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sábado, 12 de março de 2016

Parte III - Os fenômenos fundamentais da Criação Literária

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - Rio de Janeiro)


Resumo das postagens anteriores sobre o pensamento de Käte Hamburguer:


1. ENUNCIADO DE REALIDADE: A presença de um sujeito-de-enunciação caracteriza um enunciado de realidade. Não é o conteúdo de realidade que marca tal enunciado. Mesmo que se identifiquem elementos “invencionados” ali, fantasiados, isso não descaracteriza a realidade, porque o sujeito-de-enunciação é sempre real.





2. TEXTO FICCIONAL: É a presença de personagens em suas ações, em suas próprias falas – a mimese aristotélica –, que indica o texto ficcional. O narrado deixa de estar no campo da experiência ou de vivência do sujeito-de-enunciação e passa para o campo da vivência de personagens.


3. Há aspectos linguísticos – nomeados “sintomas” pela escritora –, que são identificados por ela e que estabelecem, então, a “lógica” da criação literária – tese do livro estudado –, os quais, dependendo de sua natureza, tanto mostram o enunciado de realidade (a não ficção), como o contrário, o texto ficcional.



Nesta postagem, serão mostrados os elementos que Käte Hamburguer aponta para identificar um sujeito-de-enunciação e seu enunciado de realidade X o texto de ficção, o que realmente interessa ao leitor. Tal estudo foi direcionado aqui para textos de Literatura Brasileira (ALMEIDA, Manuel Antônio. Memórias de um sargento de milícias. Ed. Crítica de Cecília de Lara. Rio de Janeiro:livros Técnicos e Científicos, 1978. p. 5) (biblioteca Universitária de literatura brasileira: Série C, ficção, romance e conto; v. 2), acessíveis, portanto, a todos os leitores brasileiros.



Texto 1


Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo – O canto dos meirinhos –; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se fechavam o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações, provarás, razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamavam o processo.

Daí sua influência moral. (pág. 6)


Inicialmente, observemos o dado curioso de que este recorte de romance apresenta a mesma estrutura linguístico-lógica que o trecho da biografia do escultor Michelangelo Buonarroti, por exemplo. É construído de tal modo que poderia ser proveniente de um relato histórico. Se nos fosse apresentado esse segmento, desligado do romance, compreenderíamos aquele local retratado como o campo de experiência do sujeito relator, podendo ser esse considerado um sujeito-de-enunciação teórico, como no caso da biografia de Michelangelo Buonarroti. Havendo no texto acima um sujeito-de-enunciação, estamos no caso de um enunciado de realidade e não de um texto de ficção, segundo a autora em qustão.

Se lermos, porém, esse trecho, sabendo que é o começo de um romance, supomos que a paisagem não faz parte do campo de experiência desse e passa a ser cenário de outras figuras – as personagens fictícias, as figuras de romance –, cuja entrada em cena aguardamos.

Mas o problema não é tão simples assim. Na verdade, enfim, esse trecho, apesar de fazer parte de um romance, segundo os critérios da teórica, configura-se, sim, como um enunciado de realidade. Comecemos observando o dêitico “aí” (linha 3), que marca uma localização no espaço em oposição a um hipotético “aqui”, não escrito, mas local de onde fala o sujeito enunciador e que não se refere a personagens que surgirão, mas a ele mesmo.

Examinemos também os tempos verbais – presentes (“formam”, “são”) e pretéritos (“chamava”, “assentava”, “eram” etc) – e as expressões temporais “nesse tempo”, “de hoje”, “então”, “do tempo do rei”: fica bastante claro que as formas temporais estão fixadas em relação à experiência do sujeito-de-enunciação: observe-se a localização precisa da esquina de “hoje” – tempo atual desse sujeito e sua importância relativamente à lembrança dele ao que era no passado. O uso das relações temporais está preso, estritamente, ao conceito descrito nas gramáticas: pretérito, presente e passado são tempos estabelecidos por um sujeito. Faz parte de um enunciado de realidade, portanto, mesmo que a pessoa leitora já saiba que entrarão, adiante, as personagens de uma ficção.



Texto II

Mas voltemos à esquina.

......................................................................................................................

Entre os termos que formavam essa equação meirinhal pregada na esquina havia uma quantidade constante, era o Leonardo-Pataca.

......................................................................................................................

Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o que, uma certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitota. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. (Mesmo romance, ainda pág. 6)

No trecho, há muitos detalhes a serem observados. Várias expressões ainda denunciam a presença daquele mesmo sujeito-de-enunciação acima: “como dissemos”, “não sei fazer o que”, além do advérbio “aqui” (X Lisboa), que demonstra, ainda sem sombra de dúvidas, o local de onde se posiciona o sujeito narrador. A presença desse sujeito, segundo o conceito expresso da estudiosa alemã, ainda denuncia um enunciado de realidade, mesmo com fortes indícios da presença do “invencionado”, do “fingido”. Seguindo a conceituação aristotélica, a mimese ficcional só se apresenta como tal, quando a personagem age, pensa, fala. Ainda não seria o caso.

Mas a atenção de quem lê já dispara, pois não se pode deixar de observar o significado dos verbos “aborrecera-se” (l.7) e “fingiu”, que são os chamados verbos de processos internos, processos esses que uma pessoa de fora não tem conhecimento sobre outra pessoa em um contéudo de realidade, mas somente em narrativas ficcionais. Esse é um “sintoma” ou aspecto linguístico-semântico marcante, quanto à ficção, que faz parte do que a teórica vem nomeando como “lógica” literária.

Outro detalhe a ser anotado é o emprego dos verbos situacionais. Käte Hamburguer chama a atenção para o fato de que, em um enunciado de realidade, transcorrido no passado autêntico, tais verbos, do tipo “sorrir”, “andar”, “deitar”, ou seja, de significado extremamente momentâneo, são impossíveis de serem usados. Eles não cabem em situações passadas reais. Registremos as ações situacionais em “assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito”; “sorriu-se como envergonhada...”; “deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão...”. Só a narrativa ficcional, como se vê, prevê e permite o uso largo de tais verbos. Diz lá a autora:




Em asserções sobre situações reais empregamos tais verbos de situação no imperfeito somente com referência a situações temporais próximas, porque designam uma situação concreta, ainda visualizável e lembrada pelo enunciador. (p. 67)


Já se pode perceber, desse modo, que os verbos no passado listados nos dois casos deixam de ser tempos gramaticais, pois não têm mais uma ligação específica com o sujeito de enunciação, perdendo sua função e capacidade marcadora do passado, para serem apenas recursos ficcionais. Têm ligação com as personagens. O enunciado de realidade passa a dar lugar ao texto narrativo ficcional. Os aspectos temporais deixam de ser os gramaticais – reais, autênticos –, ao se esvaziarem do campo da vivência do sujeito-de-enunciação, porque a narrativa entra no campo da experiência das personagens épicas, que fazem a literatura narrativa.

Transcrevamos alguns trechos das próprias palavras da estudiosa em seu citado livro:

Pois não tinha sido posto em discussão que o pretérito possa deixar de ser, em algum lugar qualquer da manifestação verbal, a expressão de acontecimentos passados. (p.46)



A mudança de significação, porém, consiste em que o pretérito perde a sua função gramatical, que é a de designar o passado. (em itálico no livro, p. 46)



Pois é somente a entrada em cena, ou seja, a expectativa da entrada da eu-origo fictícia dos personagens do romance, a razão para o desaparecimento da eu-origo real e concomitantemente, em consequência lógica, para a destituição pelo pretérito da sua função de passado. (eu-origo é um termo pelo qual a autora substitui, agumas vezes, sujeito-de-enunciação ou sujeito/personagem por questões epistemológicas. p. 53)



(…) o que significa do ponto de vista da Teoria Literária a noção de personagem fictício e por que é apenas a sua entrada em cena que dá à narração o caráter de não-realidade, tirando, consequentemente, ao imperfeito o seu significado de passado. (p. 53)



Pois nenhum texto pode esclarecer mais nitidamente que com este imperfeito desaparece a eu-origo do narrador, retira-se da narração, dando lugar às eu-origines fictícias dos personagens.


A expressão “não era nesse tempo de sua mocidade” não marca um tempo em relação ao presente do sujeito-de-enunciação, porém em relação ao próprio tempo da narrativa de Leonardo-Pataca, personagem que já começa a surgir como ser agente, quando a mimese aristotélica começa a ser introduzida. Na mocidade, ou já na velhice, muitos anos depois, Leonardo-Pataca continua a ser narrado no passado, que mostra assim o enriquecimento ficcional conseguido com esse tempo épico, em detrimento de sua temporalidade gramatical. 
 

Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Segui-se a morte de D. Maria, a do Leonardo-Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que pouparemos aos leitores, fazendo aqui ponto final. (Memórias de um sargento de milícias. p. 209)


Alguns dados acima, secundados pela teoria da escritora alemã, devem ser destacados e resumidos:



1. Um enunciado de realidade é comandado por um sujeito-de-enunciação, que é sempre real. Um “aqui” espacial real – lugar de onde esse sujeito enuncia – e verbos com seus aspectos temporais também reais, por acontecerem em relação a um “sujeito que fala”, como conceituam as gramaticas, são exemplos linguísticos desse sujeito-de-enunciação. Quando surge um pretérito, o tempo é realmente pretérito. 

 

2. Há uma lógica da criação literária, da ficção, que é construída – e identificada, posteriormente, – por aspectos línguísticos, além da presença de personagens que agem e falam por si mesmos:

a. verbos situacionais e de processos internos – impossíveis de serem usados em enunciados reais – que surgem na narrativa.

b. verbos que estruturalmente estão no pretérito, mas são vazios de sua intencionalidade temporal. São mecanismos narrativos. Fazem parte do processo mimético aristotélico, ou seja, realizam-se na presença das personagens que agem e falam.

O estudo superficial feito aqui sobre toda a conceituação da “lógica” literária, feita por Käte Hamburger, não substitui o mergulho em seu livro. A intenção é apenas aguçar a curiosidade da/do visitante e incentivá-la (lo) a estudos mais aprofundados, para enriquecimento da pessoa leitora, chegando-se até à possibilidade de questionamentos ou refutação dos argumentos e conclusões da teórica. Possivelmente farei, em uma outra ocasião, um estudo sobre suas concepções sobre a narrativa em primeira pessoa, interessantes e inovadoras, sobre as quais tenho claras discordâncias. 

 

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Parte II - Os fenômenos fundamentais da Criação Literária

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - Rio de Janeiro)


Hoje vou fazer a segunda postagem sobre a teoria de Käte Hamburger, a estudiosa alemã sobre a qual se falou anteriormente. Serão colocados aqui alguns pontos fundamentais anteriores, embora resumidos, para que a/o visitante consiga acompanhar o que vem pela frente.

1. Ela segue o caminho da “lógica” da criação literária, em detrimento da busca estética. Esse encontro da “lógica” se dá, essencialmente, por aspectos linguísticos.
2. Na busca dessa lógica, focalizará a tensão conceitual entre “criação literária” (apenas como literatura narrativa e dramática) e “realidade” (“realidade” em seu sentido de confronto ou relação com a ficção).
3. Ela segue, ainda, o pensamento aristotélico da mimesis (como sinônimo de poiesis) como ficção em que a personagem surge no texto através de suas próprias ações e de sua voz.
4. Propõe que se estude e estabeleça a linguagem da criação literária justamente pela diferença com a linguagem da realidade.
5. Para isso, vai pelo caminho inverso: examina os critérios da linguagem não poética, ou seja, da linguagem comprometida com a realidade, o sistema enunciador da linguagem, do enunciado de realidade.

xxx

Faremos, então, a partir daqui um estudo do enunciado de realidade - “ toda enunciação é uma expressão da realidade”, disse a escritora –, usando para isso textos publicados aqui no Brasil, para maior entendimento da pessoa leitora brasileira e porque, em síntese, é a nossa cultura que nos interessa, afinal. Para tal, no entanto, é necessário que se entre antes em contato com certos conceitos estabelecidos pela estudiosa.

Enunciado

O enunciado, que sempre é um enunciado de realidade, é a enunciação de um sujeito-de-enunciação sobre um objeto-de-enunciação (o conteúdo). O caráter e a função do enunciado são reconhecidos pelo enfoque no sujeito-de-enunciação.

Enunciação

Apresenta-se como a estrutura sujeito/objeto da língua. No enunciado “eu enuncio algo” (enunciação em si): o enunciado é a enunciação de um sujeito (eu) sobre o objeto (algo). A fórmula de enunciação, segundo a filósofa alemã, não é válida para a criação do gênero narrativo, o que é um dado extremamente relevante como diferencial para se conhecer o genêro narrativo. Mas ela é válida em todo o domínio restante da linguagem. A estudiosa também reconhece a validez da fórmula da enunciação para a criação lírica. Como afirma que toda enunciação é uma expressão da realidade e fundamento para determinar a diferença “realidade” X “criação literária”, já podemos inferir que Käte, então, aparta o gênero lírico da criação literária e o aproxima da realidade.

Guardemos esses dois dados:
1. A presença da fórmula de enunciação (expressão da realidade) indica que não há ali gênero narrativo.
2. Há validez da fórmula da enunciação (expressão da realidade) para a criação lírica também. O gênero lírico estaria próximo da realidade e longe da criação literária.


Objeto-de-enunciação

O objeto é o conteúdo da enunciação em qualquer modalidade proposicional (enunciativa/declarativa; exclamativa; interrogativa etc).


Sujeito-de-enunciação:

Não confundi-lo com o eu-emissor da comunicação que se opõe a um “tu-receptor”, fora do texto (eu-emissor/tu-receptor). O sujeito-de-enunciação sempre enuncia exclusivamente em relação a seu objeto-de-enunciação (sujeito/objeto). O sujeito-de-enunciação é o elemento estrutural da estrutura da linguagem. A análise do sujeito-de-enunciação converte o enorme campo temático-material dos enunciados em um sistema de três categorias:
a. sujeito histórico – definido, individual. ex.: presente em uma carta.
b. sujeito teórico: geral, interindividual. ex.: responsávelpor uma sentença matemática, texto científico ou lógico; texto teórico, enfim.
c.sujeito pragmático: quer algo referente ao objeto-de-enunciação. ex.: pergunta, ordem, pedido.
Examinemos o texto abaixo, retirado de Michelangelo, da Coleção “Mestres da pintura”, da Abril Cultural, 1 ed, 1977, página 6, e que é identificado, no final do livro como de José Arrabal Fernandes Filho, responsável também pela pesquisa.

Nos seus 89 anos de vivência no mundo das artes e no universo social europeu, Michelangelo ascendeu a uma estatura jamais alcançada anteriormente por qualquer outro artista. Viveu um tempo de gênios e de obras grandiosas, numa época de grandes transformações nas mentalidades, na economia e na política.

Objeto-de-enunciação: biografia do escultor Michelangelo Buonarroti.

Sujeito-de-enunciação: um biógrafo (sabe-se depois), que pesquisa e escreve o texto, por encomenda da Coleção “Mestres da pintura”. É um sujeito-de-enunciação geral, interindividual. Está de tal modo indefinido, que seu nome nem aparece encabeçando o texto e só ao final da publicação, por uma questão legal, provavelmente, é citado. Tal sujeito-de-enunciação teórico, entretanto, apesar dessa busca pela objetividade textual, por seu apagamento, também é um sujeito real.

Começamos a reconhecer que esse é um enunciado de realidade. Mas, conforme nos ensina a teórica, não é a realidade do objeto o que dá a esse enunciado seu caráter de realidade, senão a do sujeito-de-enunciação, sujeito identificado como real.
Nesse caso, como é um enunciado e de realidade, com um sujeito-de-enunciação real, já podemos afirmar, com Käte Hamburguer, que não é um texto de criação literária.

Para enfatizar e esclarecer isso melhor, fazendo um paralelo com o que diz a estudiosa, devemos nos reportar ao filme documentário “Cinco vezes Chico – o velho e sua gente”, recentemente lançado, em que vários pescadores, seguindo o ritual da “mentira”, fazem relatos flagrantemente imaginativos e grandiosos, para delícia dos espectadores. Pois bem, esses relatos, ao contrário do texto lido acima, embora tenha objetos-de-enunciação invencionados, termo da própria escritora, são enunciados de realidade, porque seus sujeitos-de-enunciação são reais, eles são o fator decisivo. Como a escritora afirma na página 30:

A enunciação sempre é real, porque o sujeito-de-enunciação é real, porque, com outras palavras, uma enunciação somente pode ser constituída por um sujeito-de-enunciação real, autêntico.

É somente com o esclarecimento da noção de realidade concernente ao sujeito-de-enunciação que se pode iluminar a estrutura do enunciado de realidade (…).

Então, invencionado ou real, não é o objeto o marcador do enunciado, mas o sujeito-de-enunciação.

No prefácio de Manuel Bandeira a Cartas a Manuel Bandeira, de Mário de Andrade, provavelmente livro póstumo, da Ediouro, Coleção Prestígio (sem indicação de data ou edição), diz o poeta:

Tive com Mário de Andrade uma correspondência epistolar que se iniciou em 1922 e se prolongou sem interrupção até a sua morte. Mário escreveu milhares de cartas. Nunca deixou carta sem resposta. Creio, no entanto, que as de nossa correspondência têm importância especial, porque comigo ele se abria em toda a confiança, de sorte que estas cartas valem por um retrato de corpo inteiro, absolutamente fiel. (p. 13)


Aqui também temos um enunciado de realidade, cujo objeto-de-enunciação são as cartas do escritor modernista Mário de Andrade e um pouco de sua personalidade. Mas, continuemos a entender que, o que faz esse compromisso com a realidade, é a enunciação de um sujeito real, aqui classificável como sujeito histórico, porque definido, individual. Notemos a presença dos verbos e pronomes de primeira pessoa, ali, personalíssimos. Como diz Käte Hamburger, na página 34: “o que foi enunciado é o campo da experiência ou de vivência do sujeito-de-enunciação.”

A próxima postagem irá analisar, finalmente, textos narrativos, ficcionais. Confrontando-os com os argumentos caracterizadores do enunciado (de realidade), ressaltar e definir a “lógica” da criação literária.


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sábado, 5 de dezembro de 2015

Os fenômenos fundamentais da Criação Literária - parte I

(Imagem da Internet)
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - Rio de Janeiro)
Conforme anunciei, vou começar a postar alguns comentários sobre a teoria de Käte Hamburger (1896/1992), filóloga, filósofa e teórica literária alemã – primeira mulher a ganhar um grau de pós-doutorado em estudos literários alemães –, desenvolvida no livro A lógica da criação literária, 2.ed, de 2013, da Editora Perspectiva. Minha tentativa será exemplificar com escritores da Literatura Brasileira, para maior entendimento e aproveitamento. Para maiores informações sobre a estudiosa, remeto ao link (Atenção: este link pode levar a um site com cookie./Please: this link can lead to a site with cookie). 
Para conhecer os critérios da linguagem poética, a autora reconhece uma “lógica da criação literária” e opta pelo estudo desse caminho, visitando, indiretamente, uma lógica da poiesis aristotélica, destacando-a da estética da Arte Literária, diferentemente do que sói acontecer com os teóricos dessa área. Vale a pena ler seus trechos abaixo.  


A lógica da Arte Literária tem por objeto a relação da obra com a linguagem , mas relação diferente daquela compreendida pelas teorias acima [a Lógica, a Filosofia, a Teoria do pensamento etc]. Não considera a linguagem em sua função descritiva e expressiva nem por conseguinte o fato mais ou menos trivial de que a Literatura é a arte da linguagem no sentido verbal. É antes desenvolvida a partir da circunstância de que a linguagem como material configurativo da criação literária é ao mesmo tempo o veículo através do qual se realiza a vida humana propriamente dita. (VIII) 

 
A lógica ou lógica linguística da criação literária (…) pode ser designada com maior precisão como teoria da linguagem, que tem por objetivo examinar se e até que ponto a linguagem que produz as formas literárias (afirmação que por ora aceitamos) é funcionalmente diferente da linguagem usual de pensamento e de comunicação. (VIII)


A lógica literária deve ser compreendida, portanto, no sentido de teoria linguística, sendo que esta teoria linguística será desenvolvida a seguir como teoria do enunciado (...)(IX). 


 
Esse afastamento que Käte faz da “estética”, optando pelo estudo da estrutura “lógica”, da regularidade da criação literária, fica claro quando a autora mostra que as leis lógicas de tal criação são absolutas, ou seja, a linguagem origina literatura tanto numa obra como O Otelo, de Shakespeare, como num conto ruim, por exemplo, sem se prender ao sentido estético. As leis lógicas são objeto do conhecimento e desconhecem a noção de positivo ou negativo. Nisso se afastam das leis estéticas, que, ao contrário, são relativas. São conceitos de valor.

O tema fundamental da “lógica” estudada pela teórica alemã é a tensão conceitual entre “criação literária” e “realidade”, que sempre serviu de base às considerações da Teoria Literária. A novidade é que, no livro em questão, “realidade” aparecerá apenas em seu sentido de confronto ou relação com a ficção: de um lado, o modo da realidade da vida humana e, de outro, o modo criado e representado pela Literatura, o “conteúdo” das obras literárias.

Começa aqui um dado interessante do texto em questão: Käte Hamburger, inicialmente, chama a atenção para o fato de que essa tensão “criação literária X “realidade” aponta na direção da literatura narrativa (romance, conto etc) e dramática (teatro), não incluindo o gênero lírico. A justificativa está no estudo de Aristóteles, a sua Poética. Ao contrário do que modernamente se entende, para o filósofo grego, o gênero lírico, a que costumamos chamar de “poesia”, não pertenceria à poieses, mas a outro domínio das obras literárias.

O argumento está em que Aristóteles usava, com identidade de sentido, os termos poiesis e mimeses, uso idêntico, segundo a autora, na obra de Auerbach, Mimesis. Para o grego, a palavra mimesis não significaria apenas “imitação” da realidade, mas a introdução de personagens com seus caracteres, paixões e ações: o escritor deveria falar o menos possível e dar voz livre às personagens, que assumiriam, por si mesmas, suas falas. Isso seria mimesis: o autor narraria de maneira mimética, quando os deixasse falar por si.

Como já se antecipa, o gênero lírico não se utiliza de personagens e que falam prioritariamente por si. A natureza de tal gênero, segundo ela, seria bem outra.

Então já se deve registrar aqui uma primeira conclusão: uma forma literária – literatura ficcional ou mimética, entenda-se –, que faz agentes que falam por si, ou seja, seres fictícios vivendo no modo da mimesis e não da realidade (diferentemente da “lírica”), está no sistema global da Arte Literária. Essa diferença entre narrativa-drama X lírica tem significado para a estrutura lógica do sistema literário.

Como se disse a princípio, a estudiosa alemã escolhe estabelecer os critérios da linguagem poética:


Mas, conforme já o estabelecemos como um problema na introdução, é de fato o material linguístico da criação literária que estabelece finalmente o conceito de realidade e ficção e, através disso, o conceito e o sistema da criação literária em si. (p. 6)

 
Käte propõe que se estude e estabeleça a diferença entre a linguagem da criação literária e a linguagem da realidade para que surja a estrutura que denunciará de que maneira a ficção se distingue da realidade. É aí que se estabelece a tensão conceitual entre criação literária e realidade. Isso propicia tanto a iluminação da fenomenologia da criação literária quanto a da própria realidade.

Então, há um dado a que se deve prestar uma atenção fundamental neste momento e daqui para a frente: como a teórica deseja estabelecer a estrutura da linguagem poética – entendida, veja bem, como da ficção e do drama – começa a examinar os critérios da linguagem não poética – da linguagem comprometida com a realidade –, ou seja, o sistema enunciador da linguagem, conforme declara na página 22:



toda enunciação é uma expressão da realidade, obtendo-se um fundamento para determinar exatamente a relação da linguagem, e, com ela, da criação literária, com a realidade.



Acrescenta adiante “que não é a noção de realidade em si, mas a do enunciado de realidade que fornece o critério decisivo para a classificação dos gêneros literários. (p. 29 – grifo meu).

Em nossa próxima postagem, fixaremos algumas noções, como a de enunciado, a de enunciação, a de sujeito-de-enunciação e de objeto-de-enunciação, todas referentes a esse primeiro conceito de realidade. 



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