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sábado, 10 de agosto de 2013

Estudo de Escobar: desagravo a Capitu

Eliane F.C.Lima  (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

A reflexão de hoje será feita, em duas partes, sobre uma personagem de Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, personagem central na trama, mas que normalmente é relegada a segundo plano em comparação com a controversa personagem Capitu, que se torna o objeto principal da narração, na velhice, feita pelo ciumento marido – Bentinho –, cujo objetivo é sobrepor prova sobre prova da personalidade capciosa da ex-esposa e de sua suposta infidelidade: “olhos de ressaca”; “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, dentre outras. Tal figura feminina tem frequentado um número enorme de análises do romance, quase sempre com a mesma visão do narrador, indício de que a argumentação daquele atingiu seu intento principal, que era o de tomar quem lê – e desse destino não escapa a maioria dos críticos – como principal cúmplice de sua teoria.
Escobar é o amigo de Bentinho, amigo do seminário, que seria o par de Capitu nessa presumida traição, mas que, estranhamente, não tem tido o mesmo prestígio da companheira de ficção. Seria o destino de Capitu o mesmo da Eva bíblica – e sua serpente, como sua versão zoomórfica –, ou seja, ligado à maligna e traiçoeira “essência” feminina?
Ao longo de seu discurso, Bentinho também vai, aos poucos, fornecendo a seu destinatário sinais significativos – segundo sua visão parcial de narrador profundamente magoado e envolvido na história – da personalidade do companheiro, embora a aparente inocência com que o faz – ou seria complacência? – possa intrigar a pessoa leitora, se se confrontar com a implacabilidade de sua análise da personagem feminina. A tão somente contínua narração de passagens que dão pistas sobre o caráter de Escobar já faz quem lê suspeitar de que o estado de ingenuidade de Bentinho sobre o antigo camarada é falso, que ele pretende marcar o perfil de sua personagem masculina, o que surpreende sobre seu omisso e condescendente julgamento sobre ela, comparativamente ao inclemente juízo sobre Capitu. Se Escobar conseguiu fugir da condenação da personagem narradora, à época em que os fatos aconteciam, via morte – afoga-se nadando –, por que o sentimento de tolerância persiste, no final da vida de Bentinho, quando resolve fazer um balanço judicativo e implacável?
Façamos um breve preâmbulo sobre Escobar, o qual era três anos mais velho que o ingênuo amigo: primeiro é preciso se atentar para o fato de que, tendo  se tornado amigos durante sua estada no seminário, o companheiro abandona seu desejo de ordenar-se padre – por quê? –  praticamente à mesma época do protagonista, para dedicar-se ao comércio, o que, convenhamos, é uma guinada bem violenta em relação às intenções iniciais. Guardemos essa vocação “comercial” como um traço importante da sequência narrativa – e argumentativa – que está por vir.
Durante sua estada ali, fala repetidamente de uma irmã, louvando-lhe em excesso as qualidades, chegando ao ponto de mostrar a Bentinho as cartas que essa lhe envia. Quem lê já começa a estranhar essa porta aberta em sua intimidade – ou na intimidade de Bentinho –, o que não era comum naqueles tempos, ou a desconfiar de sua pretensão. Adiante, no mesmo capítulo, Bentinho completa, a respeito das palavras da irmã do outro, que “tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela se não fosse Capitu.”
Comecemos, então, a analisar o discurso de Bentinho sobre Escobar através – a suspeita sobre as palavras do Bentinho ciumento deve ser mantida pelo analista isento – da narrativa.

Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam as outras, nem se deixava apertar delas, porque os dedos, sendo delgados e curtos, quando a gente cuidava tê-los entre os seus, já não tinha nada. (capítulo LVI)

Uma coisa não seria tão fugitiva, como o resto, a reflexão: íamos dar com ele, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando. (o mesmo capítulo)

Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me frequentemente explicações e repetições miúdas, e tinha memória para guardá-las todas, até as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra. (o mesmo capítulo)
 


A reflexão dos exemplos acima já configura um ser esquivo, que pouco se deixa revelar – “não sabendo por onde lhe pegasse” –, mas que, ao contrário, tem como costume – pelo menos a Bentinho – investigar o outro.
Alguns parágrafos à frente, o narrador completa: 


A princípio fui tímido, mas ele fez-se entrado na minha confiança. Aqueles modos fugitivos cessavam quando ele queria, e o meio e o tempo os fizeram mais pousados.


A impressão que fica é de alguém que quer observar miudamente, sem ser observado. E o resultado dessa observação  – “... e tinha memória para guardá-las todas, até as palavras.” – parece estar contemplado naquele “cogitando”, termo cuidadosamente escolhido pelo narrador, pois cogitar é muito mais do que simplesmente pensar. Visto que os trechos anteriores fazem parte do mesmo parágrafo, concluí-se – essa provavelmente é a intenção do narrador no momento de seu relato – que a memória das explicações e repetições miúdas, dadas por Bentinho, devia ser, muita vez, a matéria do cogitar da personagem  descrita.
Por último, é impossível, igualmente, não se encontrar semelhança entre o “não fitava de rosto”, para Escobar no primeiro exemplo, e “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, aplicados a Capitu.
Do mesmo modo, é igualmente impossível não se reconhecer afinidades entre o “... pedia-me frequentemente explicações e repetições miúdas” e  o “olhos enfiados em si, cogitando”, isto é, no costume da “reflexão” sobre as informações persistentemente buscadas, por parte de Escobar e essas mesmas características na menina amada por ele:

Capitu refletia. A reflexão não era cousa rara nela, e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos. Pediu-me algumas circunstâncias mais, as próprias palavras de uns e de outros, e o tom delas. (cap. XVII)

Mostrar que Escobar e Capitu eram feitos um para o outro é a intenção do velho dom casmurro? 
(Este artigo continua na próxima postagem).

Remeto a meus blogues Conto-gotas (link) e Poema Vivo (link).

Um comentário:

Homossexual e Pai disse...

gosto muito de Dom Casmurro, e acho a Capitu "deliciosamente" mau caráter... Sua análise foi bem profunda, e acho que levantou pontos legais... mas eu sou nem mais rês-ao-chão, gostar e se envolver ou não!
beijos e vamos nos falando, nos lendo!