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domingo, 9 de maio de 2010

A atualidade de Augusto dos Anjos, o poeta do hediondo - Literatura de ontem 13

Eliane F.C.Lima

O poeta de que tratarei nesta postagem chama-se Augusto dos Anjos. Em minhas aulas de literatura, quando lia seus poemas como apresentação de sua obra, as (os) adolescentes ficavam surpreendidas (os) e gostavam muito. Porque Augusto dos Anjos é realmente surpreendente. E, desta vez, vou deixar que ele mesmo se apresente:


O poeta do hediondo

Augusto dos Anjos

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas.

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência,
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!

Embora não se deva confundir o eu lírico – aquele “eu” que conduz o poema – com o autor, o soneto acima é um autorretrato fiel dos procedimentos poéticos do escritor.
Tendo nascido, na Paraíba, em 1884 (faleceu aos 30 anos, em 1914), e vindo para o Rio de Janeiro, em 1910, em busca de reconhecimento e meios de publicar seu único livro – Eu –, só o fez mediante o auxílio do irmão, sendo renegado pela crítica da época, ainda dominada pela tríade parnasiana.
Imagina-se que ele ainda tenha herdado do Naturalismo, escola literária em prosa do final do século XIX, a aproximação com os termos científicos. Mas, diferentemente daquela escola, que recorria à ciência e sua linguagem de forma denotativa, ou seja, no que tinham de compromisso com a realidade, Augusto dos Anjos se apropriava delas subjetivamente, para conseguir revelar, com admiráveis efeitos, o âmago daquele ser enunciador, em seus poemas. Os temas de seus textos eram sempre a reflexão sobre o ser humano, em geral, e o individualismo de seus “eus” poéticos, em particular.

O morcego

Augusto dos Anjos

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

Psicologia de um vencido

Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Se o enfoque da decrepitude da matéria do corpo era uma constante, beirando à tanatofilia – atração pela morte –, é o aspecto espiritual que o poeta sempre atinge por esse viés. Na verdade, o aspecto exterior do ser humano, sempre descrito de forma negativa, apresenta-se como um prolongamento da natureza desse ser.

Eterna Mágoa

Augusto dos Anjos

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar de apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

Pau d'Arco – 1904

Apostrofe à carne

Augusto dos Anjos

Quando eu pego nas carnes do meu rosto.
Pressinto o fim da orgânica batalha:
— Olhos que o húmus necrófago estraçalha,
Diafragmas, decompondo-se, ao sol-posto...

E o Homem — negro e heteróclito composto,
Onde a alva flama psíquica trabalha,
Desagrega-se e deixa na mortalha
O tacto, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!

Carne, feixe de mônadas bastardas,
Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,
A dardejar relampejantes brilhos,

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,
Em tua podridão a herança horrenda,
Que eu tenho de deixar para os meus filhos!

Era exatamente a surpresa de seus temas e de seus termos inusitados, que beiram ao bizarro, o que espantava e causava tanta admiração a minhas alunas e alunos adolescentes. Por isso, o poeta foge da literatura já meio óbvia do parnasianismo e abre uma porta nova, porque original dentro de sua extravagância, que o coloca naquilo que a crítica costuma chamar de Pré-modernismo, nome dado a uma série de tendências variadas, as quais têm em comum o fato de apontar um caminho para o futuro, cuja culminância viria em 1922 com a Semana de Arte Moderna. Ele inaugura aquela compreensão nova de linguagem literária desses poetas modernistas posteriores: qualquer palavra é palavra poética.
Certa feita, orientei uma aluna de Letras para a aula-prova que ela tinha de dar. Engenhosamente, ela planejou brindar os alunos com a ligação entre Augusto dos Anjos e a música “O pulso” do grupo de rock, pós-moderno, fim de século XX e princípio de XXI, Titãs. Apesar de eu ver entre os poemas do poeta e a canção diferenças fundamentais de intenção poética – a música de rock, como toda a obra do grupo, tem uma forte tendência à crítica social, ao contrário dos poemas, que são uma análise poético-filosófica nesses aspectos materiais do ser humano – posto também o vídeo dos Titãs e dou os créditos àquela jovem e inteligente futura professora pela interessante relação estabelecida e ao YOUTUBE pelo vídeo (clique aqui).

Roc

4 comentários:

Lianara **Lia** disse...

Olá!

Vi você no blog da Ju Rigoni. Vim espiar e adorei!
Já virei fã e seguidora, viu?

Abraços

Lia

Blog Reticências...
http://liaks25.blogspot.com/

Marise Ribeiro disse...

Eliane, eu sou fã das poesias de Augusto dos Anjos. Escolhi-o para meu Patrono na Academia Virtual, mas cheguei tarde, outro já o havia escolhido.
Tenho um singelo poema em homenagem a Augusto, mas ainda não o publiquei no site. É bem simples, apenas uma pequena homenagem desta aprendiz de poeta.
Beijos,
Marise

Tuca Zamagna disse...

Já havia lido esta postagem, Eliane. Mas como você me convidou a lê-la, volto com mais calma e comento. Augusto dos Anjos é um dos meus poetas prediletos. Na adolescência, foi o único. Cheguei a fazer serenata em seu túmulo, que fica em Leopoldina-MG, onde ele morreu e eu nasci. Antes que meus 17 cotovelos dispararem, vou saindo, mas deixando aqui um trecho do longo "As cismas do destino", um dentre as dezenas de poemas dele que adoro:

(...)
Na ascensão barométrica da calma,
Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,
Que uma população doente do peito
Tossia sem remédio na minh’alma!

E o cuspo que essa hereditária tosse
Golfava, à guisa de ácido resíduo,
Não era o cuspo só de um indivíduo
Minado pela tísica precoce.

Não! Não era o meu cuspo, com certeza
Era a expectoração pútrida e crassa
Dos brônquios pulmonares de uma raça
Que violou as leis da Natureza!
(...)
Na alta alucinação de minhas cismas
O microcosmos líquido da gota
Tinha a abundância de uma artéria rota,
Arrebatada pelos aneurismas.
(...)
Cuspo, cujas caudais meus beiços regam,
Sob a forma de mínimas camândulas,
Benditas sejam todas essas glândulas,
Que, quotidianamente, te segregam!

Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do Cristianismo!
(...)

ju rigoni disse...

A primeira vez em que o li, - eu fazia o Curso Clássico (trocentos anos atrás rsrs) fiquei em choque... Que poeta! Quase não conseguia situá-lo lá atrás, em seu tempo.

Seu modo de expressar-se poeticamente não apresenta ranços. É tão invejável quanto o vigor com que vai enfrentando o papel do tempo. Para mim, considerada a época em que viveu, ele sempre será único; sozinho, é uma escola.

Mas, como sempre, faça um "abatimento" em meus comentários. rss Bjs, Eliane, e inté!