Pesquisar este blog

sábado, 10 de julho de 2010

Os arranjos no tempo de Zulmira R. Tavares - Literatura, já 16/Palavras sobre palavras 20

Eliane F.C.Lima

Faço hoje a segunda postagem sobre um texto de Zulmira Ribeiro Tavares, agradecendo ao Google a imagem. No final de meu comentário, coloco um link para quem quiser ler a outra. Ali também há uma breve biografia sobre a escritora.



Arranjos no tempo


Em um canto do jardim o menino escondido dentro da moita espiona a casa.

Dentro da sala, o avô cabeceia na poltrona e procura a sua infância com dedos sonolentos arranhando a manta xadrez. A infância lhe aparece como certa moita com um menino dentro. O passado é um ovo verde e folhudo guardando um menino espião da vida.

Na cozinha a mulher bate as chinelas no chão, bate as panelas, taramela com os restos do sol que entram – o nariz virado para o poente.

Do outro lado da cidade estão enterrados há tempo pai e mãe. Os ossos limpos foram guardados em gavetas como os talheres depois da última refeição serão limpos e guardados.

A mulher logo irá chamar para a mesa. O avô então vai dar um pulo da poltrona, ficar muito esperto e esfomeado. O ovo verde da infância vai se quebrar e de dentro saltar o menino pronto para abrir a boca enorme e comer de tudo; e ficar depressa comprido como o futuro, onde moram o avô da poltrona e a mulher das panelas.

Mastigarão calados e irão escutar a mastigação um do outro até o fim. A mulher vai taramelar com os pratos sujos, vai olhar para a lua subindo na janela, vai lavar os talheres em muitas águas.

Limpos, os talheres serão guardados nas gavetas como os ossos foram guardados depois que pai e mãe os abandonaram.

Em mais de uma água os dias e as noites serão levados aos poucos para o outro lado da cidade – com o menino, o avô, a mulher, a moita, a poltrona, as panelas; a própria casa vai se soltar e atravessar a distância atrás deles todos.

(TAVARES, Zulmira R.. Cortejo em abril: ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 1998).

O texto se inicia por um "menino escondido dentro da moita". O segundo parágrafo, porém, trata de reduzir esse menino à sua condição onírica, memória do passado do "avô", embora o verbo no presente – “espiona” – o resgate desse tempo ido. E ele aparece muito vivo e ainda atuante – “O ovo verde da infância vai se quebrar e de dentro saltar o menino pronto para abrir a boca enorme e comer de tudo".
Não é à toa, então, o título: mais velho do que o "avô", porque veio ao mundo antes dele – o chamar de "avô" introduz uma ambiguidade no texto e leva o leitor a acreditar no "menino" como terceira personagem da casa –, pertencente a um tempo que se foi, ele consegue trazer sua infância até o presente. E tal tempo, então, ainda se guarda como "um ovo verde e folhudo". E esse menino insiste em "espionar" a casa e, principalmente, a vida, não rendido, não ido. Apresenta-se sempre que lhe é possível. Ele é, na verdade, testemunha de que o velho está vivo. Sua existência está intersecionada a do outro.
Os "arranjos do tempo", entretanto, não se dão apenas no nível da narrativa, realizam-se mais ainda na linguagem. Atentemos para que o fato de que o texto está dividido em oito parágrafos, os quatro iniciais com verbos no presente. Só pertencem ao passado – “foram guardados” – os "ossos limpos" do pai e da mãe, os quais, mesmo assim, hoje, "estão enterrados".
Os quatro parágrafos finais levam ao futuro, que parece ser o tempo da realização. Na verdade, me parece ser o tempo padrão, o tempo do menino, o qual, não sendo passado, nem presente, é o futuro, em que será "o avô da poltrona", morando com a mulher, sem sua ilusória vida de presente. É o futuro, enfim, nesse jogo com os outros tempos, que os reunirá, a todos, aos ossos de pai e mãe, "no outro lado da cidade".

Para ver o texto anterior da talentosa escritora e a respectiva análise, clique aqui
)

5 comentários:

Carmem Teresa disse...

Não conhecia a autora e nem o texto...Uma grata descoberta...Texto esmiuçado e forte, sem perder o encanto.O ovo_ como própria representação do cosmo, do mundo, da vida_ torna-se a atemporalidade nessa viagem que completa todo o ciclo do existir...

Salete Maria disse...

Estimada Eliana,

Obrigada pela visita a meu blog. Adorei o seu blog. Lindo, cheio de vida, emoçao...vou visitar mais vezes. Bênçãos sobre tua vida!
Salete Maria

ju rigoni disse...

Impressionante, a atmosfera que ela consegue criar, e que se adensa cada vez mais, durante a leitura. No segundo parágrafo, eu eu já havia feito meus próprios "arranjos no tempo" e estava , - acompanhando de perto os personagens.rsrs

E quanta poesia!...

Escritora que eu não conhecia. Talento, é pouco para definir seu invejável domínio da linguagem poética em favor do conto.

Que maravilha, Eliane! Bjs e inté!

Samia Mounzer disse...

Eliane,
Antes de tudo, agradeço a visita. E mais: agradeço por este espaço. Você nos mostra autores e nos aprimora o olhar. (Os textos, por si só, não são nada sem quem os leia.) Parabéns! Acaba de ganhar uma leitora assídua.

Salete Maria disse...

Estou encantada com seu perfil! Também me dedico a questão da mulher como autora...tenho um cordel chamado MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL, ta no blog www.cordelirando.blosgpot.com
Ah, e no google voce pode encontrar um artigo de uma moça chamado ESTRATÉGIAS DE (IN)VISIBILIDADE FEMININA NA LITERATURA DE CORDEL...muito bacana...demais!
Bom domingo!

Salete Maria