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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Literatura, já 3



Wellington Lima

Meu irmão Wellington trabalhava no Banco do Brasil, mas sua alma era de pintor e poeta. Tenho seus quadros marcantes, na parede de casa, consolo pequeno.
Ele imprimia suas poesias e passava de mão em mão. Tempos anteriores à Internet.


Foi-se cedo, em 1994. Vivo fosse, teria um blog literário. Eu, que tenho acesso à rede, hoje, presto-lhe uma homenagem póstuma, publicando sua imagem querida, em momentos de descontração, e seus belos textos.

Poema I - Brasileiro

Wellington Lima

Eu só falo em brasileiro,
o meu verbo é o do morro,
aquela língua gostosa,
da massa, da escória, do povo.
É só brasileiro que eu falo,
é um idioma novo.

Falo a língua do trabalho,

Do metrô e do punguista,
do pivete, do operário,
mais platéia que artista,
é só brasileiro que eu falo,
só aí vai minha vista.

Não trabalho em meus trabalhos,
tentando elitizar,
o português, literário,
não tento me enganar,
não tento fugir da fome,
que eu vejo por aí,

suntuando os meus versos,
rima rica, aqui e ali.

É só rima pobre e fome,
Coração, lama e pó.
Só falo nesse idioma,
nele, eu desato o nó
da revolta desse povo;
é só brasileiro, só.


Poema II

Wellington Lima

Da borboleta se espera leveza.

Leveza no existir

aquela fugacidade:

o vôo solto repentino

imprevisto – parabólico –

E a cor

, se espera cor...

Luz e cor

fugaz fogo-fátuo momento liberdade.

Da borboleta...isso.

Ela surge como uma colorida impossibilidade,

uma irrealidade romântica

a ver como sonho:

como pode ela aqui

aço concreto asfalto cimento

calor

poeira dinheiro (buzina) seu guarda barulho

– calor –

matemática botões elevador

. E ela.

Leve.

Leve.

Leve.

Cor. É ela.

Você viu?



Poema III


Wellington Lima


No fundo do peito

ainda a pulsão

da vida passando em mim.

Desejo maior

, sim,

vontade

do amor que sobe

enquanto meu pranto cai.

Vontade,

desejo e paixão,

minha cara na moeda

, diz que é. Mas

A risada,

o gozo,

o fim da solidão...

Meu pé – coroa –

meus passos traçando a reta

do depois.

Da curva,

que vem.

Alguém.







5 comentários:

Sonia Schmorantz disse...

Oi menina

Sobre teu irmão, gostaria de dizer que foi um poeta, foi não..ainda é, porque poetas não morrem, os poetas perseguem o sonho e a eternidade. As palavras continuarão mesmo que a mão não possa escrever outros, pois o legado que deixa o torna imortal, seus versos serão sempre vida. Aqui, esta tua postagem, comprova isso.
beijos

Marise Ribeiro disse...

Eliane, é um grande presente que você me dá em poder conhecer as poesias do Wellington. Traço forte com pinceladas de leveza! Você está certa quando diz que ele teria um blog, quem sabe até um livro!
Adorei! Felicidades para o novo espaço!
Beijos,
Marise

claudio rodrigues disse...

É um pintor, pinta ora com sutileza, ora com força. Belos poemas.

Anônimo disse...

Belíssimos poemas! Inteligentes, bem trabalhados, de imagens fortes!

ju rigoni disse...

Bela e merecida homenagem! Vejo que a poesia está no sangue da família.

Os poemas são lindos! E do jeito que eu mais amo: certeiros.

Bjs e inté!