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domingo, 24 de outubro de 2010

"Essa gente raivosa" - Comentando... 13

Eliane F.C.Lima

Aos cinquenta e nove anos, conhecendo pessoas de todos os tipos, o ser humano, contudo, ainda tem me surpreendido. Vejo que, nesse aspecto, ainda morrerei menina.
Primeiro: surpreendi um de meus textos deste espaço, adulterado, numa suposta brincadeira, no blogue de uma pessoa com quem me correspondia por e-mail e a quem tinha em grande consideração intelectual – será isso a que chamam “fogo amigo”? Mesmo assim, aguardei desse “quem”, sabedor ele de que eu reconheci meu texto, até hoje, um e-mail, que, pelo menos explicasse o fato, coisa que fazem pessoas adultas, para usar um atributo bem isento, o que teria amenizado a decepção no campo das ideias e, provavelmente, teria alimentado nossa amizade, levando-a adiante.
Se imagino, ainda agora que tal pessoa não me respeita profissionalmente, o mesmo sentimento sobre ela me ficou e acabará se sedimentando, o que é lamentável. Nenhum desapontamento me cala mais fundo do que o intelectual.
Segundo: tendo declarado em meus três blogues meu voto a Dilma Rousseff, coisa que o farei de novo, no dia 31-10, a maioria de meus frequentadores assíduos desapareceu. Numa certa época, isso era chamado de “patrulhamento ideológico”. No respeitável blogue Céu aberto (vá por aqui), há uma postagem, na qual se diz a mesma coisa, para se verificar que não é apenas uma vazante de maré deste meu blogue ou sensaboria de meus textos.
Ainda me recuperando da decepção virtual, fui surpreendida por uma decepção ao vivo e a cores, principal motivo daquele título lá em cima. No último dia 20 de outubro, estando eu no Rio de Janeiro – grande saudade! – e tendo recebido um botom do PT de presente – não acho os meus depois da mudança de casa –, coloquei-o imediatamente em meu peito.
Ao entrar em um restaurante de autosserviço – ora do almoço, ninguém sabia ainda da famosa história da bolinha de papel –, fui até a banca de comida, prato na mão, aproximando-me, involuntariamente, de duas pessoas. Uma delas, uma senhora bem idosa e muito bem vestida, acompanhada de outra com o mesmo requinte, mas um pouco mais nova, e que talvez tenha me confundido – do lado em que estava não via meu botom –, mostrou-me à segunda, indicando-me como “amiga” da outra. O sorriso meigo dela me mostrava o engano. Retribui o sorriso. Então fui surpreendida com o maior ataque de que já fui vítima: sem nenhum motivo, sem eu ter aberto minha boca em momento nenhum, a “requintada” senhora começou a me agredir, dizendo que não era minha amiga, que jamais seria amiga de uma pessoa do PT, que tinha alergia a “essa gente”, que não gostava das atitudes do pessoal do PT. E começou a falar alto com a idosa, a empurrá-la, dizendo que a outra fosse sentar à mesa, visivelmente furiosa, quando eu lhe respondi que também não queria ser amiga dela e que estava claro que ela era amiga do outro candidato.
Vi a volta de um vocabulário de que eu havia me esquecido e que pensei que estava sepultado após o governo Lula, época em que mostrou que o partido não é insensato nem toma nenhuma atitude radical. Pelo contrário, a esquerda mais inflexível, por assim dizer, andou acusando seu governo de estar se dirigindo para o centro, imaginem. A prova da seriedade e confiança no partido foi todo o capital estrangeiro aqui aplicado, não havendo aqui nenhum elogio meu a esse fato, apenas a prova de que os de fora superaram a desconfiança “nessa gente”. A agressão me horrorizou, sentimento que já vinha me dominando pelas tentativas de algumas pessoas mostrarem ainda o partido como terrorista em todos os e-mails falaciosos que circularam pela rede e pela farsa montada sobre o ataque ao tucano, endossada pela mídia mais perigosa, que morre de medo de ter regulamentada a lei que tira de suas mãos o cartel e o direito de decidir sobre a república (do termo latino res – coisa – pública) e a democracia, mídia que recorreu a um autoproclamado “perito” – ver no site do jornalista Luiz Carlos Azenha , reprodução das declarações dos verdadeiros peritos no trecho intitulado “Desafio de peritos” (este é o caminho).
Então eu vejo que não era à toa que Adriana Calcanhoto cantava “eu não gosto do bom gosto,/eu não gosto do bom senso”, numa franca ironia aos que se sentem “finos” e donos da verdade. Elite, enfim. Que perde a pose, desce do salto e mostra seus mais vis instintos humanos, quando imagina que está sendo ameaçada naquilo que é seu direito: manter o povo longe do poder... e de si. Quantas vezes não ouvi eu, cinicamente, "dessa gente", que afinal, a sociedade precisa de “garis e empregadas domésticas”?
Podemos ver que o epíteto era atribuído ao grupo errado e “essa gente raivosa”, da qual aquela senhora bem vestida é uma sinédoque (a parte pelo todo; o indivíduo pela espécie), havia estado calada durante oito anos, mas está apenas aguardando para mostrar-se novamente, se possível, ainda nesta eleição ou de qualquer outra forma – alguns têm mencionado um golpe, agora explícito, quando as forças que se mostram midiaticamente perderiam a vergonha – para continuar a sequestrar pessoas, levá-las para os porões, torturá-las, seviciá-las, esquartejá-las. Estava lá a operação OBAN – operação Bandeirantes (ver maiores esclarecimentos no site da Wikipédia), que não me deixa mentir, tendo os militares, sozinhos, levado a culpa daquilo que a sociedade civil ajudou a construir.
Enfim, o meio não importa, o ser humano sempre arranjará um jeito de mostrar sua verdadeira natureza. Já dizia um sábio amigo meu que “essa gente raivosa” usa roupas caras, frequenta lugares elegantes e não usa botom.

É à custa dos "que têm fome" que a minoria ainda mantém seu "bom gosto" e seu "bom senso". A canção que você ouviu é de autoria de Adriana Calcanhotto e denomina-se “Senhas”. Está no CD de mesmo nome. Aconselho a compra da obra, como eu fiz. Lá estão também as canções “Mentiras” e “Esquadros”. Custa bem pouco para o enorme valor que tem. E se paga à autora o que ela tem direito. Agradeço ao Youtube o vídeo (está aqui).



Convido meus leitores a meu blogue Conto-gotas (link) e Poema Vivo (link). Estou ainda em Debates Culturais (link), onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima. Recomendo ainda, nesse mesmo endereço, a excelente Cintia Barreto, além de todos os outros.

11 comentários:

A ilha dentro de mim disse...

Cara Eliane,
a política (tal como a religião e o futebol) tem essa capacidade de mexer com os instintos mais básicos das pessoas, independentemente de serem de esquerda ou de direita. Tenho a certeza de que as reacções dependem mais dos valores das pessoas do que da sua formação ideológica. E posso dizer que acontece o mesmo em Portugal. Aliás, eu própria tive algumas experiências do género das suas quando no ano passado aceitei ser candidata a deputada ao Parlamento português. Vi amigos mudarem e conhecidos passarem a inimigos durante a campanha eleitoral. Vi pessoas que mal me falavam passarem a adorar-me, e outros que me adoravam quase não me falarem. Tal como vi o meu blogue ser alvo de insultos e comentários anónimos, depois de ter perdido alguns dos meus comentadores habituais (que continuam a ler, mas deixaram de comentar para não serem conotados politicamente...). É o preço de defendermos aquilo em que acreditamos. E tenho a certeza de que, independentemente do resultado, valerá sempre a pena lutar pelas nossas convicções.
Saudações de Portugal,
Lídia

ju rigoni disse...

Não sou PT nem PSDB. Aliás, os amigos virtuais que me acompanham há muito tempo sabem que não tenho um partido. Quando voto, voto na pessoa. Mas defendo o direito de cada cidadão expressar sua escolha como bem entender; seja através da palavra, de uma bandeira, de um botton, de um boné... Enfim, desde que não haja violência de qualquer
tipo no sentido de fazer valer uma opinião sobre a do outro. Lamentável o que aconteceu com você no restaurante.

Quanto à adulteração do seu texto, publicado sem o seu conhecimento, realmente deve ter sido uma decepção. Eu já sofri alguns golpes semelhantes. Porém, jamais isso partiu de alguém que eu considerasse um amigo virtual. Geralmente, são pessoas que não me conhecem que, de passagem por um de meus blogues, copiam meus textos e os publicam sem o devido crédito e, às vezes, com muitas
alterações.

Outra coisa, quando declarei meu voto em Marina alguns visitantes também desapareceram do meu blogue.

Bjs, Eliane. Siga em frente. Inté!

Guidinha Pinto disse...

Menina! Desculpe o termo, mas tem sotaque e tudo.
Quando vivemos em Liberdade, é mesmo assim. A má formação das pessoas, independentemente das aparências e da camada social a que pertencem,leva-as a confrontos desnecessários e a máscara cai. É o Medo e a mania da superioridade que as leva à agressão.
É horrível assistir a cenas dessas. É horrível estarmos em 2010e não termos aprendido a respeitar-nos.
Quem sou eu para lhe dizer «siga em frente»?! Sou uma mulher a aprender a viver em Liberdade. E há momentos, em Liberdade, em que «mais vale ser um cão raivoso do que um carneiro...»
Boa sorte para a sua candidata e para todos os que acreditam nela.
Beijo

Angélica T. Almstadter disse...

Primeiro obrigadíssimo pela visita em um dos meus blogs( o coletivo) e em segundo eu gostei de ver a sua determinação e coragem, pq como eu também se viu de uma hora pra outra colocada de lado pela escolha por Dilma, pela escolha ideológica pela social democracia.
Eu senti no meu meio mais íntimo o engajamento feminino, principalmente o medo das pessoas se exporem, além de colocarem à margem pessoas como nós que tem a coragem de defender sua ideologia e declarar o voto. Certamente vc ganhou uma admiradora, pela força que transmite com elegância e pela coragem de dar a cara a tapa sem deixar de lado a sua escrita que é maravilhosa. abço

Guidinha Pinto disse...

GANHOU!!!! Até me emocionei e por sua causa! :)
Parabéns a esse Povo! Ganhou o bom senso contra à falta dele.
Valeu a pena dar a cara e estar de alma limpa nessa candidatura.
E agora Eliane? Desejo-vos a continuação de prosperidade.
Um grande abraço e um beijo.

carol disse...

Olá Eliana, primeiramente gostaria de agradecer a visita no blog do coletivo Maria Maria Mulheres em Movimento e o gentil comentario. E vim retribuir a visita e dizer que continuaremos em frente sim, com certeza, e isso só é possivel por ter pessoas como você que acreditam na militancia.

Gostaria também de parabenizar pelo sues blogs, dei uma passeada por alguns textos e gostei bastante de seu trabalho. Me identifiquei bastante com uma frase usava por vc na sua descrição "É urgente modificar o cânone, feito por e para homens". Sou estudante de filosofia e pesquiso Simone de Beauvoir. Sofro bastante preconceito dentro da academia em função disso, tendo em vista a autora não ser por muitos considerada filosofa.

Quanto ao episódio citado por vc no restaurante, lamentavel. Mas essa campanha suja propiciou esse tipo de comportamento e revolta nas pessoas. Atuei durante a campanha inteira por candidatas(os) do PT, e ouvi mta coisa absurda por isso. Mas valeu a pena engolir todos os sapos, com mta luta elegemos a primeira mulher presidente do Brasil, e melhor, petista.

Será um prazer acompanhar o seu blog.

Um grande abraço

Carol

carol_radd@yahoo.com.br
@carolradd

Cintia Barreto disse...

Eliane,
Realmente, é incrível a capacidade de muitas pessoas não respeitarem os outros, suas demandas.A luta é sempre por vaidade, orgulho e individualidade. Eu também votei na Dilma, principalmente, para ajudar os mais necessitados que eu. "Liberdade ainda que tardia."
Obrigada por me recomendar. Você sempre uma Doutora generosa!!!
Estou te esperando em dezembro. Vamos marcar eu, você e Viviane apenas para botarmos o papo em dia pessoalmente.
Beijo no seu coração!

Marise Ribeiro disse...

Querida amiga, eu comentei com você algumas vezes que estava matando um leão por dia, nesta internet, para defender minha posição à favor da Dilma. A direita é raivosa e ridícula, pois não consegue sustentar um argumento inteligente. Apelam para agressões, mentiras e acusações que não se sustentam tamanha é a inverossimilhança das denúncias.
Eu e Gilberto andamos com adesivo no peito e enfrentamos olhares atravessados, cochichos e risinhos, mas ninguém se dirigiu a nós com comentários. Estávamos preparados para rebater, assim como você.
Tenho acompanhado os ataques preconceituosos contra os nordestinos, não sei se você também leu algo sobre isso, e é de revoltar o estômago. Aliás, como bem disse o Lula, a oposição acerta bem no estômago.
Quanto à pessoa que adulterou seu texto, ela deve ter deixado toda a sua dignidade, se é que a tinha, votando no Serra.
A elite raivosa terá de se render à inteligência e ao poder de uma mulher.
Beijos,
Marise

Rodrigo Passos disse...

interessante!

L. Rafael Nolli disse...

Fui Dilma e sou Dilma - com fé que as boas conquistas continuem e que venham uma centena de outras conquistas! Tenho visto, ao longo desses anos, uma classe de escritores - quase sempre poetas! - absurdamente caretas, conservadores! Uma pena! Estou contigo!

Poemas Tecidos disse...

Nós nos surpreendemos a cada momento conosco, seja postiva ou negativamente. Também nos surpreendemos com as atitudes de quem está próximo a nós, muitas vezes atitudes ríspidas devido a diferença ideoógicas. Tenho aguentado a extrema arrogância dos "torcedores" da direita, dos que torcem contra o Brasil, na verdade. Independente de quem ganhasse a eleição, pedi a Deus que o (a) iluminasse. Como foi Dilma, que ela poss governar o Brasil com justiça e melhor que nosso Lula, se for possível.

Um texto excelente, muito bem escrito por quem sabe muito e ainda tem muito a nos ensinar.

Abraços.