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sábado, 6 de fevereiro de 2010

A concretude poética de Cabral - Literatura de ontem 10/Palavras sobre palavras 11

João Cabral de Melo Neto (Recife - PE, 1920- 1999 – Rio de Janeiro). Primo de Manuel Bandeira e de Gilberto Freyre, ambos pernambucanos, sua infância transcorreu em engenhos de açúcar, vivência que se reflete em sua obra, como fica flagrante no poema “O mar e o canavial”, só para exemplificar. Vindo para o Rio de Janeiro, em 1940, nessa cidade, conhece todo um grupo de intelectuais da época, ligados à literatura, como Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima.
Após concurso, começa a trabalhar em 1946 como diplomata. Exerce sua função em vários países, mas esteve a maior parte de sua carreira na Espanha, o que se percebe em poemas “Na Baixa Andaluzia”.
Mas o poeta nunca deixa de ser um brasileiro nordestino, como comprova Morte e vida severina, uma peça de teatro – um auto de Natal – encomendada por Maria Clara Machado, em época em que João Cabral tinha sido afastado do serviço diplomático pela ditadura militar acusado de militante comunista, provavelmente pelo conteúdo de seus textos, e que acaba não sendo aceita por ela. Embora tenha sido encenada antes, a peça, em 1966, tornou-se um retumbante sucesso, quando o grupo teatral da Universidade Católica de São Paulo (TUCA) encena-a, musicada pelo compositor iniciante Chico Buarque de Holanda, mesmo sem a autorização do próprio João Cabral. Apresentada depois, no Festival de Nancy, França, o sucesso da apresentação torna o autor, que estava lá e gosta das músicas anexadas, conhecido internacionalmente.
Para o jovem Chico, informado de que Cabral não gostava de música, a composição seria uma ousadia e o encheu de dúvidas. Na verdade, segundo as palavras do próprio Cabral, ele possuía uma incapacidade de fixar sua atenção no tempo – exigência para se fruir música –, só conseguindo fixá-la no espaço, o que acontece com a pintura, a escultura, dentre outras. Seus poemas, em minha visão, apresentam essa exigância plástica, portanto. Lidam com o apreensível e concreto.
Em 1968, João Cabral é eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Tendo sofrido de dores de cabeça por toda a vida, sua outra doença é degenerativa e o leva à cegueira, prendendo-o a uma depressão que o leva, finalmente, à morte.
Obras: Pedra do Sono (1942); Os Três Mal-Amados (1943); O Engenheiro (1945); Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947); O Cão sem Plumas (1950); O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife (1954); Dois Parlamentos (1960); Quaderna (1960); A Educação pela Pedra (1966); Morte e Vida Severina (1966); Museu de Tudo (1975); A Escola das Facas (1980); Auto do Frade (1984); Agrestes (1985); Crime na Calle Relator (1987); Primeiros Poemas (1990); Sevilha Andando (1990). Alguns dos principais prêmios recebidos: Neustadt International Prize for Literature (1992); Prêmio Jabuti, instituído pela Câmara Brasileira do Livro (1993) Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana (1994); Prêmio Camões (1990).

Começo minha análise recomendando o documentário “O artista inconfessável”, da Editora Alfaguara. Nos dois vídeos postados no YOUTUBE (clique aqui e aqui). Chamo a atenção para o enxugamento do estilo, chegando às raias da secura, que é a característica de um outro escritor nordestino, Graciliano Ramos. Será que a rudeza de grande parte do ambiente dessa região afetam o homem e sua poesia? A criação poética de João Cabral se dá através de uma necessidade grande de contenção, da negação da emotividade derramada. Seu texto se vale, principalmente, do aspecto intelectual na construção do texto. Há uma preocupação grande com a forma, o que leva o poeta Ferreira Gullar a ousar chamá-lo de “gongórico”, uma das facetas do Barroco, que se caracteriza por uma preocupação exagerada com a forma.
Eu, que trabalhei com João Cabral de Melo Neto, com A educação pela pedra, em 1979, e que o conhecia superficialmente, desde então, me apaixonei por seus poemas. Hoje, ao voltar a ele para analisá-lo, fiquei surpresa ao rever-me nele, em muitos aspectos, inclusive nesse mesmo meu amor pela dureza da pedra, que foi uma característica desse livro e o é de uma forma geral em sua obra, determinado seu estilo. No entanto, se em textos meus surge uma pedra metafísica – remeto a meu poema “Filosofia pétrea”, no blogue Poema vivo (aqui) e ao conto “Lição” (vejam o binômio “pedra/lição” em meu texto, que nem me lembrava mais) no blogue Conto-gotas (aqui) –, a pedra cabralina é bastante concreta, não só nos aspectos formais de seus poemas, como em sua aspereza natural, trazida mimeticamente para a linguagem. Não é à toa que o título de uma de suas obras é A educação pela pedra, ou seja, de aprendizagem dessa rudeza. Nesse aspecto, volto a Graciliano e a seu livro Vidas Secas, onde alguns analistas enxergam essa mesma secura imitativa da natureza, a presença, no nível da enunciação e da linguagem, da seca, da paisagem árida.
Posto três poemas do livro citado acima, tão característicos do estilo do poeta.
Devo confessar que foi para mim uma enorme difuculdade selecionar o que postaria. Optei por um recorte em seu universo temático.

A educação pela pedra

J. C. M. Neto

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

*
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

(Poesias completas: 1940-1965. 2ª Ed. Rio de Janeiro, J.Olympio, 1975. Informação para os três poemas.)

Desse texto, tiramos algumas conclusões das convicções poéticas de Cabral: aprende-se com a pedra, que é impessoal, discreta (inenfática) e não aceita se tornar dócil, flexível, não se permite fluir e renega, ainda, qualquer coisa fácil, fluente. Ele não deseja poemas, que sejam abordados com facilidade, mas de leitura trabalhosa, difícil. Veja que a lição poética da pedra é “sua carnadura concreta”: o poema acima, como os que se seguem, tem uma construção muito visual, o que acontecerá com os próximos. São dezesseis versos, divididos em duas estrofes, que, uma sobre a outra, parecem dois blocos de concreto.
Na segunda estrofe, a surpresa: essa pedra – e todos os seus atributos acima descritos – é alma, a alma do homem nordestino. Serão assim os escritores e seus escritos, João e Graciliano?

Catar feijão

A Alexandre O’Neill

J. C. M. Neto

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quanto ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.


Aqui a metáfora da pedra continua sua ousadia: “catar feijão se limita com escrever”. Para falar a verdade, mais do que uma figura de estilo, as metáforas do poeta vão além do nível da linguagem, sendo uma mensagem conceitual. E na segunda estrofe – novamente dezesseis versos em duas estrofes, dois blocos de concreto –, a revelação explícita: se ao catar feijão as pedras devem ser retiradas para não quebrar um dente, no ato poético, elas são imprescindíveis. Sua presença evitará a leitura fácil, fluente, já mencionada acima. Sua presença força o risco e faz a atenção ficar mais forte. Isso é “seu grão mais vivo.”
Mas o que significa, afinal, essa “pedra” no texto do poeta? Bem, quem leu o poema teve de ficar muito atento para o significado do que era dito. Não são poemas, realmente, cuja leitura aconteça com desenvoltura, nem no aspecto da dicção, nem no da mensagem pouco clara.
A própria escolha do vocabulário já é especial: algumas palavras não são de articulação poética (olhem lá “a dicção” das pedras) – “frequentá-la”, “soletrá-la”, “inenfática”, “pré-didática”, “imastigável” –, sua acentuação, sua sonoridade pouco musical: de repente surge uma dessas palavras como uma pedra no meio do feijão, que paralisa o mastigar – aproveitando-se, aqui, a metáfora do texto –, ou seja, interrompe a fluência da leitura, o que é o desejo do autor.
Isso também se dá com a quebra da sintaxe, o uso da frase não linear, através da subtração de termos (a lição de economia da pedra, “seu adensar-se compacta...”): “Uma educação pela pedra: por lições...” (Uma educação pela pedra deve ser feita por lições.) (1.º poema, 1.ª estrofe); “Certo não (Não é certo...), quanto ao catar palavras...”(2.º poema, 2.ª estrofe).

O urubu mobilizado

J.C.M. Neto

Durante as secas do Sertão, o urubu,
de urubu livre, passa a funcionário.
O urubu não retira, pois prevendo cedo
que lhe mobilizarão a técnica e o tato,
cala os serviços prestados e diplomas,
que o enquadrariam num melhor salário,
e vai acolitar os empreiteiros da seca,
veterano, mas ainda com zelos de novato:
aviando com eutanásia o morto incerto,
ele, que no civil quer o morto claro.

2.

Embora mobilizado, nesse urubu em ação
reponta logo o perfeito profissional.
No ar compenetrado, curvo e conselheiro,
no todo de guarda-chuva, na unção clerical,
com que age, embora em posto subalterno:
ele, um convicto profissional liberal.


Esse poema segue a mesma construção formal dos anteriores e apresenta os mesmos processos que foram citados acima.
Mas surge aqui mais fortemente a mensagem social, no nível do conteúdo do texto. Se a alusão ao sertão, no primeiro texto, e a análise do homem influenciado pela pobreza do meio ambiente, que inocula nele a dureza da pedra, já apontava sutilmente para tal temática, no último, o urubu é a grande metonímia do universo da morte, acontecimento marcante das secas do sertão. A caracterização de funcionário ao urubu, na sua missão de ser um dos braços da morte, marca-o como necessário, previsto e sublinha a crítica aos “empreiteiros da seca”, os verdadeiros objetos do julgamento. Ao contrário das demais aves, que se retiram, o urubu fica para se valer dessa morte.
No aspecto da linguagem, surgem, com intenção clara, algumas rimas, fenômeno que nos textos anteriores eram quase acidentais.
Também pode ser identificada a aliteração, que é a repetição de fonemas consonantais, o que dá um efeito sonoro.
E é impossível não se prestar atenção no uso continuado de fonemas fricativos – passagem do ar na boca através de uma estreita fenda –, nos versos transcritos abaixo (1.a estrofe) e que acabam criando uma suave musicalidade:
“...veterano, mas ainda com zelos de novato:/aviando com eutanásia o morto incerto...” (o destaque é meu).
Esses dados tornam o texto cabralino menos duro do que ele pretendia. A própria presença da metáfora, recurso estilístico marcador de pessoalidade, como já se havia afirmado em outras postagens anteriores – impossível não se ressaltar o “no todo de guarda-chuva” para “urubu” – anula um pouco “a voz inenfática, impessoal” da pedra, assumida pelo poeta.
Nesses três poemas, pode-se perceber o modus faciendi do poeta nesse livro citado: na primeira estrofe são apresentadas características gerais que, ao serem particularizadas, são negadas, clara ou parcialmente, na segunda. Isso se dá em relação ao sertão ou à literatura, o que enfatiza para o destinatário a especificidade desses dois objetos de Cabral. Olhe aí, novamente, assumido para si o recato expressivo da pedra, seu inenfatismo: o texto realça o sertão e a escrita literária por um viés subliminar. No documentário citado – é imperdível! –, alguns depoimentos chamam atenção para o fato de que, se o enunciador é contido nas emoções, ele consegue o efeito de produzir no leitor a comoção radical que leva às lágrimas. Abaixo, exemplifico o fato.
1.º poema: “Uma educação pela pedra: por lições” (1.ª estrofe, 1.º verso) – “Outra educação pela pedra: no Sertão” (2.ª estrofe,1.º verso)
“A lição de moral, sua resistência fria” (1.ª estrofe, 5.º verso) –
“No Sertão a pedra não sabe lecionar,” ( 2.ª estrofe, 3.º verso)
2.º poema: “Catar feijão se limita com escrever:” (1.ª estrofe, 1.º verso) – “Ora, nesse catar feijão entra um risco:”(2.ª estrofe, 2.º verso);
“Certo, toda palavra boiará no papel,” (1.ª estrofe, 5.º verso) – “Certo não, quanto ao catar palavras:” (2.ª estrofe, 5.º verso).
3.º poema: “O urubu não [se] retira, pois prevendo cedo/que lhe mobilizarão a técnica e o tato,” (1.ª estrofe, 3.º e 4.º versos) – “Embora mobilizado, nesse urubu em ação...” (2.ª estrofe, 1.º verso; implícita, no uso do “embora”, a negação da estrofe anterior.)
Remeto a minhas postagens de hoje (06-02-2010), em Conto-gotas e Poema vivo, dois textos feitos há meses atrás, antes da composição desta análise. Pela relação com o dito aqui, pergunto: será metempsicose ou apenas afinidade poética? Solicito ao visitante conferir e me dar a resposta.

Ao final, brindo a todos com trecho de Morte e vida severina, introdução abaixo, na voz de Chico Buarque, autor da música gravada como “Funeral de um lavrador.” Agradeço mais uma vez ao YOUTUBE (clique aqui). Aproveite.

“Assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério.” (João C. M.Neto)



4 comentários:

Eloah Borda disse...

Oi, Eliane, vim agradecer sua visita ao meu blog. Eu gostaria de ser mais presente, mas por mais que eu tente esticar meu tempo, ele teima em se fazer escasso...
A Ju é uma grande poeta, e a admiro muito.
Um bom fim de semana.
Abraço.
Eloah.

Sonia Schmorantz disse...

"É a possibilidade que me faz continuar e não a certeza. Uma espécie de aposta da minha parte. E embora me possam chamar sonhador, louco ou qualquer outra coisa, acredito que com Deus tudo é possível..."
Um lindo domingo e ótima semana!
abraços

ju rigoni disse...

Não é fácil alcançar a essência aparentemente empedrada (ele era um gênio!) da poesia de João Cabral.

Especialmente, porque ela se veste de tantos significados, cuidadosamente encapsulados, protegidos de uma emoção explícita.

Durante minha vida, eu o li muitas vezes. Sempre exercitando-me num infinito catar e recatar os meus próprios feijões entre os feijões por ele catados e recatados sem qualquer recato. E, até hoje, admito, continuo a catá-los... Mas é isto, a busca da essência, - esse mistério -, que torna mais instigante e mais estimulante a leitura de seus poemas.

Em verdade, é preciso muita sensibilidade para escrever de modo tão contido. Porra, João Cabral era um ser Humano! Com agá maiúsculo. Sua poesia é eminentemente social.

Pode-se imaginar quantos feijões ele catou para não desnudar a alma; para mantê-la o mais distante possível do fazer habitual da geração de poetas que o antecedeu, e dos poetas de sua própria geração.

Subvertendo significados, e com a devida licença de Drummond, João Cabral foi e será sempre a "pedra" no caminho da História da poesia brasileira. Porque sua obra é realmente única.

Maravilha de publicação, Eliane!

Bjs e inté!
ps - Assim que possível, vou lá em seus blogues para ler o poema e o conto indicados.

Rafael Ricarte. disse...

olá.
Primeiramente, parabéns pelo texto, gostei do blog, e adorei suas análises. Gostaria de ler algo seu sobre a Fábula de Anfion, de João C. de M. Neto. Aguardarei ansioso... bjão.

Rafael Ricarte