, o critério não é esse, pois analista nenhum nunca teve dúvida de que aquele romance é pura ficção, que o protagonista e narrador é uma personagem, estando o matiz subjetivo do dito Dom Casmurro bem apartado do próprio Machado, logicamente. Mas essa compreensão dicotômica da realidade intraobra, que parece tão óbvia nesse caso, no que se refere à construção narrativa de autoria de mulher, não tem a mesma sorte.
Os analistas não enxergam, nas vozes que enunciam e se movimentam nelas, seres criados e verdadeiros apenas dentro daquele universo narrativo, independentes da condição de gênero de quem o cria. O lamento é sempre entendido como o de uma mulher, a autora, a qual se esconde, sem consciência, imaginam, atrás de uma boca que se confunde com a sua. Para a autoria de mulher, o velho e verdadeiro “o poeta é um fingidor” do Pessoa, e que pode ser estendido para qualquer criação literária, não vale. Desse modo, a escritora tem negada sua capacidade fabulística.
Lembro-me bem do dia em que, informando a um especialista em literatura de que havia analisado os romances de Lya Luft em minha tese de doutorado, o inexorável “tom confessional”, agora em relação à escritora citada, foi posto na conversa, como justificativa para seu desinteresse em relação a ela, sem qualquer disfarce do sentimento de pouco caso, como se todas as suas personagens femininas fossem tão somente a própria escritora, desdobrada diversas vezes em suas páginas.
Hans Robert Jauss, em sua teoria da recepção, retomando Husserl, faz alusão ao conceito de “horizonte de expectativas” de todo leitor, condicionado por fatores de natureza histórica, sociológica, cultural, estética, mas, principalmente, ideológica (crenças e conceitos adquiridos, dentre outros), quadro de referência que, como aliás em qualquer interpretação inespecífica diante do mundo, é posto em ação, consciente ou inconscientemente, em seu contato com um novo texto. Visto assim, ouso imaginar que um texto de autoria de mulher já estaria, em muitos dos casos, antecipadamente preso a um projeto de leitura, não só porque houve uma época em que os textos de mulheres refletiram sobre si – olhar inicial e oportunidade única de tomar em suas mãos as rédeas da discussão e da descrição sobre elas, o que sempre havia partido e era privativo da visão masculina –, mas também pela memória que os leitores têm de suas condições sociais, econômicas e culturais, memória clichê da qual as mulheres não conseguiram se livrar inteiramente. Portanto a pretendida coloração intimista não é um dado imanente aos textos de autoria feminina, mas está muito mais nas expectativas estereotipadas do receptor sobre ela.
Esse olhar teimoso e anacrônico não faz mais sentido, pois, marcadamente na literatura pós-moderna, as mulheres já superaram suas antigas questões e, inseridas na vida social, refletem sobre o mundo, independentemente de sua condição de gênero e, através de suas narrativas e suas personagens, da mesma forma que se dá com os escritores, questionam todos os aspectos variadíssimos de suas vidas de seres humanos. As mulheres já não se investigam obsessivamente, mas passeiam seu olhar em volta, com a finalidade de agir sobre o mundo.

Aconselho ao visitante a conferir minha postagem sobre Luci Collin, testemunho do que digo.
(Agradeço ao Google a foto acima)

Renovo o convite para meu leitor visitar os blogues Conto-gotas, que hoje completa seu primeiro aniversário (aqui), e Poema vivo (siga).

domingo, 15 de agosto de 2010

O metadiscurso de Adriana Lisboa - Literatura, já 17

Eliane F.C.Lima

Adriana Lisboa faz parte da novíssima geração de escritoras brasileiras. Carioca (1970), morou na França, no Japão e, atualmente, nos Estados Unidos.

Embora tenha começado sua carreira no romance, sua coletânea de contos curtos Caligrafias, talvez, seja a mais difundida. Seus livros foram divulgados na Europa e nos Estados Unidos, tendo integrado diversas antologias, tanto aqui como no exterior.
Seu romance Sinfonia em branco recebeu o prêmio José Saramago, em Portugal (A foto acima é de Daniel Mordzinski).

Obras:
Romances: Os fios da memória (Rocco, 1999); Sinfonia em branco (Rocco, 2001); Um beijo de colombina (Rocco, 2003); Rakushisha (Rocco, 2007).
Contos: Caligrafias (Rocco, 2004).
Escreveu também livros infantis e juvenis e participou de inúmeras antologias.

Para aprofundamento de sua biografia, recomendo uma visita a seu site oficial, clicando aqui e a leitura de sua entrevista em “Saraiva Conteúdo” (veja aqui).

Vamos fazer uma leitura de dois contos do livro Caligrafias. Neles, iremos encontrar um tema recorrente na literatura, o do discurso literário refletindo sobre si mesmo, sobre seus processos – metalinguagem ou metadiscurso.

Caligrafia

Adriana Lisboa

Alcançar primeiro com os olhos a mesa branca da varanda onde se esquece um caderno pautado em que se abortaram alguns resumos, pé ante pé, dissimuladamente, transpor o piso de cerâmica da sala, transpô-la, a sala, ato que se torna muito mais evidente e concreto na imagem dos pés sobre o piso de cerâmica, apoiar a mão direita com preciosismo (em nenhuma hipótese a esquerda) sobre uma cadeira-obstáculo que adormeceu no caminho, debruçar mais um sorriso sobre a capa do caderno onde se lê big explosion em caracteres irregulares e coloridas e se lembrar de que era o mais barato da papelaria, empunhar a caneta de tinta azul contra o canto superior esquerdo da primeira página disponível e observar que um traço quebra a sisudez das pautas nuas, desenvolver o traço em curvas e retas e círculos de acordo com as regras há muito assimiladas numa caligrafia dita elegante e satisfatoriamente legível, despejar no oco da página um monte delas, palavras, entrecortadas por suspiros virgulares e respirações profundas, mas, mais importante, tudo num único impulso que culmine na sombra só então possível de um ponto redentor, encerrando questões, enterrando ideias e imagens e simulacros, o ponto final da vitória ou da derrota, tanto faz, o ponto final depois de uma assepsia sem parágrafo ou ponto-e-vírgula, o ponto final que recolhe tudo o que sobrou e escorre frágil, o ponto final dos pulmões vazios e dos olhos marejados, o ponto final do fim.

A primeira reflexão se dará sobre a linguagem, alguns processos gramaticais, que, em última análise, são o material com que o escritor lida para obter os efeitos que pretende. Se prestarmos a atenção, veremos vários verbos no infinitivo, que vão do início até a linha 13, de “alcançar” até “despejar”. E isso não é sem intenção: o infinitivo é uma forma em que o verbo se apresenta atemporalmente, o que tornaria as ações não datadas, isto é, de certa forma, não pertencentes ao passado, ao presente ou ao futuro.
Há, porém, outro dado relevante: o infinitivo, no texto de Adriana, me parece ter o valor de imperativo, embora seu emprego, além dos dados anteriormente referidos, suavize o aspecto de imposição que a outra forma verbal poderia agregar. O texto se apresenta, desse modo, até quase o final, como um manual de criação literária, uma receita de fazer.
Mas não se prende à imparcialidade de um gênero textual desse tipo. Ao contrário, prevê, sobrepairando a esse aspecto, ações de um agente, uma narrativa anterior – um caderno pautado foi esquecido, resumos foram abortados etc. É impossível não se atentar para a eficácia emotivo-subjetiva do advérbio “dissimuladamente”.
E esse “manual” vai sugerindo ações de forma alguma práticas ou técnicas – “apoiar a mão direita com preciosismo (em nenhuma hipótese a esquerda)” ou “debruçar mais um sorriso sobre a capa do caderno...” –, indicando que sua função é a construção de um texto artístico. Essa construção fica à mostra na interpretação literária que faz para uma das mais corriqueiras definições gramaticais para o emprego da vírgula, qual seja, a indicação gráfica de uma pausa respiratória:”... palavras, entrecortadas por suspiros virgulares e respirações profundas...”. Os adjetivos do eu enunciador violentam, divinamente, a gravidade da gramática.
Ao final, depois da expressão “um ponto redentor”, as formas verbais introduzidas são dois gerúndios – “encerrando” e “enterrando” –, os quais iniciam duas orações com valor de orações adjetivas: um ponto redentor, que encerra questões e enterra ideias.
E aqueles “olhos marejados” estão ali a enfatizar o despertar das emoções, necessário à criação literária.


Pirotecnia

Adriana Lisboa

Um menino sonhou com fogos de artifício.
Anos mais tarde, ele descobriu que as palavras às vezes formavam versos. Tornou-se poeta e durante toda a vida quis relatar o itinerário daquele sonho de infância. Remexeu nos dicionários e encontrou a possibilidade de criar imagens híbridas como sereias ou manticórias(1). Versos que soavam como café fresco, que corrompiam como aguardante pura, que salvavam como um lírio branco.
Anos mais tarde, publicou sua coletânea de poemas. O último deles se chamava Os fogos paralelos e era seu projeto de vida levado a cabo: fogos de artifícios transformados em versos.
Anos mais tarde, certa leitora comprou a coletânea. Ao enveredar pelo último poema, percebeu que as palavras assumiam cores diferentes e brilhavam sobre o fundo negro da página branca, ofuscando as estrelas, e impregnavam todo o livro com um discreto cheiro de pólvora.

(1).No dicionário Caudas Aulete digital só há alusão à palavra “manticora”: “gr. Mantikhoras (animal fabuloso com corpo de leão e cabeça de homem)”. Acredito que seja esse animal a que o texto se refira.


No segundo conto, o discurso metalinguístico vem mais dissolvido numa narrativa, subliminarmente apresentado. Ainda assim, é claro o enfoque da luta travada pelo escritor para conseguir trazer para o texto o pensamento ou emoções que deseja. Obter das palavras que emanem “um discreto cheiro de pólvora” é magia pura, é transformar sentimentos em signos linguísticos, quer dizer, torcer um nível de realidade para outro, trabalho de Hércules a que o escritor se entrega, modesto e solitário, longe dos olhos do leitor. A ele só é dado o presente do “ponto final do fim”.

Convido o visitante:
1. a visitar meus trabalhos acadêmicos em "Páginas" (ver, à direita, depois de "Arquivo do blogue");
2. a ir ao site do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM)/UFRJ por aqui.
3. a ver, ainda, minhas atualizações de hoje em meu blogue
Poema Vivo (vá por aqui) e Conto-gotas (clique aqui).