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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O que o texto revela - Palavras sobre palavras 21

Eliane F.C.Lima

Começo, chamando a atenção para o fato de que este blogue completou, no dia 21 de setembro, agora, um ano. É herdeiro do Literatura em vida, que lá ficou, com problemas de operacionalização. Convido o leitor a ler minha primeira postagem, clicando no link.

Neste ensaio, faço a análise de quatro contos da antologia Os cem menores contos brasileiros do século1, organização de Marcelino Freire, utilizando-me de conceitos defendidos por Umberto Eco em Os limites da interpretação2. A escolha dos textos se deu por seu tamanho e por serem construídos em cima de vazios a serem preenchidos na leitura, que desafiam o leitor em seu processo de entendimento do texto.
A discussão do semiólogo se faz, em grande parte, sobre três elementos que sempre vêm à baila, quando se fala sobre a interpretação de um texto: o que o autor quis dizer ou disse – a intentio auctoris –; a estrutura propriamente dita do texto, com o sistema de significações em que se ampara, independentes das ambições do autor – sua intentio operis – e, finalmente, o leitor, que, modernamente, depois da estética da recepção, foi trazido à frente da cena, com sua interpretação, baseada em seus próprios sistemas de significação, que são motivados por seus aspectos culturais, históricos, ideológicos e até por seus desejos, seu “horizonte de expectativas” – a intentio lectoris – neutralizado o autor, enfim.
Que o leitor realiza, em termos pragmáticos, o texto é uma verdade inegável. Devo concordar com Eco, no entanto, quando salienta que o leitor cria uma hipótese (ou várias) sobre a intentio operis, que deve ser aprovada ou rejeitada inteiramente pelo todo orgânico coerente do texto, o qual tem mecanismos internos que possibilitam o controle sobre as interpretações.
Vamos começar, lendo um texto de Adrienne Myrtes, daquela antologia:

Caiu da escada
e foi para o andar de cima.

Uma leitura que entenda que o conto acima versa “sobre um soldado, que havia partido para a guerra e voltado apaixonado por uma enfermeira”, por exemplo, seria inteiramente repelida por qualquer pessoa que dela tomasse conhecimento. Com um exemplo desse tipo, Eco começa a mostrar que um texto já traz em si as possibilidades aceitáveis ou não, com o que todos temos de concordar. Na verdade, se aceita, tal interpretação valeria para qualquer um dos textos a seguir. A negação inviabiliza a ideia de que haja obra aberta ou de interpretação ilimitada.
Façamos agora uma leitura de significação literal – ou grau zero, como o estudioso nomeou –, entendendo todos os termos em seu sentido mais simples. Bem, isso tornaria o texto, no mínimo, surreal, pois “caiu” invalidaria o “de cima”. Mas esse significado não pode ser inteiramente descartado, visto que o nonsense é uma possibilidade literária. Porém a própria aceitação dessa leitura já anula o termo “sentido mais simples” e instaura, ao contrário, uma visão bastante sofisticada.
Podemos entender, entretanto, “foi para o andar de cima” como morte. Nesse caso, esse significado depende que um leitor traga já para a cena interpretativa esse conhecimento da expressão. Aqui seria o caso de coincidência entre intentio lectoris e intentio operis (possibilidade guardada no texto). Ouso dizer que vejo aí também a intentio auctoris.
Vamos nos debruçar sobre outro texto, de Ronaldo Correia de Brito.

Fumaça

Olhou a casa, o ipê florido.
Tudo para ela.
Suspendeu a mala e foi.

Agora, a liberdade do leitor parece mais garantida pelo próprio texto. Os versos permitem uma mudança radical de perspectiva: alguém que chega a uma casa ou que parte daquela mesma casa, desiludido. Esse mesmo ser pode ser o “ela” a quem o pronome se refere ou um outro que se sente preterido. Até o “suspender” tem a possibilidade de ser lido com o sentido literal ou como “desistir de”, entendendo-se o “foi” como “voltar” ou “ficar”. Todas essas probabilidades estão previstas na indecisão que o texto contém, através de seus mecanismos internos de controle.
O conto a seguir exige do leitor uma visão das circunstâncias momentâneas e ouso dizer que um leitor de outra época não chegará ao mesmo significado ou ficará preso ao sentido literal, perdendo toda a ironia e humor presentes no texto. Lerá um outro texto. Aqui, a bagagem cultural do leitor é fundamental para a realização do significado.
Observemos o “estar denunciando”, o gerundismo, como tem sido chamado, e que tem caracterizado pessoas que trabalham com atendimento, quase sempre, pelo telefone. O formalismo do pronome “senhor” permite a conclusão de que alguém fala com outro hierarquicamente superior numa relação trabalhista. O título completa a relação que os elementos do texto estabelecem.

Assédio sexual

Sérgio Móia

Eu vou estar
denunciando o senhor ainda hoje.

O último texto também prevê um leitor preso ao presente pelo tema instaurado pelo título.

Pedofilia

Marcelino Freire

Ajoelhe, meu filho.
E reze.

Parece, entretanto, querer segmentar esse tema: valendo-se de um ditado popular, agrega-lhe, além de seu significado metafórico, um outro literal, de religiosidade, na ligação que estabelece com o título, remetendo aos escândalos que a mídia tem estampado atualmente. Deve-se perceber que, se o texto afiança tal entendimento, pode-se entender que essa era, realmente, a intenção do autor, que, afinal, vive em seu texto.

Aguardo você em Poema Vivo (aqui) e Conto-gotas (aqui). Há poema e conto novos ali.

2 comentários:

ju rigoni disse...

Parabéns, Eliane, pelo primeiro aniversário do seu excelente Literatura em Vida, blogue onde muito aprendo.

Adorei o artigo. E o conto do Marcelino Freire é o meu escolhido dentre os que aí estão.

Bjs, amiga. E inté!

L. Rafael Nolli disse...

Eliane, um ano! Parabéns! Que venham muitos e muitos e muitos!
Abraços!