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domingo, 8 de abril de 2012

O tempo da enunciação X o tempo do enunciado (diegese ): anacronias
















Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

I

Neste estudo, que também será dividido em duas partes, será feita uma análise da diferença que ocorre entre a temporalidade narrativa e a do discurso da enunciação. É necessário relembrar, de início, um conceito já exposto, quanto à estrutura de um texto narrativo: há um tempo da história narrada (diegese, enunciado), que se apresenta cronológico, embora fictício, através da menção a datas (dia, mês, ano, semanas) e o tempo da enunciação (o discurso do narrador), que pode não respeitar a linearidade do primeiro, começando, como em Memórias póstumas de Brás Cubas, por exemplo, pela morte da personagem-título e, depois, voltando a seu nascimento. Nesse caso, há um descompasso entre o tempo do enunciado – que vai, cronologicamente, de antes do nascimento da personagem/narrador até depois de sua morte – e o tempo da enunciação, esse, sim, completamente arbitrário e que escolhe, conforme a necessidade organizacional do texto, por qual momento de seu objeto narrado deve começar. No romance citado, focalizar sua morte e estar já morto libera o narrador/personagem de suas ligações sociais de ser vivo e permite que ele conte, sem limites, toda a sua vida. Nesse caso, a inversão, pela enunciação, do tempo do enunciado é fundamental: “Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi.”
A esses saltos temporais, no tempo da história, que podem recuar ou avançar a trechos ainda não narrados, dá-se o nome de “anacronias” e podem ir além de uma necessidade efabuladora e representar todo o “fetiche” – ouse-se o uso de tal termo – de um texto literário. A famosa anacronia do romance citado tem feito a delícia de gerações de leitoras/leitores.
Neste artigo, se fará um estudo breve de alguns aspectos da anacronia em Machado de Assis – Memórias póstumas de Brás Cubas (MPBC), de 1881, Quincas Borba (QB) (de 1891) – e em Manuel Antônio de Almeida – Memórias de um sargento de milícias (MSM) (de 1854) –, sob o aspecto dessa liberdade temporal do narrador do texto em relação à história contada.
São famosas as digressões machadianas, comentários do narrador sobre um determinado tema suscitado pelo enredo, que, intrometendo-se no curso dos acontecimentos e dando ênfase à enunciação, paralisam o tempo cronológico do enunciado. Tais digressões evidenciam, tanto quanto a narrativa, o verdadeiro espírito do texto machadiano:

Parava, e as tentações paravam também. Ele, um Santo Antão leigo, diferenciava-se do anacoreta em amar as sugestões do Diabo, uma vez que teimassem muito. (QB, p. 661)E enquanto uma chora a outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida. (QB, p. 676)

Em muitas passagens, sob um discurso francamente metalinguístico, as palavras daquele que conta a história não poderiam ser mais didáticas quanto à diferenciação entre tempo diegético (cronológico e intratextual) e tempo do discurso do narrador (enunciação) e seu desencontro. De notável, a ironia em relação às escolhas de uma possível figura leitora do primeiro tempo em detrimento do último:

Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração. (MPBC – p. 520)Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem. (MPBC – p. 516)Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida... (MPBC – p. 583).
A próxima postagem concluirá a investigação sobre a utilização intencional, por parte daquele que conduz a narrativa literária – o narrador –, dos desacertos entre o tempo em seu discurso e o tempo cronológico da narrativa, desacertos manipulados como técnica de construção.

Renovo o convite para meus blogues Poema Vivo (link) e Conto-gotas (link).

segunda-feira, 19 de março de 2012

O narrador, personagem da enunciação - Parte II












Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)


Esta segunda parte terá como foco principal a análise do narrador em Quincas Borba (QB), de Machado de Assis, romance filiado ao Realismo, publicado em 1891, e Memórias de um sargento de milícias (MSM), de Manuel Antônio de Almeida, romance coevo ao período literário do Romantismo, pois publicado em 1854, mas que costuma ser classificado como um dos precursores do próprio Realismo, por fugir aos ditames da escola literária de sua época e profetizar a posterior. É interessante ser salientado que o segundo escritor, tendo sido chefe de Machado na Imprensa Nacional, acaba tornando-se amigo do então jovem, auxiliando-o e orientando-o.
Antes de se iniciar o enfoque dos textos propriamente ditos é necessário se fixar um conceito importante: um deles é a diferença entre a narrativa, a história, caracterizada por seu tempo (desenvolvimento cronológico da diegese) e o discurso do narrador. Eles não são coincidentes e podem mesmo se afastar. Se uma diegese (enunciado) é a história de uma personagem, de seu nascimento, adolescência até sua morte, por exemplo, o discurso do narrador (enunciação) pode começar nessa morte, regredir até o nascimento, caminhar para a idade adulta, regredir de novo para a adolescência, até voltar pra o presente do enunciado. A diferença entre esses dois aspectos – o desenvolvimento cronológico, indicado pelo calendário intratextual e o discurso, dissolvido nas frases do narrador – é fundamental para o entendimento. Essa concepção será trazida para o desenvolvimento deste estudo e o de posteriores.
As duas figuras do narrador, em ambos os romances, são, aparentemente, externas à história (diegese), que é feita em terceira pessoa. A observação, porém, evidenciará que, se tradicionalmente tal escolha apresenta um enunciador onisciente e imparcial, alguns elementos irão apontando um ser que, de fora da história, se envolve com ela, apresentando sua subjetividade – um eu que se assume – claramente.
Nos primeiros dois exemplos abaixo os adjetivos “belo” e “abençoada”, atribuídos a uma determinada época, explicitam o partido que toma o narrador em relação ao objeto narrado.

Os meirinhos desse belo tempo não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipo... (MSM – capítulo I)

Quem passasse por aí em qualquer dia útil dessa abençoada época veria sentado em assentos baixos , então usados, … (MSM – cap. I)

Em Machado, a presença de pronomes de primeira pessoa em relação ao próprio narrador externo estabelece um paradoxo discursivo e uma ousadia literária gritante, como se vê nas citações seguintes.

Onde li eu que uma tradição antiga fazia esperar a uma virgem de Israel, durante certa noite do ano, a concepção divina? (QB- cap. XLIII)
Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali apareceu, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia. (QB – cap. IV)
Mas a estranheza da (do) leitora (leitor) não para na subjetividade, no segundo exemplo de Quincas Borba (QB), extrema-se nessa fala do narrador externo, quando cita o romance anterior. A impressão que se tem é de que o narrador do romance Quincas Borba é o mesmo do romance mencionado. No entanto a narrativa naquele é feita pela própria personagem principal, o Brás Cubas. Então fica a dúvida: a quem seria feito esse favor, se os narradores são diferentes, a quem se refere aquele “me” do segundo exemplo? Teria Machado de Assis, esse, sim, autor dos dois romances, se traído, deixando seu discurso dominar a fala do responsável ficcional pelo discurso?
Em alguns momentos de suas falas, os narradores dos textos de M. de Assis e Manuel A. de Almeida vão abrindo mão, ostensivamente, de sua onisciência e declarando sua ignorância a respeito do objeto que narram:

Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o que, uma certa Maria da hortaliça... (MSM – cap. I)

A última hipótese trouxe à fisionomia do Palha um elemento novo, que não sei como chame. (QB – cap. LV)
Observe-se que, no primeiro exemplo, se o “não se sabe por proteção de quem” se apresenta, ainda, impessoal, o “sei” já aparece francamente na primeira pessoa, tão paradoxal quanto em Machado.
O estudo do narrador poderia se prolongar, inclusive se se ampliasse a análise para outros textos de outras autorias. Nessas poucas observações, entretanto, já se pôde constatar que o narrador é uma personagem da enunciação que, a par das personagens do enunciado, tem desdobramentos e implicações técnicas de grande alcance.




domingo, 26 de fevereiro de 2012

O narrador, personagem da enunciação - Parte I

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
 
O estudo, que se inicia e terá duas etapas, será sobre uma entidade textual, o narrador, o responsável por apresentar uma história a um possível leitor. A enunciação do discurso é de responsabilidade desse ser textual, que, de nenhum modo, deve ser confundido com a (o) autora (autor).
Ele pode estar posicionado externamente, ou seja, não é uma personagem do enunciado (heterodiegético) – é bom se perceber, entretanto, que o narrador não deixa de ser um ser ficcional da enunciação – e, nesse caso, a narração se faz em terceira pessoa, ou posicionado dentro de sua narrativa, sendo uma personagem principal (autodiegético) ou secundária (homodiegético) e, como tal, a primeira pessoa dominará o discurso.
A primeira escolha que o autor faz desses dois aspectos – narrador externo ou interno – já é fundamental para o desenvolvimento da narrativa. O narrador de fora do enredo pode possuir uma onisciência, conhecer todos os pormenores, penetrar no pensamento das personagens. E dará ao leitor a certeza de que o que está sendo contado é a verdade ficcional.
Ao contrário, uma personagem que participa do enredo tem esse conhecimento dos fatos limitado e permite a quem lê a possibilidade de duvidar de sua palavra, por estar envolvida no fato narrado, tornando-se, enfim, uma figura parcial. Foi desse dado que se valeu, por exemplo, o escritor Machado de Assis, ao dar a fala narrativa a Bentinho em seu romance Dom Casmurro. Sua preferência por esse tipo de narrador teve um propósito firme: toda a história e a suposição de traição amorosa de sua mulher Capitu é posta em dúvida por ser um testemunho de um marido enciumado, mergulhado na trama. A citação de Otelo, o famoso ciumento literário, que assassinou Desdêmona, a esposa inocente (Shakespeare), aparece no romance, dando a pista. Durante anos a crítica não atentou com profundidade para esse dado. E Capitu entrou para o imaginário literário como a famosa “oblíqua e dissimulada”, segundo a conceituou o próprio Dom Casmurro. Machado, um mestre, conseguiu, a partir da opção pelo narrador interno, esse efeito ambíguo e deixou para sempre uma dúvida que suscitou inúmeras discussões. O romance tem, pois, como tema o ciúme e não a traição. O foco principal é Bentinho e não Capitu.
Mas a alternativa de um narrador fora do enredo não simplifica a escritura de um texto. Dou-me o direito de selecionar alguns trechos de meu conto “Possibilidades” (o texto inteiro pode ser acessado no link) e encaminho a (o) visitante deste blogue para lá). Pede-se o favor de se ler o trecho inicial, um do meio e o final, em que se ressalta em itálico elementos sobre os quais serão feitos comentários.

Início:
Ele se sentava num banco de praça do centro da cidade e olhava para um prédio enorme qualquer. E imaginava um corpo caindo dali. E o povo, que a princípio tinha corrido de susto, ia se aproximando para ver bem visto, curiosidade sádica de ser humano.
A mulher se chamaria Teresa, com certeza. Tinha sido traída pelo marido. A nonagésima vez, provavelmente. Nas outras, choro, gritos, no final, perdão. Para tomar fôlego, deixar o coração se recompor até a próxima. Embora passasse uns meses ainda com raiva, pensando numa vingança bem doída para ele.

Meio:
Na imaginação do homem sentado na praça, Abreu chegaria, o safado. Viria com uma colega de trabalho – aquilo era colega, toda solicita com o susto dele e cheia de intimidade, parecia ter planos pela morte de Teresa?
Fim:
Com certeza, Abreu, iludido, contabilizaria logo a suposta herança. De seu banco de praça, o imaginador sorria, imaginando como o safardana, dali a alguns dias, odiaria Teresa ao descobrir que ela tinha premeditado tudo antes do gesto extremo.
Por enquanto, do banco, os olhos do homem seguiriam aquele nada, que, finalmente, iria em direção ao estacionamento além da esquina, já de mão dada com o outro nada, que, muito rebolativa em seus saltos altos, ousaria gargalhar, relaxada.

Como se percebe, há um narrador fora do texto que conta a realidade daquela personagem, nomeada “ele”, “homem”, “imaginador” – sempre na terceira pessoa” . Sua história é sentar em um banco de praça e imaginar. Essa seria a narrativa principal.
Mas essa personagem também acaba criando mentalmente um outro núcleo textual, que, apesar de secundário por estar incluído no principal, acabaria se tornando o interesse maior do conto, aparentemente. Veja-se, no entanto, que se o leitor é atraído para esse núcleo, despreza a personagem “Abreu”, se apieda de “Teresa”, isso se constitui num jogo de enganos, pois desde o princípio está explicitado que aquela narrativa é só imaginação. Essa explicitação pode ser chamada, de forma bem-humorada, de “jogar areia nos olhos da leitora (do leitor)”, visto que, a primeira narrativa, a do “homem” “que se senta num banco de praça” também é.
O narrador inicial, portanto, que narra esse homem acaba fazendo um discurso duplo, o seu e o da personagem “imaginador”. Vale a pena assinalar que tal narrador de duas vozes, apesar de alheio ao texto, é tomado em alguns momentos pelas emoções de qualquer personagem e sua pseudoneutralidade se trai: “Viria com uma colega de trabalho – aquilo era colega, toda solicita com o susto dele e cheia de intimidade, parecia ter planos pela morte de Teresa? ”. A fala desse que emite o discurso está repleta da coloquialidade – atentar para o ponto de interrogação – de uma personagem submersa no enredo ou até solidária à opinião de uma (um) provável leitora (leitor).
Então, se percebe que, dependendo da intenção criativa de um escritor, ainda que o ponto de vista seja externo, o narrador pode não ser isento, imparcial e sim, se envolver nos fatos narrados. Evidencia-se ainda que a escolha do foco narrativo – a posição desse ser ficcional da enunciação – tem um peso muito grande para o resultado desejado da criação literária em prosa.


(Aguardo você em meus outros blogues Conto-gotas (link) e Poema Vivo (link).)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Poesia e língua, o enlace literário em Valéria Tarelho

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

A paulista Valéria Aparecida Tarelho (1962) formou-se em Direito, mas, para sorte nossa, foi tomada pela poesia e passou a se dedicar a ela. Embora tenha começado a escrever em 2002, já tem um campo bastante fértil na Rede, participando dos índices de sites de peso, como o Germina Literatura (aqui), Escritoras Suicidas (aqui), Usina de Letras (aqui).

Além dos sites acima citados, seus poemas podem ser encontrados em Blocos On-line (aqui). Agradeço a tais espaços literários muito do que pude coletar.
Listo como principais sites de Valéria Tarelho, na Internet, Textura (link), Impura Poesia (link), só dela, bem como Proseares, com Sidnei Olívio (link), Poema Dia (aqui) e Poema Curta-metragem (aqui), cuja autoria divide com outros.

Vamos a seus poemas, que são o verdadeiro testemunho de uma escritora. Difícil escolha foi a minha, diante do material que “colhi” – como se fazem às flores – nos vários endereços da Rede, aos quais fui. Em cada um dos textos uma faceta nova se revelou. Depois da análise, porém, o depoimento dado por eles revela uma escritora que conhece profundamente sua língua instrumental. Valéria Tarelho é uma tapeceira que usa esses seus fios linguísticos como ninguém, conhece-lhes a textura, cada cor, a conveniência de cada uso. E o resultado tem sempre um duplo efeito: a revelação de um conteúdo pertinente, envolvido por uma forma que, em última análise, é a verdadeira natureza da poesia.

Parto

Valéria Tarelho

É hora
de içar as velas
e vê-las
(a) mar adentro
(gr) ávidas

O poema acima começa a desvendar o que foi dito sobre “uma escritora que conhece profundamente sua língua instrumental. Apropriando-se dos recursos que as escolas literárias têm desenvolvido por sua vida à fora – o jogo do timbre fechado/aberto e da rima rica de “velas”/“vê-las”, que fez a felicidade dos parnasianos, por exemplo –, foi muito mais além: aproveitando-se da possibilidade lúdica da alternância entre “mar” e “amar”, reforça o segundo termo ao trazer para o texto o vocábulo “grávidas”, que ultrapassa a apenas rima com “ávidas” e, sobrepondo as duas, cria uma terceira e cambiante promessa significativa. É importante, então, visualizar a beleza da imagem dessas velas rotundas pelo vento. O achado da construção é que há dois textos contidos em um só.

Vai idade

Valéria Tarelho

do espelho
ao espólio
é um piscar
de olhos

Deve-se chamar atenção, no poema anterior, além da exploração da proximidade de som e escrita entre palavras, para o fato de que o título, como em vários outros textos da poeta, inicia o campo significativo do poema. É importante se observar que, por um efeito paronímico com o título – semelhança na pronúncia/escrita entre palavras com significados diferentes –, o vocábulo “vaidade” acaba sendo trazido para o texto e seus significados, imbricados, antecipam a entrada do primeiro verso. O resultado é inesperado.

Causas naturais

Valéria Tarelho

overdose
de vaidade
na veia
:
a velha
meia-verdade
morreu
inteira

O título leva o leitor por um caminho que é abruptamente interrompido pela introdução da palavra “overdose”, obstaculizando-o com uma ideia de sentido contrário. Mas a ideia contida nesse sintagma “overdose, na veia”, de tanta intimidade com um leitor urbano, contemporâneo, acostumado aos já chavões midiáticos, se esvazia completamente dessa atualidade de mundo moderno e caótico em seus costumes e usos, para fazer apelo ao mais velho atributo humano, que deve ter vindo com o primeiro ser pensante e que o acompanhará à eternidade: a vaidade, que é, portanto, uma causa tão natural a esse ser. A beleza da poesia está, então, nessa inteligência criativa: do termo comum extrai-se o inédito, o surpreendente. Do momentâneo, a reflexão sobre o que é eterno no ser humano.

Resumo da ata

que o novo rompa
a casca do óbvio
e o poema gema às claras

o pio arcaico que canta de galo
não me leva no bico

O uso de expressões fossilizadas – “canta de galo”, “leva no bico” – , ao serem inseridas no poema, assumem, ao contrário do que se poderia supor, um grande efeito crítico, principalmente, quando são revitalizadas por expressões novas, de igual valor judicativo, embora sem abrir mão do poético, como “pio arcaico”.
Ainda vale a pena chamar atenção para a aparente brincadeira efetuada entre “gema” e “claras” que, introduzida por “casca”, poderia conduzir a leitura por uma isotopia – nível de leitura – completamente outra. Mas o emprego do “gema” verbo – surpreendemos aqui o aproveitamento da homofonia entre substantivo/verbo –, que acaba anexando sua dramática carga semântica, ultrapassa o puro exotismo do trocadilho. A brincadeira deixa de sê-lo justificando-se como um recurso sério e poético.

Viúva negra

Valéria Tarelho

para cada boca
que me sorve
sirvo
o mesmo veneno
vario
conforme o beijo
a dose de ar
cênico

A expressão “viúva negra”, no título, largamente conhecida, prepara um pantanoso terreno de enganos, em que poderá caminhar o leitor, agravado ainda pelos termos “veneno” e “dose” e pela homofonia que se estabelece entre “ar cênico” e “arsênico”, substância reconhecidamente tóxica, desde que não seja identificada a metáfora entre veneno e beijo e o significado do “cênico”, como relativo a uma representação teatral. Desse modo, valendo-se justamente de todo um campo semântico que faz parte do repertório de qualquer leitor comum, a expressão usada no título, no desabrochar do poema, agrega o significado de assassínio das relações humanas amorosas. Ainda aqui continua valendo a observação do domínio seguro e literário, por parte da escritora, das virtualidades da língua.

Abaixo, transcrevo alguns outros poemas de Valéria Tarelho, para simples fruição de seu talento, nesse domingo, o que não é pouco.

Ego

Valéria Tarelho

eis-me aqui
diante do espelho:
um nonsense
face
&
disfarce
eis-me aqui
um contra-senso
reflexo
&
avesso
eis-me aqui
ante meus versos:
uma antítese
imagem
&
miragem
a bem da verdade
reconheço o que viso:
um oásis de vaidade
pregando no deserto
eis-me aqui:
narciso
&
eco

Ballet do adeus

Valéria Tarelho

Na ponta dos pés
em meia ponta
gotas bailarinas
descortinam os olhos
interpretando
o adágio da despedida
Essas aves-meninas
cristalinas
rodopiam suaves
girando em fouetté
no tablado da face
Agonizando
olhos marejados
pelo corpo de baile
vejo-te ao longe
partindo no lago
protagonizando
a coreografia
do último ato

Origami

Valéria Tarelho

Numa tarde qualquer
o amei
Fui o papel espelho
que ele vincou
Ficaram em mim
as marcas desse atropelo
(e de seus dedos)
Enquanto fui só amor para dar
(e medo)
Ele apenas brincou
de me dobrar…

Danúbio azul

Valéria Tarelho

blues, ouvia
de vez em quando.
choro, todos os dias.
meses atrás,
dançava tango.
olhos azuis-siameses,
há mais de ano
a (en)cantam.
em compasso de espera
pelo toque do gato,
ela marcou passo
a três por quatro.
"straussada",
val
sou.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Um golpe de naja

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

Para começar de forma radical o novo ano, vamos falar da escritora Branca Maria de Paula, que é mineira de Aimorés. Sua vida literária tem sido marcada pelas premiações, que tem recebido.
É graduada, porém, em Filosofia, tendo se especializado em Filosofia Contemporânea. Mas tem diversas atividades em outras áreas da cultura, tendo trabalhado no jornal Minas Gerais na parte literária e como fotógrafa, outra atividade sua. No cinema, tem participações como roteirista e corroteirista.
Na literatura, estreou em 1978, recebendo um prêmio na prestigiada revista “Status”, da época, embora seu conto - “Fundo Infinito” -, bem como o de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, tenha sido proibido e só publicado no ano seguinte, junto com os dos outros dois, em um encarte separado da revista. O texto deu nome a seu livro em 2005.
A escritora tem uma produção na literatura de poesia e uma bastante fecunda na literatura infanto-juvenil.

Se é mais divulgada sua ficção de feição erótica – a produção de uma mulher nesse campo, gera sempre curiosidade e um certo frisson, num mundo de predomínio de homens e que reserva a si essa parte da natureza humana –, não é apenas sob a sensualidade que são erigidos seus textos. E a linguagem, a forma de estruturar a narrativa, um não compromisso com a realidade palpável dão também um caráter peculiar aos contos de apelo ao carnal ou não. Vamos a alguns

Duas maneiras de ser feliz

Branca Maria de Paula

Esquizofrenizou-se às seis horas da tarde ao som da Ave-Maria, quando uns anjos lhe disseram que largasse tudo e fosse pro convento seduzir a pequena Flor-de-Liz, enquanto outros aconselharam que ela se dirigisse imediatamente ao shopping mais próximo e comprasse lingerie de cor vermelha – aquela com abertura coincidente com as aberturas de nascimento – e subisse lá pros altos da Avenida Afonso Pena que aí sim, ela estaria perto do céu.
Então Marilene deu dois passos pra frente, dois pra trás e ficou paralisada, ouvindo as vozes cada vez mais perto.

O enforcado

Branca Maria de Paula

A rua sobe em curvas pela montanha, em busca de ar fresco e horizontes abertos. Procura uma paisagem singular, distante dos prédios espremidos no miolo da cidade.
Cheia de flor e passarinho, a rua transpira sossego. Alguns gatos pulam de quintal em quintal, desafiando os muros altos.
A brisa da manhã sopra um friozinho bobo, que é melhor ignorar. Mesmo assim, o pé de madressilva estremece.
Um cão raivoso assusta os colegiais, que passam de mochila às costas.
Ninguém vê o corpo que oscila, na varanda da frente do moderno sobrado.

A deusa

Branca Maria de Paula

Comeu-o com muito gosto, estalando a língua e gemendo de prazer. Mas não o fez de maneira selvagem. Ao contrário, foi bastante cortês.
Comeu-o aos poucos, com requinte e sabedoria. Dispôs igualmente de todas as partes, sem rejeitar nenhum ossinho, por miúdo que fosse. Aproveitou tudo tudo, inclusive os dedos dos pés.
Sugou primeiro os lábios carnudos, suspirando delicado.
Quando mordiscava o lombo, gemeu alto. Ao chupar a coxa, quase perdeu a compostura.
Perdeu a compostura ao lamber as partes tenras. Sacrificou-o em grande estilo, arrancando-lhe as vísceras sem sombra de culpa ou tardio remorso. Mas o momento de gozo ela viveu ao devorar-lhe a cabeça.
Ele perdeu a pele, as carnes, ficou nu por fora e por dentro. E ela não teve dó. Arrebatara seu coração. Enfim.

O salvador

Branca Maria de Paula

Então ele me tocou e eu fiquei curada.
O véu da cegueira se rasgou e eu vi: o tisnado da pele, o veludo dos olhos. A saturação do melado: rapadura batida e rebatida, em calor absoluto. Os lábios exatos — café claro e duas pitadas de chocolate.
Lembro antílopes e tigres e esquilos.
Meu sorriso rompe o gelo, já não dói.
Meus membros vencem a crosta de gesso, já não sou uma estátua.
Abro as vidraças.
Ensaio passos de uma nova dança, ouvindo uma música que nem mesmo sei se existe.
Porque ele me assiste*.
* O verbo “assistir”, aqui, significa “acompanhar (alguém) na qualidade de ajudante ou assessor.”, conforme o dicionário Aulete digital.

Golpe de naja

Branca Maria de Paula

Eu nem perguntaria o nome dele.
Iria para um canto qualquer, um vão de escada e, na pressa, talvez fizesse em pedaços a camisa azul.
Minhas mãos aflitas procurariam o caminho e abririam o zíper enquanto eu esfregaria minhas tetas no corpo trêmulo e meteria a perna atrevida entre as pernas do homem, revolucionando os quadris.
Era o que eu pensava naquele carnaval, sentada com os outros em torno da imensa távola redonda, enquanto o macho ao lado, um perfeito estranho, corria a mão pela minha coxa e me lambia a cara com sua língua fogosa.
Não quis ver-lhe o rosto, não me virei, nada fiz. Apenas imaginava a cena e seus desdobramentos. O golpe de naja, o salto primitivo.
Então, num sobressalto, acordei.

No meio da palha

Branca Maria de Paula

Então ele me disse muito sério eu sou o lobo, mas eu não acreditei e fui logo chegando perto, chegando perto. E ele gritou não se aproxime, é perigoso e eu disse quem sabe sou eu, tem muito lobo falso por aí, deixa ver.
Mas eu sou o lobo sim, repetiu mostrando as garras.
Que nada, existe um monte de unhas postiças e rabos e orelhas, tudo de mentira. Quero ver de perto, respondi, sempre caminhando na direção dele e insistindo por favor, deixa ver se é de verdade, eu queria tanto encontrar um lobo – sabe como? – daquele que me comesse de roupa e tudo, de repente, entende? Assim, sem eu esperar. E que tivesse uns olhos grandes pra me enxergar de verdade, umas orelhas grandes pra me escutar de verdade e uma boca que pudesse me engolir inteira e uma língua que me lambesse toda como se eu fosse assim um pirulito e me derretesse como se eu fosse um sorvete até me deixar quentinha, molinha, sem conseguir fazer nada, nem mesmo gritar pedindo socorro, só gemesse baixinho na hora do susto. Um lobo assim vale a pena conhecer.
Que me esperasse atrás da moita e de mim fizesse gato e sapato, sem apelação.
Nem reclamar eu ia. Um lobo de braços grandes, pernas fortes, enorme, e que me colocasse na palma da mão. E que me mordesse sem dó, que me comesse sem piedade. Ah, isso anda tão difícil, nem sei se ainda acontece nos dias de hoje. O mundo mudou muito mesmo. Que me comesse aos bocados, soltando grunhidos de prazer pra floresta toda escutar e estremecer de inveja.
Fui falando assim, falando e me aproximando e notei que as orelhas dele tremiam, que o rabo murchou de repente e que baixou o focinho quando parei na frente dele. E também baixou as pálpebras, envergonhado, quando insisti em olhar ele nos olhos. Tentou ainda um gesto pra me deter. Abriu a boca, mas não conseguiu articular nenhum som. Deu foi um discreto passo pra trás, parecendo assustado.
Então resolvi mudar de tática. Estendi a mão e num gesto rápido arranquei-lhe as patas, as orelhas e o rabo. Comi aquele cordeirinho ali mesmo, no meio da palha, a poucos passos da casa da vovó.

xxxx

Quando da leitura, é interessante se atentar para o ponto de vista de mulher que os textos mantém, subvertendo, quase sempre a perspectiva tradicional de alguns temas: a clara inversão de valores do conto “No meio da palha” ou de “Uma deusa” – repare-se no verbo “comer” tão caro ao vocabulário masculino – inaugura um novo olhar sobre eles. Mais do que contos eróticos esses são contos de sublevação contra uma condição humana.

Obras individuais e de literatura para adultos
A mulher proibida – contos – 1980
Fundo infinito – contos eróticos - 2005

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Tempos de paz

Caras (os) amigas (os) visitantes,

Desejo a todas (os) a felicidade completa nas reuniões familiares que comemoram as festas de Natal e Ano Novo. Mas, principalmente, desejo que 2012 seja o ano da paz para todas (os) nós.
Eliane F.C.Lima

sábado, 26 de novembro de 2011

Astrid Cabral e a poética do espanto

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
 
A poeta Astrid Cabral Félix de Sousa já teve alguns de seus poemas analisados neste blogue (aqui e aqui). No dia de hoje, a postagem focaliza a escritora, apenas, com pequena biobibliografia.
Astrid Cabral nasceu em Manaus, Amazonas, em 25-09-1936. Na adolescência, veio para o Rio de Janeiro, diplomando-se em Letras Neolatinas na UFRJ, embora tenha lecionado, nessa área, na Universidade de Brasília. Por concurso no Itamaraty foi Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores em cidades brasileiras, além de Beirute e Chicago.

Obras
Poemas
Ponto de cruz (1979); Torna-viagem (1981); Lição de Alice (1986); Visgo da terra (1986); Rês desgarrada (1994); De déu em déu (1998); Intramuros (1998); Rasos d’água (2003).

Ficção
Alameda (contos - 1963)

Nos textos da escritora aqui transcritos, dentre diversos outros aspectos destacáveis em sua obra como um todo, podemos perceber um sentimento de melancolia e assombro diante do percurso humano pela vida, que se derrama em dois temas que acompanham o caminho da literatura, de uma forma geral: a reflexão sobre a condição humana e a condição subjetiva de um eu lírico que se autoanalisa. Na beleza da construção poética dos textos a seguir podemos distinguir esse primeiro enfoque.

Herança

Astrid Cabral

Bênçãos e maldições vêm de, bem longe
embaladas em ovos, sangue e esperma
em arquivos que jazem sob a terra
lacrados chaves já perdidas no ontem.
Os vivos farejamos crus mistérios
e giramos perguntas parafusos
que mal roçam a cútis dos arcanos:
o olhar terá nascido no jurássico?
o tom de tez e voz será adâmico?
de quem decorre esta imprevista
herança
de sermos o que, bem ou mal nós
somos?
Família, amor, jogo de sexo e espelhos
por onde assim perplexos nos lançamos
ou, dizendo melhor, lançados fomos.

A silepse de pessoa (desvio de concordância que consiste em relacionar um elemento da frase ao que está implícito e não ao que está explícito), em “Os vivos farejamos crus mistérios”, consegue esse efeito de reunir toda uma espécie de seres – os vivos – a um indivíduo determinado – um eu entre nós –, fazendo-os todos “perplexos” diante da inexorabilidade de uma herança, de um destino – “será adâmico?” – incontrolável: “lançados fomos”.

Metamorfose

Astrid Cabral

Ainda nos chamam
pelos mesmos nomes.
Acaso seremos os mesmos
ou é a cegueira alheia?
Éramos formosos
afortunados donos
de sesmarias de sonhos.
Tínhamos frescor de frondes
ímpetos de fontes e fogos
destemor de duelos, dúvidas
que não machucavam quase.
Éramos potros selvagens
farejando precipícios
pelas pastagens do mundo.

No curral ainda nos sobra
a noção do tesouro perdido
e essa ração de memória
é a esmola que nos cabe.

Em “Metamorfose”, pode-se identificar, ainda, a mesma emoção diante do condicionamento inelutável da vida humana, que condena os sonhos, que apaga as esperanças. Se no poema anterior o sentimento era de perplexidade, no segundo, tudo se transforma em um “tesouro perdido”.

Resíduos

Astrid Cabral

Varre-se a alma
mas entre as gretas
sempre resta
estática poeira.

Jamais devolverás, memória,
a juventude em carne e osso.
O que nos sobra além de fotos
é carne mumificada sem sangue
sem esperança e sem alvoroço.

Dias de sol
e fomos espigas.
Hoje não somos
mais que sabugos.
Onde os grãos?

O poema “Resíduos” retoma o texto anterior, resume-lhe a primeira estrofe nos versos “Dias de sol/ e fomos espigas.”, mas parece negar a última esperança alimentada na última estrofe daquele: “Jamais devolverás, memória,/a juventude em carne e osso.”
No poema “Calamidade”, transcrito abaixo, embora haja uma aparente concretude e cotidianidade no título e no tema – “contidos em urbanas paisagens/eles encharcavam/ não só os chinelos de lama” –, volta a sensação de assombro em “a alma também de espanto”, diante das perenes e cíclicas circunstâncias humanas, mesmo esquecidas por todos. “Antepassados/das chuvas dilúvio” torna a retratar o mesmo ser humano do princípio, jurássico, adâmico.


Calamidade

Astrid Cabral

Águas na sala! Peixes nos quartos!
Quem entenderia?
Degredados das paisagens
contidos em urbanas grades
eles encharcavam
não só os chinelos de lama
a alma também de espanto.
Todos esquecidos
dos troncos derrubados
dos leitos rasos – antepassados
das chuvas dilúvio.

Os três últimos poemas apresentam um olhar subjetivo de um eu lírico, sua individualidade. Mas o sentimento que prevalece nesses poemas ainda é de inadequação diante da vida, ecoando, assim, a mesma inadequação ôntica retratada nos textos anteriores. O coração couraçado e “os cachorros/que uivam em horas de raiva” são a mesma defesa diante dessa realidade.

Coração couraçado

Astrid Cabral

Tempestades em oceanos
ou em copos d'água
e não peço a Deus balsas
barcaças nem praias.
Só um coração couraçado.
Desses que no lombo
das ondas vão sem tombos
o convés em festa
Iluminado.


Cave canem

Astrid Cabral

Dentro de mim há cachorros
que uivam em horas de raiva
contra as jaulas da cortesia
e as coleiras do bom senso.
Solto-os em nome da justiça
tomada de coragem homicida.
Mas sabendo que raiva mata
à míngua de tomar meus cães
vacinei-os. Ladrem mas não mordam
e caso mordam, não matem.

O último poema singulariza, finalmente, a possibilidade de metamorfose do ser humano. Nele, esse ser repete seu destino e encerra sua perplexidade.

Transitória

Astrid Cabral

Enquanto

folhas folham
árvores arvoram
e o dia irradia
sigo

figo
no ramo da tarde.



Até que a noite anoiteça
o fruto apodreça
e na terra em fome

tombe
sem alarde.

Aguardo quem visita este blogue em meus outros dois: Poema Vivo (aqui) e Conto-gotas (aqui).

domingo, 6 de novembro de 2011

O diálogo poético de Neide Archanjo e seus pares

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

A escritora que será apresentada hoje – Neide Archanjo (1940) –, poeta, psicóloga e advogada, embora tenha nascido em São Paulo, mora atualmente no Rio de Janeiro. Recebeu, em 2005, o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras e participou de vários eventos de promoção da poesia.
Hoje, conheceremos alguns poemas seus, mas, adiante, ampliarei esse estudo, despertado pela intertextualidade – textos que remetem a outros -, pois sua obra, às vezes, leva a de outros autores.
O primeiro poema é metalinguístico, ou seja, usa uma linguagem para refletir sobre essa própria linguagem: o tema eterno da reflexão sobre o ato criativo, que surge em quase todas (os) as (os) escritoras (es).

Da poesia

Neide Archanjo

Esculpo a página a lápis
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.

Os recursos utilizados são bastante peculiares. De início, o vocábulo “esculpo”, inerente a outro tipo de arte, imprime, nesse ato criativo, possibilidades outras, quase uma terceira dimensão, que chega a ser palpável. Na verdade, essa tridimensionalidade se enriquece com a ideia de “bosque” e “cheiro”, que vão além da impassibilidade de estátua, inaugurada pelo verbo inicial. Aparece a dinâmica, a vida na natureza, enfim.
A imagem “a poesia é feita de romãs” retoma essa vida da natureza, citada acima, tornando o ato literário quase um prazer sensorial.
Mas, como queria o movimento modernista, o texto indica que a poesia pode conter qualquer elemento, desvestindo-a da sacralidade que pretendiam os movimentos estéticos anteriores a 1922, aproximando a criação poética do humano: “daquilo que é eterno/e de tudo que apodrece.”

Os dois poemas seguintes de Neide Archanjo remetem, embora não explicitamente, a poemas de outros autores. Vejamos.

Neste mezzo del cammin

Neide Archanjo

Neste mezzo del cammin
carrego comigo obras e cânticos
alguns alheios outros próprios
coisas que escolhi.
Entre vogais e vocábulos
componho a biografia
construção sonora de rostos
reflexos sentimentos
tão grande tão grandes
uns rindo como gralhas
outros mansos
todos não perdidos
pressentida romã entreaberta
assim esta memória existe.
Vou como o discípulo
de um velho pintor chinês
que curvado sob o peso de pincéis
potes de laca
rolos de seda e de papel arroz
sonhava carregar montanhas rios
falcões reais
e se assim sonhava
certamente assim o fazia.

O termo “neste”, junto a “mezzo del cammin” (em italiano, “meio do caminho”) nos faz pressentir que há um outro, o que se torna quase uma certeza, quando lemos adiante “carrego comigo obras e cânticos/ alguns alheios...”: Dante Alighieri, poeta italiano autor de A divina comédia, começa sua obra com “Nel mezzo del cammin di nostra vida...”. Estar no meio do caminho, da vida, supõe-se, é ter um passado – “assim esta memória existe” – e se imaginar um futuro - “Vou como o discípulo/de um velho pintor chinês”. E, como o “velho pintor chinês”, sonhar e fazer.
Um outro poeta, do final do século XIX, Olavo Bilac, já usara o mesmo verso dantesco, para, num inspiradíssimo soneto, assinalar um período da vida de dois amantes.

Nel mezzo del cammin...

Olavo Bilac

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo

Abaixo serão postados dois poemas. Um, de Manuel Bandeira, antecederá o da poeta aqui focalizada, pois a sua leitura alarga e aprofunda o entendimento e o alcance poético do texto da escritora, que vem depois.

Profundamente

Manuel Bandeira

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Profundamente

Neide Archanjo

Estão todos sentados esta noite.
Estão todos sentados.

A velha mesa respira
mas nadas se aquieta.

Estão todos sentados
mortos e sentados.

E este amor não basta
para carpir os beijos os nomes
os retratos.

(O vocábulo “nadas” está grafado de acordo com todas as cópias encontradas na internet. Não havia uma cópia impressa em mãos. Imagina-se que seja uma oposição intencional a “todos”. Não se pode justificar, segundo a gramatica, entretanto, o verbo “aquieta” no singular.)

Vejo, inclusive, que o conhecimento do texto do poeta justifica o uso do advérbio “profundamente” no título do segundo poema, que, me parece meio vazio gramaticalmente ali. No texto de Bandeira, o advérbio em questão desempenha seu papel gramatical tradicional ao se referir ao verbo “dormindo”, em dois momentos, porém alterando-lhe o sentido, na última estrofe, pois lhe acrescenta a conotação de morte.
Se, no texto da poeta, a palavra “mortos” não deixa dúvidas, o jogo que faz com “sentados” em oposição ao “deitados”, no texto de Bandeira, só se esclarece, quando quem lê se depara, finalmente, com “retratos”. Então, no texto segundo, todos os que estão sentados no retrato também estão “dormindo profundamente” “esta noite”. Há, portanto, uma ligação bastante forte entre os dois textos.
Em 1998, a poeta lança um CD com suas poesias lidas onde há a participação da cantora Maria Bethânia, que empresta sua voz especialmente forte e linda ao texto da outra. Veja o vídeo abaixo. Agradeço ao site YOUTUBE (aqui).




OBRAS:

Primeiros ofícios da memória (1964); O poeta itinerante (1968); Poesia na praça (1970); Quixote tango e foxtrote (1975); Escavações (1980); As marinhas (1984); Poesia 1964 a 1984 (1987); Tudo é sempre agora (1994 – indicado ao prêmio Jabuti); Pequeno oratório do poeta para o anjo (1997); CD coleção Poesia falada, v. VI, “Neide Archanjo por Neide Archanjo”, com participação de Maria Bethânia (1998); Epifanias (1999).



Aguardo sua visita em meus blogues Poema Vivo (aqui) e Conto-gotas (aqui).

domingo, 16 de outubro de 2011

A literalidade do cotidiano - Possibilidades em Adriana Lisboa

Eliane F.C.Lima

Sonho

Adriana Lisboa

Ele conta o sonho que teve com ela. Chegavam numa padaria. Fome. Cheiro de pãozinho fresco. Ainda demora a sair?, ele pergunta. Não, na verdade acabou de sair. Então vê dois pra gente, com manteiga.
Ele conta o sonho e sorri.
(Caligrafias – Rio de Janeiro: Rocco, 2004)

Inicialmente, remeto quem visita a minha postagem anterior sobre a escritora, onde posto alguns dados sobre ela (link). Hoje escolhi uma narrativa de um de seus livros.
Faço aqui, pelo menos, duas leituras possíveis do texto, voltando a citar a Teoria da Recepção, que atribui ao leitor um papel importante no significado do texto. Seu horizonte de expectativas é parte importante da fundação desses sentidos.
Minha estratégia foi procurar os dois significados principais para o vocábulo “sonho”, conceitos adaptados do dicionário de Caldas Aulete, aplicando cada um à narrativa:
1.Ação ou resultado de sonhar, enquanto se dorme.
2.Desejo intenso e constante, aspiração ou imaginação sem fundamento, sequência de ideias vãs e incoerentes às quais o espírito se entrega.

O primeiro significado levaria a uma leitura mais linear do texto. Mas o sonhar com um acontecimento cotidiano, permite ainda uma visão poética da rotina, o relacionamento bem-sucedido de duas pessoas que pode se concretizar até na ingenuidade do dia a dia. A felicidade no simples. O final do texto confirma isso.
Porém há a possibilidade da palavra “sonho”, no título, diferentemente do que parece apontar no texto em si, conter o segundo significado. Nesse caso, nesse sonho, o “chegar a uma padaria”, “o pãozinho fresco”, o “com manteiga” podem pertencer, não ao universo da rotina, do dia a dia, do simples, mas ao universo do “desejo intenso”, da “imaginação sem fundamento”, à “sequência de ideias vãs” e, nesse caso, ficaria a pergunta: que tipo de casal – em que situação vivem –, para o qual “pão com manteiga” se torna o objeto do desejo impossível de se realizar? O “sorrir” agora, diversamente da leitura anterior, que apenas se comprazia com um sonho divertido e simpático, se reveste do sentimento de preenchimento pelo sonho para uma necessidade diante do vazio da realidade.
Devo chamar a atenção de quem lê, no entanto, que as virtualidades interpretativas estão no texto e partem dele. As possibilidades de leitura não pertencem à imaginação livre do olhar receptivo, tendo o processo de entendimento do texto, ao contrário, um movimento de bumerangue: partem do texto – estão latentes nele – em direção de quem lê e voltam ao texto. Conhecer os vários significados de um termo, por exemplo, levam à sobreposição de sentidos de uma narrativa. Convido a (o) visitante a, abalizadamente, encontrar o seu próprio percurso.


Aguardo a(o) visitante em meus blogues Poema Vivo e Conto-gotas.

domingo, 25 de setembro de 2011

A poesia forte de uma dramaturga: Renata Pallottini

Eliane F.C.Lima

Poética (II)

Renata Pallottini

Descer até o fundo
e quando o sentimento
esteja o mais maduro

provocá-lo e feri-lo
para que a voz aflore

mas sem meias-medidas
sem cautela e sem pena:
assim o Poema.

O metalinguístico texto acima, confissão poética, é de Renata Pallottini (São Paulo, capital – 1931), formada em Direito, Filosofia e Dramaturgia, área em que deu aulas e exerceu intensa atividade, quer em teatro, quer em televisão, e, através da qual ficou realmente conhecida: para o primeiro escreveu, junto com Chico Buarque de Hollanda, o espetáculo “Pedro Pedreiro”, por exemplo, e para a segunda “Malu Mulher”, “Joana” e “Vila Sésamo”. Mas também publicou muitos livros de poesia:

Acalanto (1952); O cais da serenidade (1953); O monólogo vivo (1956); A casa (1958); Nós, Portugal (1958); Livro de sonetos (1961); A faca e a pedra (1965); Antologia poética (1968); Os arcos da memória (1971); Coração americano (1976); Chão de palavras (antologia –1977); Noite afora (1978); Cantar meu povo (1980); Cerejas, meu amor (1982); Ao inventor das aves (1985); Esse vinho vadio (1985); A menina que queria ser anja (1987); Praça maior (1988); Obra poética (1995); Chocolate amargo (2008).
Nosso enfoque, aqui, obviamente, será sobre sua marcante poesia, na qual prova sua versatilidade artística e seu talento inconfundível. A reflexão sobre a dor humana e o imponderável de sua condição se derrama a cada verso de seus poemas.

Finisterrae

Renata Pallottini

Aqui começa o fim
Feito de vento.

Enlouqueceu a bússola
Do tempo.

Naufragam as certezas
Do infinito.

Aqui se acaba o mapa
Nasce o mito.

Aqui começa a morte
Em naves findas .

Aqui começa o medo.
Como um grito.

Como muitas outras escritoras, o que já foi tema de análise neste blogue a respeito de Cecília Meireles (vale a pena conferir aqui), a poeta se vê diante do dilema do tempo. E surge, exatamente como em Cecília, o íntimo compromisso do termo “vento” com tal abstrata e dúbia dimensão.
Como naquela poeta, ainda, se percebe o embricamento de tempo/espaço, introduzido pelos vocábulos “bússola” e “mapa”, objetos de orientação espacial, aqui acrescidos do outro significado.
Como foi argumentado para o estudo sobre Cecília, pressente-se uma diferenciação entre “tempo” e “eternidade” (infinito) – “Naufragam as certezas/ Do infinito.” – e, se está o primeiro aderido à ideia de matéria e, portanto, à sua finitude – “Aqui começa a morte/ Em naves findas.” – é o “mito” que garante o encontro com a segunda.
O texto abaixo caminha por passos semelhantes.

Lamentação dos filhos


Renata Pallottini

Do infinito nascemos
para um termo preciso.
De infindas, as penas,
de vago, o aviso.

Nados mornos, frágeis,
de entre dois gemidos.
Quando a morte, a eterna?
Quando o Conhecido?

Que isto já nos cansa,
a nós, os malformados,
desde a distante infância
frutos destinados.

Somos os que a vida
fez limite amargo.
De infindas, só as penas,
de vago, o aviso vago.

Lágrimas na cadeira do dentista

Renata Pallottini

Não, não é o dente que dói.
Não, o motor não incomoda.

Não me doem os dentes
mas quem morde.

Nunca o que dói é o aparente
senão o outro, de outra ordem
o oculto na cárie da vida, o tártaro
dos ossos ,
na intempérie incisiva da dentadura mole.

Nunca o que dói, doutor,
é o que fazem as máquinas,
senão
o humano dessas brocas
os buracos
da alma.

Ponha ouro, doutor,
e seja lá o que possa
morder o dente, ávido de amor,
a conta, ao fim, é nossa.

As metáforas construídas por Pallottini, no poema, anterior, para traduzir esse sofrimento inevitável – “os buracos/ da alma”, “o oculto na cárie da vida” – do ser humano no acerto com seu destino – “a conta, ao fim, é nossa.” – são uma marca original de sua linguagem poética.

Por último, seria imperdoável não postar o belo poema que consegue o efeito de envolver o extremo erótico na sutileza pictórica obtida pelo apelo à delicadeza de uma fruta que carrega, em si, do imaginário social e literário, a pureza da ausência do erótico.

Cerejas, meu amor

Renatta Pallottini

Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...


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